sábado, 26 de janeiro de 2019

447 - Morreu Alessandro Rodrigues Rocha.




Faleceu hoje, 26 de janeiro de 2019, o teólogo Alessandro Rodrigues Rocha. Ele sofreu um acidente de carro na tarde de hoje e, infelizmente, não sobreviveu. Professor Alessandro vinha se destacando nos últimos anos como um dos mais promissores teólogos do Brasil com dezenas de publicações como Razão e Experiência; Filosofia, Religião e Pós-modernidade dentre outras.
Biografia
Graduado em Teologia pelo STBSB, graduação em Bacharel em Teologia pelo CES/JF, graduação em Filosofia pela UCP, especialista em Ciências da Religião pela UGF, especialista em Educação pela PUC-Minas, mestrado em Teologia pelo STBSB, mestrado em Humanidades, Culturas e Artes pela UNIGRANRIO, doutorado em Teologia pela PUC-Rio, pós-doutorado em Letras pela PUC-Rio, pós-doutorado em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente é diretor do Instituto Interdisciplinar de Leitura da PUC-Rio, professor da graduação e da pós-graduação da Faculdade Unida.

Alguns livros do prof. Alessandro.






























Tive a honra de conhecer o prof. Alessandro e aprendi a admirá-lo.
Recebi com profunda tristeza a notícia.





terça-feira, 8 de janeiro de 2019

446 - Entrevista com Jürgen Moltmann, Teólogo Protestante da Esperança,



O que pode (ainda) esperar? O grande teólogo da esperança, Jürgen Moltmann, 92 anos, compartilha aqui o que fez e vive



O que pode (ainda) esperar? O grande teólogo da esperança, Jürgen Moltmann, 92 anos, compartilha aqui o que fez e vive.

Você poderia mencionar alguns momentos essenciais da sua "existência teológica"? Como você se tornou o teólogo que é hoje?
Aos dezesseis anos, em 1943, fui alistado no exército alemão. Eu vim de um lar não religioso. Eu havia realizado meu catecismo com indiferença. Com um batalhão de defesa antiaérea, fui ao centro de Hamburgo e sobrevivi à destruição da cidade em julho de 1943. 14.000 pessoas morreram sob fogo. Foi então que gritei pela primeira vez a Deus: "Meu Deus, onde você está? "
Em 1945, fui feito prisioneiro e perdi toda a esperança até que um capelão me oferecesse uma Bíblia. Li os salmos de lamentação do Velho Testamento e a história da Paixão de Jesus. E eu sabia: "Aqui está um homem que te entende melhor do que todos os outros. O abandonado Cristo de Deus ajudou o abandonado prisioneiro de guerra de Deus. Durante meu cativeiro, comecei a estudar teologia e ver se isso levava a algum lugar.
Estudei teologia no Norton Camp, em Nottingham County, Inglaterra: havia uma escola de treinamento teológico cercada por arame farpado. Havia a mesma coisa na França, em Montpellier, para os prisioneiros alemães. Eu então estudei teologia em Göttingen. Eu queria ser pastor na RDA, mas os russos não me deixaram entrar. Foi assim que me tornei, durante cinco anos, pastor da aldeia perto de Bremen.
O segundo evento decisivo é, sem dúvida, o meu casamento com Elisabeth Moltmann-Wendel. Ela estudou teologia também. Seu amor me libertou dos laços da minha alma em cativeiro. Ela se tornou uma teóloga feminista na Alemanha. Nós levamos nossa existência teológica a dois. Ela morreu há dois anos.
Seu pensamento teológico mudou ao longo dos anos?
Sim, houve mudanças em minha teologia, desde a Teologia da Esperança (1964) até o Deus crucificado (1972) e o Tratado Ecológico da Criação (1985). Finalmente, eu tinha uma reorientação pneumatológico e então eu escrevi O Espírito dá a vida em 1989. Na teologia pentecostal americano foi descrito minha teologia como um reconhecimento crescente de que o Espírito Santo É muito importante para mim.
Isso está relacionado a situações políticas. As Igrejas Européias são Igrejas Constantinianas: o Estado garante a segurança da Igreja. As igrejas asiáticas, africanas e sul-americanas são minoritárias nos países budistas, socialistas ou xintoístas. Sua única segurança é o Espírito Santo e o testemunho que eles carregam no mundo ao seu redor. Além disso, eles não têm segurança.
Você poderia resumir o que você acredita em algumas frases? Qual seria o seu credo pessoal?
Eu entendo isso em uma frase: "No final - o começo" (Im Ende der Anfang). Isso é o que eu vivi. Foi isso que expliquei em minha teologia da esperança. E é também a experiência de Jesus Cristo: no final, há o começo - na cruz há a ressurreição.
Em breve será o Natal. Em sua teologia, fala-se muito da cruz e da ressurreição de Jesus Cristo. Qual é o significado do Natal?
Grande alegria. Porque o Filho de Deus, Jesus Cristo, vem ao nosso mundo. O Natal é o nascimento do Salvador; Sexta-feira Santa é a morte do Salvador para todos nós; A Páscoa é a ressurreição do Salvador para um novo mundo.
Vamos chegar a esperança. O que distingue a esperança cristã de outras esperanças?
A esperança cristã vem da proclamação de Jesus sobre o reino de Deus que se aproxima. Ele pregou aos pobres, aos doentes e aos desesperados que eles têm esperança. A segunda âncora é a ressurreição dos mortos para a vida eterna. Nós somos ressuscitados imediatamente após a morte, não apenas no final dos dias em nossos túmulos.
Como você imagina a morte? Se eu me atrever a perguntar, como você imagina sua própria morte?
Eu não tenho medo da morte. Mas pode ser que morrer seja desagradável. O que eu estou esperando é entrar na luz quando eu morrer, à luz de Deus, na luz incriada de Deus - não a luz que sai agora, quando a noite cai.
Estritamente falando, só há pessoas mortas. Não há "morto". Ninguém nunca viu a morte. A única coisa que podemos ver são pessoas que morrem. Onde eles estão próximos, não sabemos. Ninguém jamais viu a vida eterna, exceto olhando para Cristo. E ninguém jamais viu o nada eterno do qual os homens não religiosos falam.
Antes de nascermos, não sabemos nada sobre esta vida. Antes da vida eterna, não sabemos nada desta vida que vem em nosso caminho. É um novo nascimento O bebê deixa o ventre materno em que ele estava seguro e nada sabe da vida que o espera. Ele deve aprender a respirar, ele deve aprender a receber comida pela boca, ele deve aprender a se mover, e ele não sabe nada disso quando está no ventre de sua mãe. O mesmo é verdade aqui: nós morremos nesta vida e nascemos de novo para a vida eterna.
Neste caso, esperar, é saber ou não saber?
Esperar é começar. Há algo de encantador em todos os começos, Hermann Hesse disse em um poema. No começo há algo encantador que nos tira de nós mesmos. Estamos aqui entre "conhecer" e "esperar".
Em sua teologia, a esperança é amplamente apresentada como brotando do sofrimento. Quais são os sofrimentos do homem de hoje em nossa sociedade ocidental?
Eu sou de uma geração que sobreviveu à guerra e viveu o fim do mundo. É impossível traduzir para os jovens que estão crescendo hoje. Eu estava um dia em Oslo. Os alunos me perguntaram sobre minha vinda à fé. Eu disse a eles o que vivenciei durante a guerra e durante meu cativeiro.
Eles então me perguntaram como alguém pode chegar à fé em circunstâncias normais (ele ri). Não encontrei uma boa resposta para lhes dar. Eu passei a conhecer a esperança como um homem da minha geração e prego a esperança como eu a conheci. A geração mais jovem de cristãos testifica o evangelho com outras palavras e eu o ouço.
É necessário ser um cristão sofredor e estar ciente disso para poder ter esperança?
Não. Devemos participar da vida de Jesus e do sofrimento de Jesus e da alegria do Ressuscitado. Fé, no sentido cristão, é comunhão com Cristo. Communio cum Christo, disse Calvin. O cristão é reconhecido pelo fato de acreditar em Cristo e viver com ele.
Como pode o homem, a mulher de hoje, também viver com esperança?
Todo homem que começa a viver espera levar uma vida bem-sucedida. Quando alguém encontrou o sentido de sua vida, ele está cheio de esperança. Homens de esperança vêem o mundo não apenas em sua realidade, mas também em suas possibilidades, e exploram essas possibilidades. Através do medo e do medo, exploramos as possibilidades de uma ordem negativa, para nos prepararmos para ela; na esperança e na alegria antecipada, exploramos as possibilidades que são positivas. Não há existência sem medo e sem esperança.
Essa é a esperança comum. A esperança cristã é, de fato, a esperança que Deus coloca nos homens. Deus não é apenas a nossa esperança: somos a esperança de Deus para a sua terra e para a sua criação . Eu estou ciente de existir quando alguém espera em mim e espera algo de mim. A vida do cristão é uma esperança para outros homens. Para mim, a morte de Dietrich Bonhoeffer foi uma esperança, porque quando ele veio fazê-lo, ele disse: "Este é o fim - para mim, o começo da vida eterna. E isso me convenceu.
No mundo ocidental, a geração mais jovem de teólogos não experimentou a guerra, o sofrimento indescritível, o mal em si mesmo. Qual seria o seu conselho para esses jovens teólogos?
Para os jovens alemães, eu daria o seguinte conselho: junte-se à associação "Sinais de expiação e serviço da paz" (Sühnezeichen und Friedensdienste). Foi criado há cinquenta anos e muitos jovens, incluindo meus próprios filhos, foram para Israel, Polônia e Rússia para ajudar as vítimas dos Nacional-Socialistas Alemães. E eles voltaram satisfeitos.
Entre escola e estudo, você precisa de um ano de vida prática. Sem isso, não entendemos nada sobre teologia. Conheço estudantes de teologia que nunca foram a um hospital ou funeral, que nunca viram uma pessoa morta ou conheceram um paciente.
E neste caso, o pensamento não vai longe o suficiente?
Nós ainda não vivemos.
O homem de hoje tem a impressão de que ele mesmo pode provocar o fim do mundo. Como a mensagem cristã da vinda final de Deus é compatível com isso?
Quando o mundo escurece nas trevas, diz o profeta Isaías, Deus cria um novo mundo em sua luz. A máquina de suicídio atômico não é apocalíptica: é obra de homens e é apenas destruição. "Revelação" significa revelação: é para ser entendida em um sentido positivo.
Deve um cristão desafiar esta ameaça em nome de sua esperança?
Sim! E deve estar comprometido com a paz e pressionar pelo desarmamento nuclear. Os atos do cristão são ética da paz, trabalho de reconciliação e trabalho de esperança. É estúpido que os homens não aprendam nada exceto através de desastres. Quando somos mais inteligentes, aprendemos fazendo o esforço para entender. Mas, Deus seja louvado, por setenta anos, nenhuma bomba atômica explodiu durante uma guerra.
É este o trabalho dos homens ou uma graça de Deus?
Recuso-me a colocar uma alternativa lá (ele ri). Os homens alcançaram isto com a graça de Deus: eles tiveram tempo e sabedoria.
Uma pergunta dos meus alunos. Eles entendem que a vida do cristão é caracterizada pela esperança em ação e resistência. Mas como o cristão pode lidar consigo mesmo, com suas fraquezas e fragilidades?
A esperança não é apenas o poder para começar: é também um poder que dá paciência. É preciso ter paciência não apenas em relação a outros homens que "batem nos nervos", mas também em relação a si mesmos. É difícil para os jovens! É uma questão de confiança em Deus e autoconfiança.
Tenho paciência comigo mesmo quando vejo claramente que Deus tem sido paciente comigo por tantos anos e não se desesperou comigo.
O homem de hoje pode se tornar um homem de esperança através de um esforço de compreensão, você disse, e não porque ele deveria ter passado por um desastre. Isso provavelmente exige muita reflexão e talvez muita oração?
Assista e ore. A oração não é uma faculdade própria do cristão. O Novo Testamento insiste em oração e vigilância. Ore, todos os homens fazem isso. Observar é a tarefa especial do cristão. Para orar, você tem que assistir. Em oração, geralmente fechamos nossos olhos.
Mas nós oramos Cristianamente quando temos nossos olhos abertos, direcionados para o futuro. Quando assistimos, sinalizamos os perigos do futuro; e quando alguém observa, alguém sinaliza a vinda do Reino de Deus. Reze e observe!
O que você está fazendo a si mesmo para não perder a esperança?
Eu de bom grado li o profeta Isaías, especialmente a segunda e a terceira parte. Eu li em 1 Coríntios 15 o grande capítulo da ressurreição. E eu recito o Salmo 103 todas as manhãs: "Coloque alegria em sua boca - e você se torna jovem novamente como uma águia. Eu preciso disso, com meus 92 anos de idade (ele ri).
É isso que a vida cristã é também uma pregação dirigida a si mesmo?
Sim! O salmo 103 começa assim: "Não esqueça de nenhum de seus benefícios! Aquele que perdoa todo o seu pecado e cura todas as suas fraquezas, que salvam a sua vida da corrupção, que te coroa com graça e misericórdia. "
Qual é a diferença entre fé e esperança?
Paulo diz em 1 Coríntios 13: "Agora fé, amor e esperança permanecem. No poema Pórtico do Mistério da Segunda Virtude, Charles Peguy disse: fé e amor se relacionam com o que está presente e esperam o que está por vir; a irmãzinha da esperança leva as grandes irmãs, o amor e a fé, para o futuro.
Assim, fé e amor dependem da esperança. Não há experiência real de fé sem esperança. E não há experiência real de fé sem amor. Os três se complementam.
O que seria amor em tudo isso, amor no sentido cristão?
O amor não busca a si mesmo: ama os outros e outras criaturas por si mesmos. Todo o resto seria apenas amor de si mesmo.
Existe também amor por Deus?
Sim. Mas devemos ter cuidado aqui para não nos afogar em um falso misticismo. O Shema Israel, é: 'Ouve, ó Israel, o Senhor vosso Deus, e você deve amá-lo com toda a sua força e com todas as suas faculdades. É "o Senhor" quem é Deus. O Senhor é aqui o Deus do Êxodo, o Salvador de Israel. O Senhor é também a morada, a descendência de Deus em Israel. Jesus é chamado o Senhor, o Salvador: Ele pode ser descrito como a morada de Deus entre nós.
O esoterismo e o misticismo não são compatíveis. Basta comparar Thomas Merton e Teresa de Ávila com a oferta mística do esoterismo hoje. Esoterismo busca transcendência. O misticismo cristão reconhece Deus através do sofrimento: o conhecimento de Deus passa pelo sofrimento de Deus.
Existe uma especificidade da experiência cristã, pela fé, esperança e amor?
A esperança nos permite fazer novas experiências. Na fé cristã, eu faço com a vida humana, com a socialidade humana outras experiências. Por exemplo, quando pertenço à Igreja, pertenço a uma comunidade que é do tamanho do mundo e não posso me tornar nacionalista.
Quais você acha que são os principais obstáculos à esperança no mundo de hoje?
É a ilusão, em nossos países ricos, de que somos ricos e de que não sentimos falta de nada. Eu viajei extensivamente pela Ásia e pela América do Sul. Lá, os pobres estão cheios de esperança, de modo que eles cantam e dançam nas igrejas pentecostais: eles não perderam o coração.
O homem secular vive em um mundo sem futuro. E a transcendência está fechada para ele. Ele faz sua vida, se puder, uma celebração permanente. Ele se diverte e não sabe nada sobre alegria.
A alegria é algo profundo e único. A diversão é superficial e te deixa com fome por mais diversão ainda, e nos deixa lá, sem graça e vazio.
Isso significa que a alegria vem quando ela quer?
Sim. Mas é por essa alegria que somos criados e nascemos.
Entrevista por Madeleine Wieger, professora da Faculdade de Teologia de Estrasburgo.



História de um retorno à esperança
Jürgen Moltmann nasceu em 1926 em Hamburgo (Alemanha). Ele cresceu em uma pequena família religiosa, apesar da cultura protestante. Aos quatorze anos, o adolescente é intimado a integrar a Juventude Hitlerista, como todos os jovens de sua idade. Três anos depois, ele será alistado no exército alemão, o que impedirá que ele termine o ensino médio.
De 1945 a 1948, prisioneiro de guerra, mudou-se do campo para o campo na Bélgica, Escócia e Inglaterra. É aí que ele revive a fé cristã - não sem passar por uma fase de perda de confiança em sua própria cultura, descobrindo os crimes nazistas. "Eu não encontrei Cristo, ele me encontrou", ele gosta de dizer. Nature and Fate of Man, de Reinhold Niebuhr, é a primeira obra de teologia lida pelo jovem Jürgen, depois colocada em um campo administrado pela organização protestante YMCA. Estamos em 1946
Depois da guerra, ele saiu para estudar teologia na Universidade de Göttingen, com um certo Karl Barth como professor. Em 1952, ele se casou com a teóloga Elisabeth Wendel. Juntos, eles terão quatro filhas. Então, de 1953 a 1958, ele foi pastor antes de iniciar uma carreira como professor. Sua Teologia da Esperança aparece em 1964 e fará Moltmann conhecido no cenário teológico internacional. Inspirará a teologia da libertação.
Claire Bernole

Ele é um daqueles teólogos que viveram antes de escrever ...
"No final - o começo. (...). Eu gostaria de traduzir por essas palavras o poder da esperança cristã, porque a esperança cristã é o poder de ressuscitar das falhas e derrotas da vida. É o poder que, sombras da morte, revive a vida. Ela é o poder para começar de novo, onde o pecado tornou a vida impossível. Pois ela é o espírito do Espírito da ressurreição de um homem traído, abusado e abandonado: Cristo. Porque Deus o despertou dos mortos, o fim de Cristo na cruz do Gólgota, aquele fim sem fim, tornou-se para ele o verdadeiro começo."
Assim abre o Pequeno Tratado da Esperança que Jürgen Moltmann publicou em 2018 (não traduzido para o francês). Na velhice, ele ainda está escrevendo. E ele ri. Eu digo a mim mesmo, observando que a teologia não é para ele um exercício acadêmico de grandes pessoas.
Ela é o que fala em sofrimento, por causa da ressurreição. E, por escrito, Jürgen Moltmann ainda está trabalhando com esperança, sem dúvida. Ele é um daqueles teólogos que viveram antes de escrever e que mergulham a pena na vida, mesmo quando falam da Trindade. Sua teologia é atingida pelo canto de sua experiência. Ele vibra com ousadia, já que a vida em si nem sempre é cautelosa. Ela ri do "o que dizemos": ela se aprofunda. Ela avança. Ele avança. Novamente.
MW





segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

445 - Bibliografia para Estudo do Apocalipse de João.



Graduação Teologia -1º Semestre/2019.

Texto Grego
ALAND, K et al. The Greek New Testament. 4º revised edition. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2001.

Instrumentos de Trabalho
BERGER, K. As formas literárias do Novo Testamento. São Paulo: Edições Loyola, 1998.
CONEN,     L.;   BROWN,   C.    Dicionário Internacional de   Teologia  Novo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 2000.
EGGER, W. Metodologia do Novo Testamento: Introdução aos métodos linguísticos e histórico-críticos. São Paulo: Edições Loyola, 2005.
FEE, G. D.; STUART, D. Entendes o que lês. São Paulo: Vida Nova, 1997.
GARCÍA SANTOS, A. A. Gramática do grego do Novo Testamento. São Paulo: Edições Loyola, 2008.
OLIVEIRA, M. M. de O. et al. Métodos para ler a Bíblia. Petrópolis: Editora Vozes; São Leopoldo: Editora Sinodal, 1991.
PEREIRA, I. Dicionário Grego-português e português-grego. Curitiba: Apostolado da Imprensa, 1990.
REGA, L. S.; BERGMANN, J. Noções do grego bíblico. São Paulo: Vida Nova, 2004.
SCHNELLE, U. Introdução à Exegese do Novo Testamento. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
SILVA, C. M D. Leia a Bíblia como literatura. São Paulo: Edições Loyola, 2007.
SILVA, C. M D. Metodologia de Exegese Bíblica. São Paulo: Paulinas, 2000.
WEGNER, Uwe. Exegese do Novo Testamento. São Paulo: Sinodal e Paulus, 2005.

 

Bibliografia Básica para o Estudo do Apocalipse

ALFARO, J. I. O Apocalipse: em perguntas e respostas. São Paulo: Edições Loyola, 2002.
ARANDA PÉREZ, G. Literatura judaica intertestamentária. São Paulo: Editora Ave Maria, 2000.
BORNKAMM, Günther. Bíblia Novo Testamento. 3. Ed. São Paulo: Teológica, 2003.
CORSINI, E. O Apocalipse de São João. São Paulo: Edições Paulinas, 1984.
CUVILLIER, É. O Apocalipse de João. In: MARGUERAT, Daniel (Org.). Novo Testamento: História, escritura e teologia. São Paulo: Edições Loyola, 2009.
DESIVA, David A. A esperança da glória: reflexões sobre a honra e a interpretação do Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2005.
ELLUL, J. Apocalipse: arquitetura em movimento. São Paulo: Edições Paulinas, 1979.
FIORENZA, E. Juízo e salvação. In: SHREINER, J.; DAUTZENBERG, G. Formas e Exigências do Novo Testamento. São Paulo: Teológica e Paulus, 2004.
GRELOT, P. A esperança judaica no tempo de Jesus. São Paulo: Edições Loyola, 1996.
GIRARD, M. Os símbolos da Bíblia. São Paulo: Paulus, 1997.
GOPPELT, L. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Ed. Teológica; Paulus, 2003.
HOWARD-BROOK, W.; GWYTHER, A. Desmascarando o imperialismo. São Paulo: Edições Loyola; Paulus, 2003, p. 153-154.
JEREMIAS, J. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 2004.
KISTEMAKER, S. Apocalipse: comentário exegético. São Paulo: Ed. Cultura Cristã, 2004.
KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 2004.
LOHSE, E. Apocalipsismo e cristologia. In: Apocalipsismo. Canoas: Ed. Sinodal,
1983.
MACHADO, Fonas. O Misticismo Apocalíptico do Apóstolo Paulo: Um olhar nas cartas aos Coríntios na perspectiva da experiência religiosa. São Paulo: Paulus, 2009.
MESTERS, C.; OROFINO, F. Apocalipse de João. São Paulo: Santuário; Fonte Editorial, 2013.
MOLTMANN, J. Teologia da esperança. São Paulo: Ed. Teológica; Loyola, 2005.
NOGUEIRA, Paulo. Experiência religiosa e crítica social no cristianismo primitivo. São Paulo: Paulinas, 2003.
ODORÍSSIO, M. Apocalipse: texto e comentário. São Paulo: Editora Ave-Maria, 2002.
PRIGENT, P. O Apocalipse. São Paulo: Edições Loyola, 2002.
PRIETO, Christine. Cristianismo e Paganismo: A pregação do evangelho no mundo grego-romano. São Paulo: Paulus, 2007.
PROENÇA, E. (Ed.). Apócrifos da Bíblia e pseudo-epígrafos. São Paulo: Fonte Editorial, 2004.
RICHARD, P. Apocalipse: reconstrução da esperança. Petrópolis: Vozes, 1999.
RUSSEL, D. S. Desvelamento divino. São Paulo: Paulus, 1997.
RUBENS, David. Apocalipse: Denominação e Conceito. Ribeirão Preto/SP: IBAD, Café Teológico. 05 de dezembro, 2016.
SAND, A. A questão do lugar vivencial dos textos apocalípticos do Novo Testamento. In: Apocalipsismo. Canoas: Sinodal, 1983.
SOTELO, Daniel. Apocalíptica do Antigo Testamento. São Paulo: Fonte Editorial, 2015.
SCHNELLE, U. O Apocalipse de João: ver e entender. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Academia Cristã; Paulus, 2010.
VALDEZ, A. O livro do Apocalipse. São Paulo: Fonte Editorial, 2009.
VANNI, H. Apocalipse. São Paulo: Edições Paulinas, 1984.
VIELHAUER, P. Literatura Cristã Primitiva – Introdução ao Novo Testamento, aos Apócrifos e aos Pais Apostólicos. São Paulo: Academia Cristã, 2005.

Revistas Científicas: Artigos
ADAM LAZIER, Josué. A Estratégia cristã no contexto da Pax Romana. Estudos Bíblicos, 36, Petrópolis: Vozes, p.37-40, 1992.
AZEVEDO, Josimar. A morte em tempos de Apocalipses. Estudos Bíblicos, 56, Petrópolis: Vozes, p.57-67, 1998.
COMBLIN, José. Apocalíptica judaica – Apocalíptica cristã. Estudos Bíblicos, 59, Petrópolis: Vozes, p.29-36, 1998.
COMBLIN, José. O Apocalipse de João e o fim do mundo. Estudos Bíblicos, 59, Petrópolis: Vozes, p.44-52, 1998.
CORNELLI, Gabriel. As pragas últimas... e as de todo dia – O poder cósmico e o poder cotidiano no livro do Apocalipse e na literatura comparada. Ribla, 34, Petrópolis: Vozes, p.120-129, 1999.
FERRER, Pablo M. A marca da besta. Ribla, 34, Petrópolis: Vozes, p.69-78, 1999.
FERREIRA, Joel Antônio. É possível rezar em tempo de perseguição? A liturgia da vida no Apocalipse. Estudos Bíblicos, 35, Petrópolis: Vozes, p.54-67, 1992.
FERREIRA, Joel Antônio. A mística do martírio no Apocalipse. Estudos Bíblicos, 97, Petrópolis: Vozes, p.86-93, 2008.
FERNÁNDEZ, Lauren & CASTILLO, Jaime. Sinais de esperança. Ribla, 39, Petrópolis: Vozes, p.139-153, 2001.
FILHO, José Adriano. O Apocalipse de João como relato de uma experiência visionária. Anotações em torno da estrutura do livro. Ribla, 34, Petrópolis: Vozes, p.7-29, 1999.
FILHO, José Adriano. Caos e recriação do cosmos. A percepção do Apocalipse de João. Ribla, 34, Petrópolis: Vozes, p.99-119, 1999.
FILHO, José Adriano. A Nova Jerusalém. Um estudo de Apocalipse 21,9-22,9. Estudos Bíblicos, 101, Petrópolis: Vozes, p.81-92, 2009. 66
FRIEDRICH, Nestor Paulo. Faça as primeiras obras: Apocalipse 1,1-7. Estudos Bíblicos, 49, Petrópolis: Vozes, p.71-89, 1996.
FRIEDRICH, Nestor Paulo. A besta no Apocalipse: uma descrição. Estudos Bíblicos, 74, Petrópolis: Vozes, p.96-106, 2002.
GALLAZZI, Sandro. Sem mar, sem templo e sem lágrimas (Apocalipse 21-22). Ribla, 34, Petrópolis: Vozes, p.93-98, 1999.
GARCIA DE BRAGA MELLO, Sérgio Henrique. O que o Espírito diz às Igrejas, Apocalipse 1,1–3,22. Estudos Bíblicos, 45, Petrópolis: Vozes, p.76-85, 1995.
GODOY FERNÁNDEZ, Daniel. Apocalipse 2 e 3 – Comunidades proféticas, de resistência e martirizadas. Ribla, 59, Petrópolis: Vozes, p.106-118, 2008.
HAM, Adolfo. “E o mar já não existe mais”. Ribla, 13, Petrópolis: Vozes, p.62-66, 1993.
KONINGS, Johan. O Senhor passou a reinar (Ap 19,6). Estudos Bíblicos, 78, Petrópolis: Vozes, p.95-101, 2003.
LIMA VASCONCELLOS, Pedro. A vitória da vida: Milênio e reinado em Apocalipse 20,1-0. Ribla, 34, Petrópolis: Vozes, p.79-92, 1999.
LOCKMANN, Paulo. A violência do Império e a justiça do Reino. Estudos Bíblicos, 69, Petrópolis: Vozes, p.61-71, 2001.
LÓPEZ, Javier. Contribuição do Apocalipse para uma evangelização da política. Ribla, 16, Petrópolis: Vozes, p.57-71, 1993.
MALAVOTTI, Henrique. A comunidade vira massa. Das sete Igrejas do Apocalipse ao novo céu e à nova terra. Estudos Bíblicos, 55, Petrópolis: Vozes, p.94-108, 1997.
MESTERS, Carlos & OROFINO, Francisco. A violência do Império Romano e a sua influência na vida das comunidades cristãs do fim do primeiro século. Estudos Bíblicos, 69, Petrópolis: Vozes, p.72-82, 2001.
MIGUEZ, Nestor O. As vítimas no Apocalipse. Estudo de Ap 5 depois de 500 anos de incorporação da América ao domínio ocidental. Ribla, 12, Petrópolis: Vozes, p.129-142, 1992.
MIGUEZ, Nestor O. Economia e vida plena na apocalíptica neotestamentária. Ribla, 30, Petrópolis: Vozes, p.137-156, 1998.
MIGUEZ, Nestor O. João de Patmos, o visionário e sua visão. Ribla, 34, Petrópolis: Vozes, p.30-44, 1999.
MIRANDA, Valtair. Um novo êxodo na direção da terra que mana a glória de Deus – Apocalipse 15. Ribla, 50, Petrópolis: Vozes, p.222-228, 2005.
MIRANDA, Valtair. Jesus e as tradições apocalípticas de Israel. Estudos Bíblicos, 99, Petrópolis: Vozes, p.42-50, 2008.
MONROY PALACIO, José Augustín. Comunidades em resistência, martírio e profecia à luz de Apocalipse 18,4-8. Ribla, 59, Petrópolis: Vozes, p.119-132, 2008.
MONROY PALACIO, José Augustín. Aliança, pacto de vida e pacto de morte (Apocalipse 13 e 18). Ribla, 61, Petrópolis: Vozes, p.123-135, 2008.
MOURA, Arlindo. A desmistificação dos poderes bestiais (Apocalipse 13). Estudos Bíblicos, 68, Petrópolis: Vozes, p.89-101, 2000. 67
NOGUEIRA, Paulo Augusto de S. Apocalíptico sim! Alienado não! Estudos Bíblicos, 31, Petrópolis: Vozes, p.71-78, 1991.
NOGUEIRA, Paulo. Êxtase visionário e culto no Apocalipse de João – Uma análise de Apocalipse 4 e 5 em comparação com viagens celestiais da apocalíptica. Ribla, 34, Petrópolis: Vozes, p.45-68, 1999.
NOGUEIRA, Paulo Augusto de Souza. Cativeiro e compromisso no Apocalipse. Estudos Bíblicos, 43, Petrópolis: Vozes, p.69-76, 1994.
NOGUEIRA, Paulo Augusto de Souza et alli. Apocalíptica cristã-primitiva: uma leitura para dentro da experiência religiosa e para além do cânon. Ribla, 42/43, Petrópolis: Vozes, p.162-190, 2002.
OLIVEIRA DE AZEVEDO, Walmor. Recorda-te! Converte-te! E pratica as obras primeiras! (Ap 2,5a) – Uma dinâmica penitencial da experiência cristã de conversão. Estudos Bíblicos, 39, Petrópolis: Vozes, p.44-49, 1993.
OLIVEIRA, Emanuel Messias de. Na perseverança da luta, a certeza da vitória. Um exemplo das primeiras comunidades (Ap 2,8-11). Estudos Bíblicos, 15, Petrópolis: Vozes, p.69-76, 1987.
RAMÍREZ FERNÁNDEZ, Dagoberto. A idolatria do poder (A Igreja confessante na situação de Apocalipse 13). Ribla, 4, Petrópolis: Vozes, p.81-95, 1989.
RAMÍREZ FERNÁNDEZ, Dagoberto. O juízo de Deus contra as transnacionais – Apocalipse 18. Ribla, 5-6, Petrópolis: Vozes, p.49-67, 1990.
ROCHA A., Violeta. Entre a fragilidade e o poder – Mulheres no Apocalipse. Ribla, 48, Petrópolis: Vozes, p.107-117, 2004.
RODRÍGUEZ GUTIÉRREZ, Jorge Luiz. Apocalipse. Ribla, 34, Petrópolis: Vozes, p.130-134, 1999.
RUBEAUX, Francisco. A luta permanente. Estudos Bíblicos, 6, 2.ed, Petrópolis: Vozes, p.65-77, 1987.
RUBEAUX, Francisco. “Caiu, caiu a Babilônia, a grande...” (Apocalipse 18,2). Estudos Bíblicos, 68, Petrópolis: Vozes, p.80-88, 2000.
SANTA ANA, Júlio de. A força do povo em tempos de crise. Estudos Bíblicos, 23, Petrópolis: Vozes, p.73-81, 1989.
SOUZA NOGUEIRA, Paulo Augusto de. A realização da justiça de Deus na história. Ribla, 11, Petrópolis: Vozes, p.98-104, 1992.
UETI, Paulo. Liturgia: lugar de encontro, dança, gravidez mística e práxica. Espaço da mistagogia libertadora – anotações a partir do Apocalipse. Estudos Bíblicos, 97, Petrópolis: Vozes, p.94-106, 2008.
VAAGE, Leif E. Ainda. O sentido dos sonhos interrompidos no Apocalipse (7,1-17; 10,1-11;14). Ribla, 24, Petrópolis: Vozes, p.105-114, 1996.
WEILER, Lúcia. Mulher-Maria-Comunidade-Povo – A mulher no Apocalipse 12. Ribla, 46, Petrópolis: Vozes, p.69-80, 2003.
WOLFF, Günter. A utopia do fim e não o fim da utopia! Estudos Bíblicos, 49, Petrópolis: Vozes, p.81-89, 1996.

Prof. David Rubens

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

444 - O futuro ecológico da teologia cristã. Artigo de Jürgen Moltmann.





A nova imagem do ser humano: do centro do mundo à integração cósmica. Os seres humanos, na sua singularidade, no seu destino e na sua esperança de vida, são uma parte da natureza. Portanto, eles não estão no centro do mundo, mas, para sobreviver, devem se integrar na natureza da Terra e na comunidade das criaturas com as quais vivem
Publicamos aqui a primeira parte da análise do teólogo alemão Jürgen Moltmann, em artigo publicado no sítio Teologi@Internet, 21-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Encontramo-nos hoje no fim da era moderna e no início do futuro ecológico do nosso mundo, se o nosso mundo deve sobreviver. Com isso, entende-se um novo paradigma, em seu nascimento, que liga entre si a cultura humana e a natureza da Terra de uma forma diferente de como ocorreu no paradigma da era moderna.
A era moderna foi determinada pela tomada de poder do ser humano sobre a natureza e as suas forças. Essas conquistas e tomadas de posse da natureza chegaram hoje ao seu limite.
Todos os indícios indicam que o clima da Terra está se alterando drasticamente por obra de influentes comportamentos humanos. As calotas de gelo dos polos da Terra estão derretendo, o nível da água aumenta, algumas ilhas desaparecem, aumentam os períodos de seca, ampliam-se os desertos e assim por diante. 
Nós conhecemos tudo isso, mas não fazemos nada com relação ao que sabemos. A maior parte das pessoas fecham os olhos ou estão como que paralisadas.
Porém, nada favorece tanto as catástrofes quanto o não fazer nada paralisante. Precisamos compreender a natureza de um modo novo e de uma nova imagem de ser humano e, por isso, de uma nova experiência de Deus na nossa cultura. Uma nova teologia ecológica pode nos ajudar nisso. Por que justamente a teologia?
Porque a relação com a natureza e a imagem de ser humano da idade moderna foram determinadas pela teologia moderna: foi a dominação do mundo pelo ser humano à imagem e semelhança de Deus; foi a compreensão de Deus sem o mundo e a concepção do mundo sem Deus; e foi o conceito mecanicista da Terra e de todos os habitantes não humanos da Terra, que era preciso fazer com que se tornassem "súditos".
Há uma velha piada: dois planetas se encontram no universo. O primeiro pergunta: "Como você está?". O outro responde: "Muito mal. Estou doente. Tenho homo sapiens". O primeiro responde: "Sinto muito. É uma coisa terrível. Eu também tive. Mas não se preocupe que passa!".
Eis a perspectiva nova e planetária para a humanidade: essa doença humana planetária passa porque o gênero humano se autodestrói, ou passa porque o gênero humano saberá se tornar sábio e curar as feridas que ele infligiu até agora no planeta "Terra"?
1. A nova imagem do ser humano: Do ser centro do mundo à integração cósmica, ou: Da arrogância do domínio sobre o à humildade cósmica
Antes que nós, seres humanos, "cultivemos e cuidemos da Terra" e assumamos um senhorio qualquer sobre o mundo ou uma responsabilidade pela criação, a Terra nos provê. Ela cria as condições favoráveis à vida para o gênero humano e as garante até hoje. Não é a Terra que foi confiada a nós, mas nós fomos confiados à Terra. A Terra pode viver sem os seres humanos e o fez durante milhões de anos. Nós, ao invés, não podemos viver sem a Terra.
Podemos provar isso através da leitura moderna do relato bíblico da criação, já que os relatos bíblicos da criação estão profundamente enraizados na consciência e no inconsciente do ser humano moderno ocidental.
a) Segundo a leitura moderna, o ser humano é a "coroa da criação". Somente o ser humano é criado à imagem de Deus e destinado a exercer o senhorio sobre a terra e sobre todas as criaturas terrestres: "Encham e submetam a terra; dominem os peixes do mar, as aves do céu e todos os seres vivos que rastejam sobre a terra" (Gn 1, 28). Segundo o Salmo 8, 7, Deus fez o ser humano senhor: "Tu o fizeste reinar sobre as obras de tuas mãos, e sob os pés dele tudo colocaste". Com base nisso, o ser humano deve "subjugar", como um faraó, a Terra e todas as suas cocriaturas. 
Segundo o relato da criação, ele deve, contudo, "cultivar e cuidar", como um jardineiro, o Éden, o jardim de Deus. Isso soa mais humilde e expressa uma maior atenção, embora o ser humano, em ambos os relatos da criação, seja o sujeito, e a Terra, com todos os seus habitantes, seja o seu objeto. Essa é a famosa "posição especial do ser humano no cosmos", como Max Scheler [1] a chamou. Esses textos bíblicos têm mais de 2.500 anos, mas tornaram-se "modernos" há apenas 400 anos, na época do Renascimento.
Na época do Renascimento, essa imagem bíblica do ser humano foi potencializada: o ser humano está no centro do mundo. O texto clássico foi fornecido por Pico della Mirandola em 1486, no seu escrito: Discurso sobre a dignidade do homem [2]. Ele começa com uma citação do douto islâmico Abdullah: "Nada existe no mundo que seja mais esplêndido do que o homem", e vê o ser humano como "digno de toda admiração, e seja qual for o destino que lhe caiba na ordem universal, ele é invejável não só pelos brutos, mas também pelos astros, pelos espíritos do outro mundo [os anjos]".
"A natureza limitada dos outros [seres] está contida dentro de leis por mim [Deus] prescritas. Tu, não constrangido por nenhuma barreira, a determinarás segundo o teu arbítrio, cujo poder eu te entreguei. Eu te pus no meio do mundo para que de lá tu avistasses melhor o que está no mundo... para que de ti mesmo, quase livre e soberano artífice, te plasmasses e te esculpisses na forma que tu escolherias" (ed. it., 5s.).
Como imagem do Criador, o ser humano do Renascimento é um "criador de si mesmo", e – como se costuma dizer hoje – a sua "invenção específica". O mundo está constrangido sob a lei da necessidade, enquanto o ser humano é o seu livre senhor. Ele faz de si mesmo a "medida de todas as coisas", o inventor de si mesmo e o dominador do seu próprio mundo.
Do inglês Francis Bacon vem o apelo que durante toda a minha juventude caracterizou o sistema educacional alemão: "Saber é poder". À aquisição do poder técnico-científico sobre a natureza, ele ligou um sonho de redenção: o ser humano, como imagem de Deus, foi criado para exercer um senhorio sobre a natureza. Por causa do pecado original, ele perdeu esse poder ao qual Deus o havia destinado. Através da ciência da natureza e da técnica, ele obtém "a restitution and reinvesting (in great part) to the souvereignty and power which he had in his first state of creation" [3]. 
Enquanto, porém, segundo a Bíblia, é a imagem e semelhança do ser humano com Deus que fundamenta o seu senhorio sobre a natureza, Bacon argumentava em sentido contrário: o domínio sobre a natureza motiva a sua imagem e semelhança com Deus. Qual imagem de Deus está por trás disso? Como Deus é o senhor do universo, o ser humano, como sua imagem, deve se tornar o senhor da Terra. De todas as propriedades de Deus, nessa analogia, permaneceu apenas a onipotência.
O filósofo francês René Descartes no seu Discurso sobre o Método, de 1692, deu um passo à frente [4]. Através da ciência e da técnica, o ser humano deve se tornar "o senhor e dono da natureza". Ele distingue o mundo em res cogitans do espírito humano e res extensa da natureza. Na natureza, o espírito pensante vê apenas objetos de extensão mensurável. A redução do conhecimento da natureza a grandezas mensuráveis tornou-se a base da ciência natural moderna. Nisso consiste a "reductio scientiae ad mathematicam" [5]. Ele reduziu desse modo o corpo humano a "localização" mensurável da alma humana. Seu discípulo, o médico La Mettrie, tirou a consequência disso: L'Homme machine (1748).
b) Segundo o novo modo ecológico de ler os mesmos relatos bíblicos da criação, o ser humano é a última criatura de Deus e, portanto, a criatura mais dependente. Para a sua vida aqui na terra, o ser humano depende da existência dos animais e das plantas, do ar e da água, da luz e da alternância do dia e da noite, do sol, da lua e das estrelas, e sem eles não pode viver. 
O homem existe apenas porque existem todas essas outras criaturas. Todas podem existir sem o ser humano, enquanto os seres humanos não podem existir sem elas. Por isso, não se pode imaginar o ser humano como soberano divino ou como jardineiro solitário com relação à natureza. Qualquer que seja a sua "posição especial" e as suas tarefas especiais, o ser humano é uma criatura na grande comunidade dos seres criados e "uma parte da natureza" [6]. 
Ainda de acordo com o segundo relato da criação, antes que fosse soprado no ser humano o "hálito" divino, ele é "pó do solo" (Gn 2, 7), e antes que os seres humanos "cultivem e cuidem" a terra, eles conhecem o ditado: "És pó e ao pó voltarás" (Gn 3, 19).
Segundo as tradições bíblicas, Deus não infundiu o seu próprio espírito divino apenas no ser humano, mas também em todas as suas criaturas:
"Escondes tua face e eles se apavoram,  retiras deles a respiração, e expiram,
voltando a ser pó. Envias o teu sopro e eles são criados,  e assim renovas a face da terra" (Sl 104, 29-30).
Pode-se deduzir disso: se a imagem e semelhança divina do ser humano depende do espírito divino que nele habita, então todas as criaturas, nas quais habita o Espírito de Deus, são imagens de Deus e, portanto, devem ser respeitadas. Em todo caso, os seres humanos fazem parte da natureza da Terra de um modo tão estreito que se encontram na mesma situação não redimida e na esperança comum da redenção. Os seres humanos não serão salvos "desta" terra, mas "com" esta terra, da caducidade e da morte.
Paulo ouviu o "gememos no íntimo, esperando […] a libertação para o nosso corpo" (Rm 8, 23) por parte daqueles que são animados pelo Espírito de Deus. Por isso, Ele também ouviu o "gemido e a expectativa" da criação não humana ao seu redor (Rm 8, 22). Ele estava convencido de que é o próprio Espírito de Deus que faz com que nós e toda a criação gemamos à espera da redenção do destino de morte. O Espírito presente é o princípio da nova criação, na qual não haverá mais a morte, porque ele é o Espírito da ressurreição de Jesus e a presença difundida do Ressuscitado. 
A teologia ortodoxa expressou isso com a esperança não só na divinização dos seres humanos, mas também na divinização do cosmos: "Toda a natureza está destinada à glória, da qual os seres humanos terão parte no reino do cumprimento" [7]. 
Os seres humanos, na sua singularidade, no seu destino e na sua esperança de vida, são uma parte da natureza. Portanto, eles não estão no centro do mundo, mas, para sobreviver, devem se integrar na natureza da Terra e na comunidade das criaturas com as quais vivem. 
A arrogância do poder sobre a natureza e a liberdade de fazer dela o que querem não compete a eles, mas lhes compete, sim, uma "humildade cósmica" e uma consideração atenta por tudo o que eles fazem à natureza. Só quando estivermos conscientes da nossa dependência à vida da Terra e da existência de outros seres vivos nos tornaremos, de "divindades soberbas e infelizes" (Lutero), seres humanos. O verdadeiro saber não é o poder, mas a sabedoria.

Notas:
1. M. SCHELER, Die Stellung des Menschen im Kosmos (1927), München 1947.
2. G. PICO DELLA MIRANDOLA, Discorso sulla dignità dell’uomo, La Scuola, Brescia s.d.
3. Sobre o desenvolvimento, cfr. A. KOYRÉ, Von der geschlossenen Welt zum unendlichen Universum, Frankfurt 1969. Sobre a discussão teológica, cfr. J. MOLTMANN, Wissenschaft und Weisheit. Zum Gespräch zwischen Naturwissenschaft und Theologie, Gütersloh 2002 [trad. it., Scienza e sapienza. Scienza e teologia in dialogo, Queriniana, Brescia 2003].
4. R. DESCARTES, Discours de la Méthode (1692), Mainz 1948, 145.
5. A. ZAKAI, Jonathan Edward’s Philosophy of Nature. The Re-enchantment of the World in an Age of Scientific Reasoning, London 2010.
6. La Carta della Terra 1992, 2000. Preambolo.
7. D. STANILOAE, Orthodoxe Dogmatik, Gütersloh 1985, 294.
8. Assumo a feliz expressão de R. BAUCKHAM, Bible and Ecology. Rediscovering the Community of Creation, London 2010, 37.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/509723-o-futuro-ecologico-da-teologia-crista-artigo-de-juergen-moltmann-