quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

544 - LULA, VOLUME 1: Biografia. Fernando Morais.

 


Para além de juízos ou paixões, Lula está entre as maiores figuras políticas da história brasileira. Único presidente do país com origens operárias, e campo magnético de um partido profundamente original em suas raízes, exerceu o poder carismático e a influência de modo mais duradouro que qualquer outro homem público no período republicano, salvo talvez Getúlio Vargas - com quem também compartilha a virulência dos adversários.

Desde 2011, Fernando Morais ganhou acesso direto, franco e frequente a Lula. A essas dezenas de horas de depoimentos, somou o faro de repórter e a prosa cativante para compor projeto biográfico que traz um painel do personagem em toda sua grandeza e complexidade.

Em narrativa que faz uso de recuos e avanços cronológicos para manter um ritmo eletrizante, neste primeiro volume Morais vai da infância de Lula até o anulamento de suas condenações, em 2021 – passando pelo novo sindicalismo, as greves do ABC, a fundação do PT e a primeira campanha eleitoral.

 

Ficha Técnica

Capa: Hélio de Almeida

Páginas: 416

Formato: 16.00 X 23.00 cm

Peso: 0.632 kg

Acabamento: Livro brochura

Lançamento: 16/11/2021

ISBN: 9786559212927

Selo: Companhia das Letras

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

543 - Os evangélicos da libertação: aquelas que não se dobraram aos pés dos fundamentalismos, necropolíticas e capitalismo.

 


Conheça homens e mulheres de fé que se apegaram a um cristianismo de libertação e que se envolveram em movimentos populares de resistência.

 

Os evangélicos são plurais e múltiplos, e existem aqueles e aquelas que não se dobraram aos pés dos fundamentalismos, necropolíticas e capitalismo. Muito do que se fala da Teologia da Libertação foca nas experiências católicas de resistência, entretanto, os protestantes evangélicos também fizeram parte dessa trajetória de luta na América Latina. Relembrar, brevemente, alguns nomes e pontos de um protestantismo da libertação se faz uma tarefa necessária para quem ainda se espanta com evangélicos nas lutas populares, como diz Rubem Alves, a memória traz sempre algo de subversão. Recomendo a leitura do livro Teologia Protestante Latino-Americana: um debate ecumênico (2018, Ed. Terceira Via), organizado por Claudio Ribeiro de Oliveira, por trazer diversas vozes acerca desse desenvolvimento do protestantismo latino-americano que não conseguiremos aqui abordar.

Precisamos começar por Richard Shaull (1919-2002), um teólogo presbiteriano norte-americano que viveu muitas décadas no Brasil. Shaull foi professor no Seminário Teológico de Campinas (Estado de São Paulo), onde articulou UCEB, a União (Protestante) Cristã de Estudantes Brasileiros e é considerado um dos precursores da TdL. O teólogo dedicou seus estudos no diálogo entre o cristianismo e categorias marxistas, relacionando temas sociais com a fé evangélica. Articulou diversos espaços que se tornaram movimentos ecumênicos de libertação, um exemplo foi, em 1962, em Recife, a plenária do Departamento para a Responsabilidade Social da Confederação Evangélica Brasileira sobre Cristo e o processo revolucionário brasileiro. Apelidado de “teólogo da revolução”, sofreu perseguição política e religiosa, após publicações como cristianismo e revolução social (1960), que incentivava seus estudantes a se engajarem na luta por uma sociedade igualitária.

Um desses estudantes foi Rubem Alves, presbiteriano, que veio a se tornar teólogo, pedagogo, contador de histórias e que em sua tese de doutorado traz pela primeira vez o termo “Teologia da Libertação”. A tese, intitulada pelo autor Towards a Theology of Liberation (Por uma Teologia da Libertação), publicada em 1968, nos EUA, foi publicada com o outro títuloA Theology of Human Hope (Uma Teologia da Esperança Humana), para garantir uma maior circulação para os leitores e leitoras da época, pois as obras de Jürgen Moltmann, que traziam o tema da esperança, estavam com certa visibilidade.

A contribuição de Rubem Alves é ainda importantíssima para o contexto de um protestantismo da libertação, pois traz a dimensão do corpo e da subjetividade no contexto da luta de classes. Ainda na reflexão teológica, pessoas como a teóloga e biblista mexicana Elsa Tamez (1951 – ); a teóloga e pastora brasileira e ativista da Comissão Pastoral da Terra, Nancy Cardoso (1959 – ) aprofundaram a dimensão do corpo e da sexualidade a partir da teologia feminista, trazendo críticas a Teologia da Libertação que por inúmeras vezes excluiu mulheres e dissidentes de gêneros e sexualidades das abordagens e práxis teológicas.

Além desses nomes, importantes organizações protestantes surgiram criando um ecumenismo evangélico de resistência, como ISAL, Iglesia y Sociedade en América Latina (Igreja e sociedade na América Latina), em um desdobramento da assembleia em Huampani, perto de Lima, Peru. Que foi em resultado das Conferências Evangélicas Latino-americanas (CELAS). Em seu livro “O que é Cristianismo da Libertação: religião e política na América Latina” (2000), Michael Löwy aponta: “talvez, da iniciativa mais importante na criação de um movimento de libertação entre os protestantes latino-americanos”. Outras organizações foram se formando, como o Conselho Latino-americano de Igrejas (CLAI), que surgiu em 1978 a partir da Conferência Evangélica de Oaxtepec, no México, Departamento Ecumênico de Informação (DEI) em Costa Rica, o Centro Ecumênico para a Evangelização e Educação Popular (CESEP), em São Paulo, ou o Centro Ecumênico para Documentação e Informação (CEDI) no Rio de Janeiro, hoje KOINONIA Presença Ecumênica, e ações dessas instituições no Conselho Mundial de Igrejas.

Relembrar os/as evangélicos e evangélicas que lutaram e se organizaram contra a ditadura militar, como Anivaldo Padilha, metodista que participou da resistência contra a ditadura e foi denunciado pelo próprio pastor, sendo sequestrado e torturado; Zwinglio Mota Dias, presbiteriano, também membro do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), preso e torturado psicologicamente, teve o irmão Ivan Mota sequestrado, se tornando um desaparecido político; Eliana Rolemberg, luterana e ativista de movimentos de juventudes ecumênicas, foi presa e torturada pela ditadura militar; entre tantos outros nomes, de homens e mulheres de fé que se apegaram a um cristianismo de libertação e que se envolveram em movimentos populares de resistência a morte e opressão! Resistimos e continuamos a resistir! Hoje em dia há inúmeros movimentos religiosos evangélicos engajados em pautas sociais e de luta, como os grupos Frente Evangélica Pelo Estado Democrático de Direito, Evangélicas pela Igualdade de Gênero, Feministas Cristãs, Movimento Negro Evangélico, Frente Evangélica Pela Legalização do Aborto, Rede Fale, Evangélicxs, Coalizão de Evangélicos pelo Clima, Rede de Negras Evangélicas, Cristãos Contra o Fascismo, Coletivo Vozes Marias, Movimento Social de Mulheres Evangélicas do Brasil, Coalizão de Evangélicos Contra o Bolsonaro. Além de evangélicos e evangélicas que estão e são lideranças nos movimentos populares, como MST, MTD, Levante Popular da Juventude, movimentos urbanos de moradia, que trazem as vivências e identidades, entre elas evangélica, para o trabalho de base e resistência!

Fazer esse resgate histórico é crucial em um ano de eleições como 2022, em que o voto evangélico está em disputa e que ainda se comete o erro de setores progressistas de generalizar os evangélicos no Brasil. O reconhecimento dessas resistências de fé é o passo número um para o avanço de uma frente ampla contra os fundamentalismos e os neofascismos que temos enfrentado nesses últimos anos. Seguimos resistindo com a Bíblia em uma mão e com o punho fechado na outra, usando nossa voz, nossa vida para a construção de um projeto popular para o país!

 

Por

Angelica Tostes

Teóloga, mestra em Ciências da Religião, professora e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social... Leia mais em https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/os-evangelicos-da-libertacao-um-breve-resgate/.

 


542 - La figura histórica de Jesús. E. P. Sanders.

 


La figura histórica de Jesús proporciona una convincente visión de conjunto de la vida del Jesús real y es una demostración práctica de cómo distinguir en los evangelios entre información histórica y elaboración teológica. Sanders nos conduce paso a paso a lo largo de la actividad pública de Jesús y examina con detalle los problemas más notables para su comprensión, como los milagros, los seguidores de Jesús y sus adversarios, su última semana en Jerusalén, su juicio y ejecución, la resurrección... Una obra de referencia en la búsqueda del Jesús histórico.

 

P. 332; 15X24

Coleção Ágora

Editora Verbo Divino


quarta-feira, 29 de setembro de 2021

541 - Jürgen Moltmann fala sobre a crise de Corona.


 

Jürgen Moltmann, professor de teologia de Tübingen tem 95 anos. Sua “Teologia da Esperança” é considerada um trabalho pioneiro na história da teologia. Moltmann está com 95 anos hoje. Na entrevista, ele fala sobre a pandemia e o estado do ecumenismo.

 

Entrevista concedida a Michael Jacquemain (KNA), Tübingen - 8 de abril de 2021.

 

Jürgen Moltmann, um dos mais renomados teólogos protestantes, tem hoje 95 anos. Suas obras centrais são a “Teologia da Esperança” e a “Ética da Esperança”. Na entrevista, o cientista de Tübingen também fala sobre a pandemia de Covid19.

 

Pergunta: Professor Moltmann, estamos vivendo atualmente em tempos turbulentos. Como você está lidando com a pandemia?

Moltmann: Como funcionário de escritório, não notei muitas diferenças. Só fiquei desapontado porque muitas turnês de palestras foram canceladas. Quando você está sozinho consigo mesmo, às vezes fica entediado.

 

Pergunta: Uma “teologia da esperança” é importante para você. No momento, o aborrecimento, o desânimo e a frustração parecem ser os fatores determinantes na sociedade como um todo. Como a esperança pode ser revitalizada?

 

Moltmann: O aborrecimento e o desânimo surgem quando nos tornamos impacientes. Paciência é o longo suspiro de esperança - não significa resignação. Em minha juventude, aprendi a ter paciência de esperança em um cativeiro de prisioneiro de guerra de três anos.

 

Pergunta: A oração como um clamor a Deus pode ajudar?

Moltmann: Os salmos clamam a Deus: Quanto tempo, Senhor, quanto tempo? Orações como intercessões ajudam os moribundos solitários. Então você não está sozinho. Eles se sentem levados a Deus por uma comunidade de oração.

 

Pergunta: As igrejas falharam na crise de Corona?

Moltmann: As paróquias não falharam. Elas desenvolvem muita imaginação para o reino de Deus e uma pastoral individual que não teriam desenvolvido em tempos normais. Em junho, fiz a proposta a Heinrich Bedford-Strohm, presidente do Conselho da Igreja Evangélica na Alemanha, de proclamar um “dia de luto nacional” junto com a Igreja Católica. Agora o presidente federal está fazendo isso em abril.

 

Pergunta: O ecumenismo católico-protestante está atualmente passando por tempos turbulentos teologicamente. Por um lado, algo está acontecendo, por outro, forças de persistência criam espaço na Igreja Católica. Que perspectiva você vê?

Moltmann: Já temos o reconhecimento mútuo do batismo. A pregação comum do Evangelho também é um problema, só com a Eucaristia, porque só uma pessoa consagrada pode celebrá-la. Para os evangélicos, isso é uma degradação do batismo. Homens e mulheres são batizados. Durante este tempo, uma congregação ecumênica no rádio emerge na manhã de domingo das 10 às 11, e chega aos milhões.

 

Pergunta: Assim como Johann Baptist Metz do lado católico, do lado protestante você defende uma teologia política que localiza a fé no aqui e agora e não se preocupa tanto com verdades supostamente eternas e imutáveis. É a impressão de que esta posição está ganhando cada vez mais aceitação cientificamente?

Moltmann: De 1970 a 1990 foram os anos da teologia política: a teologia da libertação, teologia negra, teologia feminista, teologia ecológica. Desde então, as faculdades de teologia têm se empenhado em manter seu caráter científico e dialogar com o direito, os estudos alemães e as ciências naturais. Heidelberg é um excelente exemplo. Estou trabalhando pessoalmente em uma “Teologia Política do Mundo Moderno”.

 

Pergunta: Outra percepção é que a teologia dificilmente aparece nos discursos atuais. Por que?

Moltmann: Não tenho a impressão. O Conselho de Ética é uma voz importante, e a decisão do Tribunal Constitucional Federal de 2020 é debatida teologicamente vigorosamente.

 

Pergunta: Você supervisiona candidatos a doutorado na velhice. Por que você ainda espera fazer isso?

Moltmann: Eu amo a mente científica adulta. Um teólogo chinês - Hong Liang - juntou-se a mim em 2008 quando eu estava em Pequim e recebi seu doutorado summa cum laude em Tübingen em 2018. Agora tenho um aluno americano de doutorado.

 

Pergunta: Como você deseja comemorar seu 95º aniversário?

Moltmann: Obrigado! Sozinho porque minha esposa morreu há cinco anos, mas não só porque nossas quatro filhas estão chegando e eu sou quatro vezes bisavô. O grupo mundial de alunos também entrará em contato.

 

Por Michael Jacquemain (KNA)

Fonte: https://www.katholisch.de/artikel/29368-juergen-moltmann-kirchengemeinden-haben-in-corona-krise-nicht-versagt

 

 


Jürgen Moltmann foi Professor de Teologia Sistemática na Universidade de Tübingen de 1967 a 1994. O teólogo sempre manteve contato com o cardeal Joseph Ratzinger.


terça-feira, 18 de maio de 2021

540 - La religión más antigua: Mesopotamia. Jean Bottéro

 


Los grandes descubrimientos de la historia, reservados en principio a los profesionales —demasiado pacientes, circunspectos y condicionados por su minucioso trabajo de búsqueda para andar pregonándolos—, tienen habitualmente necesidad de una larga maduración. Permanecen durante mucho tiempo en el secreto y se revelan sin estruendo. Ha sido preciso un siglo y medio de hallazgos, de genio, de excavaciones y de esfuerzos, para enterarnos de que disponíamos de nuestras más remotas credenciales de familia, los de nuestros más antiguos ancestros identificables en línea ascendente directa. Ellos fueron los venerables creadores y portadores de la antigua y brillante civilización de Mesopotamia, nacida en el paso del cuarto al tercer milenio, desaparecida poco antes de nuestra era, y de la que nos queda un gigantesco botín arqueológico y medio millón de documentos descifrables.

Mesopotamia no solamente inventó la escritura y, con ella, una nueva forma de pensar, de analizar y de ordenar el mundo. Fue también el crisol de la religión más antigua que se conoce. Religión entendida en el sentido más estricto: un panteón de divinidades en el que a cada uno se le atribuye un papel y una función propias, en el que la intercesión se obtiene por medio de ritos codificados, y donde las voluntades se manifiestan a través de signos que sólo una clase de sacerdotes sabe interpretar. Divinidades accesibles, cuyo mundo está en el origen del mundo de los humanos y cuyas estructuras jerárquicas modelan las del universo político y social terrestre. Divinidades presentes, activas, y a corta distancia del ser humano, hasta el punto de que éste tiene la posibilidad de elegir, según las circunstancias de su vida, aquel o aquella al que reservará una devoción particular.

Una religión que inventa ritos, relatos (como el del diluvio), epopeyas (como la de la creación o la del nacimiento del trabajo), y en la que, por contaminación, las religiones de los países vecinos, con civilizaciones menos elaboradas, se inspiraron o adaptaron.

Una religión creíble, en realidad el primer sistema de creencias fuertemente elaborado, que fue el crisol del que ha moldeado nuestro mundo: el monoteísmo.

 

ISBN: 978-84-8164-452-4

272 páginas

Fecha de publicación: abril 2001, 1ª edición

Dimensiones: 145 x 230 mm, peso 360 g

Materias: Historia y fenomenología de las religiones; Medio Oriente

 

Jean Bottéro: Se ha impuesto como uno de los más grandes especialistas internacionales en la civilización mesopotámica. Nacido en 1914, es desde 1958 jefe de estudios de la École Pratique des Hautes Études (sección de ciencias filológicas e históricas, cátedra de asiriología). Sobre Mesopotamia ha publicado especialmente Mésopotamie. L’écriture, la raison et les dieux y Naissance de Dieu. La Bible et l’historien. Es también autor de Lorsque les dieux faisaient l’homme. Mythologie mé-sopotamienne, en colaboración con Samuel Noah Kramer, así como del capítulo «La religion de l’ancienne Mésopotamie», en L’Orient ancien. Se le debe por último Babylone à l’aube de notre civilisation, así como Babylone et la Bible. Entretiens avec Hélène Monsacré.


sexta-feira, 14 de maio de 2021

539 - La historia olvidada del cristianismo: El milenio dorado de la Iglesia en Oriente Medio, África y Asia... y su destrucción. Philip Jenkins

 


Las religiones mueren. En el curso de la historia, algunas se desvanecen por completo y otras, que un día fueron mundiales, pasan a tener solo un puñado de adeptos. En algunos casos, las religiones sobreviven en ciertas partes del mundo, pero se extinguen en territorios que antes consideraban suyos. Durante mil años, la India fue básicamente budista, pero hoy esta fe es marginal; igual ocurre con el zoroastrismo en Persia o el islam en España. Tales desastres no se limitan a las creencias ancestrales o «primitivas»; de hecho, las que hoy consideramos grandes religiones del mundo son tan vulnerables a la destrucción como la fe que practicaban aztecas o mayas.

El cristianismo también ha desaparecido varias veces en regiones donde antaño floreció. En la mayoría de los casos se ha borrado hasta el recuerdo de que allí hubo cristianos, y hoy se los mira como a una especie invasora llegada de Occidente. 

Este libro se ocupa precisamente de la historia del cristianismo en aquellos lugares donde ya no existe, desde Oriente Medio hasta China, pasando por el norte de África, Etiopía, Persia, India y otros rincones del Extremo Oriente.

 

Philip Jenkins (1952) es profesor universitario y especialista en historia del cristianismo, nuevos movimientos religiosos e historia contemporánea.

 

ISBN: 978-84-301-2061-1

Páginas: 320

Formato: Rústica, 13,5 x 21 cm.

Fecha de edición: septiembre 2020. Edición: 1ª

Título original: The Lost History of Christianity (2008)

Traducido por Juan García-Baró Huarte del original inglés

 


segunda-feira, 3 de maio de 2021

537 - O Deus frágil nascido de mulher e comido pelos homens. David Rubens de Souza


Por que a Europa se lançou com fúria à adoração ao Deus criador semita? O Deus narrado no Antigo Testamento é o “criador do nada”, é aquele que tirou o mundo do nada. Os homens europeus se identificaram com esse Deus testemunhado por um povo semita, exaltaram uma de suas prerrogativas divinas, pondo-a acima de todas as outras: “a criação do nada”. Dessa identificação tiraram uma vontade delirante de dominar o mundo com tudo o que o habita. A imitação do Deus da criação tornou o homem cruel e sedento de poder.

Diante de tudo isso, Deus podia ter restituído sua criação ao nada, podia cancelar o mundo. Mas não o fez e lhe enviou, mais tarde, o único remédio que podia reparar essa situação, enviou-lhe um Deus como ele, o qual adquiriu figura humana, carne mortal, para morrer e, ainda mais, para ser devorado pelos homens.

Nascido necessariamente de uma mulher, não uma criação do nada, tudo isso para a loucura dos homens. O Deus que nasce de uma mulher é uma resposta do Deus que “cria do nada”, agora ele renuncia sua criação absoluta. O Deus que nasce de mulher aparece como uma correção do “sereis como deuses”. 

A humanidade tinha entendido que ser semelhante a Deus significava praticar a fúria da criação, dominar, não sofrer, vencer o nada.

O homem sempre teve inveja da capacidade de criar, que é própria dos deuses e das mulheres. Deus ao nascer de uma virgem, confundiu a mente dos homens, faz o “sereis como deuses” mudar o sentido.

O “sereis como deuses” não significa mais ser senhores do nada, isso é um escândalo para os homens. O Deus Cristo da virgem tem início meio e fim, é um Deus sujeito a mortalidade carnal. Ser como o Deus, no sentido do Deus que nasce de mulher, se torna o nível mínimo de “fúria de criação e dominação” e o máximo de pobreza.

O Deus Cristo é o sêmen do Deus que “cria do nada”, ele expressa fraqueza e a mansidão sancionadas pela paixão.

Na tradição de fé do homem europeu se desmascara a indiferença do Deus poderoso quando o filho se sente abandonado: “Eloi, Eloi, lamá sabactani?”. Deus se torna espelho de orgulho, indiferença e irremediável inacessibilidade.

Deus nasce e morre nas mãos de homens, e para os HOMENS, a parte feminina nunca teve necessidade de ver Deus indefeso, sem armas.

O Deus que nasce de mulher se oferece como alimento para ser comido, devorado. O pão que é devorado é tentativa de Deus de aplacar a “fome divina” dos homens, seu querer serem como deuses.

A renúncia de Deus, o alimento divino oferecido aos homens na forma de passividade, não teve o efeito de amor esperado, nem ingerindo Deus o homem se aplacou. O homem segue dominado pela força terrível de suas paixões. O sangue divino foi interpretado como libertação, o sangue foi interpretado como habilitação a ser como Deus. O Deus frágil que nasce de mulher e morre foi transformado no Deus da “fúria da criação”.

Ao nascer da virgem, Deus demonstrou que a carne não pode ser destituída de sofrimento, mostrou que o humano tem que ser humano, frágil e perecível.

Os homens que fazem a história, em vez de serem tomados de encantamento pelo “Deus da mulher”, se concentraram em adorar somente o Deus dominador da “fúria da criação”.

O homem ocidental quer ter diante de si um Deus servo, um Deus que pede para ser escravizado.

A religião cristã é a única onde a frase “Deus morreu” faz sentido. É só nela que o homem matou seu Deus, o Deus frágil nascido nascido de mulher, e o ressuscitou como o Deus todo poderoso. 

O Deus verdadeiro morreu, entrou na morte em perfeita comunhão como os seres que morrem.



Tradução: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. parte do artigo 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos.