sábado, 20 de setembro de 2014

159 - David Friedrich Strauss: Fé religiosa como simples mito



Strauss (1808-1874) discípulo de Hegel e considerado da “esquerda hegeliana”, Strauss dedicou-se a uma crítica radical dos textos bíblicos e tentou, assim como Feuerbach, reduzir o significado da religião a exigências e necessidades humanas: simples antropologia.
Seguindo as ideias e orientações de Ferdinand Baur, da escola de Tubinga, publicou em 1835 a Vida de Jesus, obra que logo se fez famosa e suscitou as violentas polêmicas que consumaram a divisão dos discípulos de Hegel. “Essa obra foi a primeira tentativa radical, sistemática e completa de aplicar o conceito hegeliano da religião aos textos bíblicos. O resultado foi reduzir a fé religiosa a um simples mito. O Jesus da tradição é um mito: não pertence à história; é uma ficção produzida pela orientação intelectual de uma determinada sociedade.”
O mito é uma ideia metafísica expressa mediante uma imagem, por um espírito contemplativo. Seu valor não reside no fato narrado, mas na ideia representada. O mito de Jesus foi originado pela ardente espera do Messias e pela personalidade do Jesus histórico. Partindo destes princípios, Strauss leva adiante a análise filosófica e histórica dos textos evangélicos, relegando ao mito e à lenda todo elemento sobrenatural ou, em geral, não fundado sobre o testemunho comprovado e concordante das fontes. A obra quer demonstrar a diferença entre a religião cristã, caracterizada por seus mitos, e a filosofia. No entanto, paradoxalmente, afirmará como conclusão que religião e filosofia são a mesma coisa: a unidade do infinito e do finito, de Deus e do homem. Em consequência, Jesus “não pode ser senão um daqueles indivíduos cósmicos nos quais se realiza a ideia substancial da história. Nele surge, pela primeira vez, a consciência da unidade do divino e do humano, e neste sentido é único e inigualável na história do mundo”. “Já temos aqui o homem incomparável”, moldado por Renan, anos mais tarde, e a base da doutrina de Feuerbach.

Suas duas obras completam o pensamento religioso de Strauss: A fé cristã em seu desenvolvimento e em sua luta com a ciência moderna (1841-1842) e A antiga e a nova fé (1872). Na primeira, contrapõe o panteísmo da filosofia moderna ao teísmo da religião cristã. “A história do dogma cristão é a crítica do próprio dogma, já que revela o progressivo triunfo do panteísmo sobre o teísmo, chegando a reconhecer que Deus nada mais é do que o pensamento que age em todos, que os atributos de Deus nada mais são do que as leis da natureza e que o todo é imutável e absoluto refletido nos espíritos finitos desde a eternidade. Na segunda, faz estas quatro perguntas: 1) Somos ainda cristãos? Responde que não, porque o teísmo já não existe. 2) Temos ainda uma religião? Afirma que sim, desde que por religião se entenda o sentimento de dependência que o homem tem do universo e suas leis. 3) Como entendemos o universo? A resposta a esta terceira pergunta contém sua profissão de materialismo. 4) Como devemos regular nossa vida? A resposta contém sua doutrina moral. O objetivo desta é levar uma vida social ordenada mediante a perfeita realização de nossa humanidade, utilizando para isso o princípio da “simpatia”. Termina exaltando o industrialismo moderno e a burguesia. Ataca o cristianismo que detesta o afã de lucro e de êxito, assim como o socialismo. A poesia, especialmente a de Lessing e a de Goethe, será a educadora do povo, não a Bíblia.





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RUBENS, David. David Friedrich Strauss: Fé religiosa com um simples mito. http://biblicoteologico.blogspot.com.br/2014/09/david-friedrich-strauss-fe-religiosa.html: Acesso em: _____________.

158 - Edward Schillebeeckx: Repensar a fé tradicional em função da situação presente no mundo



Schillebeeckx (1914-2009) nasceu em Amberes em 1914 e entrou para os dominicanos em 1934. Estudou no Studium Generale dominicano de Le Saulchoir e na Sorbonne de Paris. De 1953 a 1957, foi professor de estudo dominicano em Lovaina, de onde passou a professor de teologia dogmática na Universidade de Nimega (Holanda).
O estudo e a atividade de Schillebeeckx responde aos princípios da “nova teologia” iniciada em Le Saulchoir. Plenamente empenhado na renovação e “agiornamento” da Igreja. Seu trabalho consistiu “em repensar a fé tradicional em função da situação presente no mundo”. Foi o teólogo assessor do episcopado holandês no Concílio Vaticano II. Depois foi consultor do episcopado holandês nos anos que seguiram ao Concílio, em que a Igreja da Holanda submeteu-se a uma profunda revisão. Em 1965 fundou, com outros teólogos, a revista internacional de teologia “Concilium”, sendo também um dos principais inspiradores do Novo Catecismo holandês (1966).
Sua numerosa obra escrita pode ser encontrada na revista “Concilium” e em outras revistas especializadas, e em obras de grande impacto e difusão não só entre teólogos, mas também entre o público dos diferentes idiomas cultos. Como a de Küng, Rahner, De Lubac, Häring e outros, sua obra escrita transcendeu a cátedra e os círculos especializados para passar aos diversos setores da sociedade. Citamos algumas de suas obras: A economia sacramental da salvação (1952); Maria, Mãe da redenção (1954); Cristo, sacramento do encontro com Deus (1958); Deus, futuro do homem (1965); Mundo e Igreja (1966); Compreensão da fé: interpretação e crítica (1972); Jesus. Uma tentativa de cristologia (1974). Dois tomos sobre A Igreja de Cristo e o homem de hoje segundo o Vaticano II reúnem sua contribuição para as revistas especializadas.

Desde 1968, Schillebeeckx é objeto de observação e de críticas por parte da atual Congregação para a Doutrina da Fé. Em 1979 foi chamado a Roma para depor diante dela. “Os dogmas, segundo Schillebeeckx, têm um sentido dentro de uma perspectiva histórica determinada e utilizam noções tomadas de uma cultura particular.” Essa historicidade leva-o a reinterpretar os dogmas, levando em conta as condições da existência dos homens. Por isso, a ortodoxia só é plenamente possível sobre a base de uma “ortopráxis”: é na prática efetiva da Igreja que se realiza uma nova compreensão da mensagem da fé. A unidade de uma mesma fé e de uma mesma confissão só é reconhecível na “pluralidade de opiniões teológicas”.
E o “que é verdade para o teólogo, o é também para cada crente”. Num mundo secularizado, “Deus manifesta-se normalmente sob a forma de ausência”. Ao abordar os problemas do ponto de vista histórico, aplica-os também Schillebeeckx à figura de Jesus, cujo estudo tem lhe valido duras críticas.




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RUBENS, David. Edward Schillebeeckx: Repensar a fé tradicional em função da situação presente no mundo. http://biblicoteologico.blogspot.com.br/2014/09/edward-schillebeeckx-repensar-fe.html: Acesso em: _____________.


157 - Jürgen Moltmann: O Deus cristão é um Deus que sofre de amor



 Moltmann (1926-) nasceu em Hamburgo e, de 1945-1948, esteve prisioneiro dos aliados na Bélgica e na Inglaterra. Esses anos de prisão levaram-no a refletir sobre o sentido da vocação cristã. A partir de 1952, atuou como pastor da Igreja Luterana. Desde 1967, foi professor de teologia sistemática na Universidade de Tubinga.
Moltmann é um escritor prolífico, centrado integralmente em “olhar a teologia sob um ponto de vista particular: a esperança. É uma contribuição sistemática à teologia, na qual considera o contexto e a correlação que os diferentes conceitos têm no campo da teologia”.
Suas principais obras são: Teologia da esperança (1964), que o torna conhecido como um dos grandes teólogos de hoje na linha de Barth e de Bultmann. Nela confirma a importância que a escatologia tem na doutrina do Novo Testamento; a escatologia, não como crença em fatos concretos que devem acontecer nos finais dos tempos, mas como fator que modela toda a teologia cristã. Tal perspectiva escatológica do cristianismo é interpretada como promessa, como plataforma para a futura esperança. É base para uma transformação antecipada do mundo da nova terra prometida. A meta da missão cristã não é simplesmente uma salvação individual, pessoal, nem sequer espiritual; é a realização da esperança da justiça, da socialização de toda a humanidade e da paz do mundo. Esse outro aspecto de reconciliação com Deus pela realização da justiça foi descuidado pela Igreja. A Igreja deve trabalhar por essa realização, baseada na esperança futura.

- O Crucificado (1972) expõe a doutrina de Deus a partir da perspectiva da cruz. O Deus cristão é um Deus que sofre de amor. Não é um sofrimento imposto de fora – pois Deus é imutável –, mas um sofrimento de amor, ativo. É um sofrimento aceito, um sofrimento de amor, livre, ligado ao Deus sofredor de Auschwitz e do extermínio judeu. A esse livro deve-se acrescentar A Igreja no poder do Espírito (1975). Neste estuda a atividade reconciliadora de Deus no mundo, vista sob a perspectiva da Ressurreição, da Cruz e de Pentecostes. “A Igreja – diz Moltmann – deve estar aberta a Deus, aos homens, e aberta ao futuro tanto de Deus quanto dos homens. Isso pede da Igreja não uma simples adaptação às rápidas mudanças sociais, mas uma renovação interior pelo Espírito de Cristo e a força do mundo futuro.”
Isso faz com que a Igreja tenha de ser Igreja de Jesus Cristo e Igreja missionária. Deve ser também uma Igreja ecumênica, que quebre as barreiras entre as Igrejas. E deve ser também política: a dimensão política – agrade ou não – sempre existiu nela. A Teologia da Libertação ensina a Igreja a tomar partido pelos pobres e humilhados deste mundo.
Finalmente, em A Trindade e o reino de Deus (1980) estuda o mistério da Trindade de Deus fazendo “uma história trinitária”. Examina a paixão de Cristo e vê, no abandono de Cristo na cruz por Deus, o centro da fé cristã. “Deus é abandonado por Deus.” Apoia a sua doutrina social na “Doutrina Trinitária do Reino”, baseada nas ideias de Joaquim de Fiore, elaborando assim uma “Doutrina Trinitária da Liberdade”. A obra de Moltmann pressupõe uma revitalização e um aprofundamento da teologia cristã.












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RUBENS, David. Jürgen Moltmann: O Deus cristão é um Deus que sofre de amor. http://biblicoteologico.blogspot.com.br/2014/09/jurgen-moltmann-o-deus-cristao-e-um.html: Acesso em: _____________.


156 - Karl Marx: Alienação religiosa




Filósofo, político e economista, Karl Marx (1818-1883) nasceu em Trier (Alemanha). Estudou nas universidades de Bonn e de Berlim, onde foi discípulo de Hegel. Esteve toda a sua vida empenhado na luta social e política, que exerceu através de suas obras, do jornalismo e do contato direto com homens e líderes. Os cenários de suas atividades foram Paris, Bruxelas e finalmente Londres, onde continuou inspirando e dirigindo o movimento operário internacional. Morreu nesta última cidade.
Marx deixou uma volumosa produção filosófica, iniciada em sua juventude e mantida ao longo de toda a sua vida. Assinalo as principais obras:
- Crítica da filosofia do direito de Hegel (1843);
- Economia e filosofia (1844);
- A Sagrada Família (1845);
- O manifesto comunista (1845);
- Teses sobre Feuerbach (1845);
- A miséria da filosofia (1847);
- Crítica da economia política (1859);
- O Capital (três vols., 1867; os dois últimos póstumos, publicados por Engels em 1885 e 1895 respectivamente).
O ponto de partida de Marx é “a reivindicação do homem, do homem existente, em todos os seus aspectos”. O que Marx quis realizar foi uma interpretação do homem e de seu mundo, que ao mesmo tempo fosse empenho de transformação e, neste sentido, atividade revolucionária. Porém, tal interpretação do homem somente é possível se o analisarmos em suas relações externas com os demais homens e com a natureza que lhe proporciona os meios de subsistência. Nada de essência em abstrato. A personalidade real e ativa do homem concretiza-se nas relações de trabalho em que se encontra. O homem cria-se a si próprio mediante o trabalho. E é o criador não apenas de sua existência material, mas de seu modo de ser ou de sua existência específica. Em consequência, o trabalho é para Marx a única manifestação da liberdade.
Tudo o que impede a realização do homem no trabalho é considerado por Marx como alienação. Alienação que nada mais é do que a condição histórica na qual o homem vem a encontrar-se diante dos meios de produção. De fato, a propriedade privada e a sociedade capitalista transformam os meios de produção de simples instrumentos e materiais da atividade produtiva humana, em fins aos quais o mesmo homem se submete.
A essa consequência da alienação, Marx, algumas vezes, chama de “alienação religiosa”. Neste sentido, considera a religião como “a imagem de um mundo transtornado”, isto é, um mundo no qual, no lugar do homem real, colocou-se a essência abstrata do homem. “A religião – diz Marx – é a teoria geral deste mundo transtornado, seu compêndio enciclopédico, sua lógica em forma popular, seu point-d’honneur espiritualista, seu entusiasmo, sua sanção moral, seu complemento solene, o fundamento universal da consolação e da justificação do mesmo” (Crítica da filosofia do direito de Hegel). Neste último aspecto, “a religião é o ópio do povo”, “a felicidade ilusória do povo”.
No pensamento de Marx: a) A religião – assim como as ideologias, a filosofia, o Estado, o capital – são fonte de alienação, porque subtraem o homem da vida real, inchando-o com uma vida irreal, inexistente. b) A religião é uma das formas históricas de alienação, porque, além de afastá-lo da realidade e de sua própria identidade, promete ao homem uma felicidade enganosa fora deste mundo e perpetua desta maneira o estado de injustiça e de opressão, já que sanciona a exploração do homem pelo homem.
Na filosofia de Marx, a religião é um superfenômeno, uma super-estrutura  humana, nascida do desconhecimento da realidade do mundo e do homem. O universo religioso – Deus-espírito-eternidade – é um falso desdobramento do homem, fruto da alienação, tal como já o formulou Feuerbach. O universo real é a matéria; tudo o que existe explica-se por ela mesma e a partir dela mesma, num duplo processo dialético conhecido como materialismo dialético e materialismo histórico.
O marxismo histórico seguiu a linha imposta pelo mestre. As conversações entre teólogos cristãos e marxistas manifestaram essa verdade. A concepção que o faz marxismo do mundo e do homem é plana e horizontal, não transcendente.
Marx também não se ocupou expressamente da ética. De sua filosofia, deduzimos a negação radical que faz da moral platônica e cristã e seu repúdio ao jusnaturalismo, como abstratos e alienantes. Cabe sim falar de uma ética marxista no sentido de que, dada a concepção do homem social, a procura da libertação efetiva do homem não pode coincidir menos com a procura da libertação de todos os homens: a libertação dos demais é inseparável da minha.

Estilo de Normalizar Citação De Acordo com as Normas da ABNT para Trabalhos Acadêmicos.
RUBENS, David. Karl Marx: Alienação religiosa. http://biblicoteologico.blogspot.com.br/2014/09/karl-marx-alienacao-religiosa.html: Acesso em: _____________.

Tradução: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. parte do artigo 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos.