segunda-feira, 27 de outubro de 2014

165 - Paul Tillich

Paul Johannes Osckar Tillich nasceu em Starzeddel (atualmente Starosiedlle, Polônia), na antiga Prússia Oriental, em 20 de agosto de 1886. Filho de um pastor luterano, inclinou-se desde o início para a Teologia tendo realizado a sua graduação em Berlim depois de ter passado também por Halle e Tübingen. Foi nessa última cidade que ele começou a desenhar o seu sistema. Em 1909 realiza os primeiros exames teológicos e é admitido como aspirante ao ministério em Lichtenrade ao mesmo tempo em que prossegue seus estudos em Filosofia, obtendo no ano seguinte o doutoramento pela Universidade de Breslau. Entre 1911 a 1914 exerce o vicariato em Nauen e após a ordenação é designado para Berlim como pregador assistente na Igreja do Redentor no subúrbio berlinense de Moabit, ao mesmo tempo em que se licencia em Teologia por Halle. Com a Primeira Guerra Mundial (agosto, 1914), segue como capelão voluntário para o setor francês da Frente Ocidental. Ali, sentiu o choque da destruição de todos os valores – sociais, culturais e religiosos – de sua época, o fim o otimismo ingênuo e progressista da Europa burguesa.
No ano seguinte, em Verdun, o jovem pastor sentiu que realmente o mundo teológico concebido pela Teologia Liberal do século XIX já não poderia mais oferecer respostas factíveis para as necessidades existenciais do homem moderno. Assim como em Barth, a guerra causou um efeito moral e existencial devastador em Tillich, mas com contornos infinitamente mais dramáticos.

Terminada a guerra, Paul Tillich que havia conseguido a sua habilitação em Teologia pela Universidade de Halle, permitindo-o assim ingressar na carreira universitária, torna-se livre docente na Universidade de Berlim onde atua de 1919 a 1924, sendo mais tarde designado para a Universidade de Marburgo a fim de substituir o teólogo sistemático Rudolf Otto nessa disciplina. A experiência embora curta (três semestres), foi no entanto muito profícua pois Marburgo contava nessa época com uma equipe notável de docentes que incluía Martim Heidegger na Faculdade de Filosofia e Rudolf Bultmann na Teologia, exercendo ambos uma influência perene em seu fazer teológico e filosófico ao longo dos anos seguintes. De 1925 a 1929 vai para a Saxônia onde trabalha como professor de Ciências da Religião na Escola Técnica Superior da Saxônia em Dresden e como professor extraordinário de Filosofia da Religião e da Cultura na Universidade de Leipzig. Nesse último ano vai para Frankfurt-sobre-Meno onde, desta vez como catedrático, atua como docente em Filosofia e Sociologia da universidade local. Com a chegada dos nazistas ao poder, Tillich é demitido do sistema universitário, ainda teve a desagradável experiência de ver um dos seus livros, A Decisão Socialista, ser queimado em público pelos nazistas em 1933, vai então para os EUA onde atua no Union Theological Seminary de Nova York (como leiturer de 1933 a 1937, passando depois a Associate Professor de 1937 a 1940, e finalmente para a docência plena de 1940 a 1955), ao mesmo tempo em que leciona (1933-1934) na Universidade de Colúmbia, também em Nova York. Cidadão norte-americano desde 1940, em 1955 aceita o convite para lecionar em Harvard onde permanece até 1962 quando se transfere para a Faculdade Teológica Federada de Chicago, onde a morte o surpreende ainda no exercício de suas funções docentes, em 22 de outubro de 1965.

Teologia Sistemática
Este livro de Tillich é a compilação dos três volumes correspondentes ao conjunto do seu trabalho sistemático, tratando das questões básicas do ser, da existência e da vida. 

"Certamente os três volumes de minha Teologia Sistemática não teriam sido escritos se eu não estivesse convicto de que o evento que deu origem ao cristianismo possui um significado central para toda a humanidade tanto antes como depois dele. Mas o modo como se pode compreender e receber este evento muda com a transformação das condições em cada período histórico. Por outro lado, esta obra tampouco teria sido escrita, se eu não tivesse tentado, durante a maior parte da minha vida, penetrar no significado dos símbolos cristãos, que se tornaram cada vez mais problemáticos no contexto cultural do nosso tempo. Como a cisão entre uma fé inaceitável para a cultura e uma cultura inaceitável para a fé era inaceitável para mim, a única alternativa foi tentar interpretar os símbolos da fé com expressões de nossa própria cultura. O resultado desta tentativa são os três volumes da Teologia Sistemática" (Da Introdução ao volume 3).

O pensamento de Tillich sempre se deu na fronteira, como ele mesmo descreve. Esta fronteira significa o espaço-limite entre as disciplinas, mas também a interface fecunda entre as mesmas. Trata-se  de um pensamento rico e complexo, multi e interdisciplinar, e que já antecipa surpreendentemente muito da atual discussão sobre inter e transdisciplinaridade. Seu sistema das Ciências (1923) tenta organizar o conjunto das disciplinas científicas de uma forma inovadora e criativa. Sua Teologia sistemática apresenta uma imensa e complexa trama contendo uma interpretação abrangente e transdisciplinar da realidade vista como um todo. O livro é uma revisão completa da antiga tradução portuguesa da Teologia Sistemática de Paul Tilluch. Várias inadequações, tanto de tradução como de revisão editorial, tornaram premente uma nova edição totalmente revisada desta que é uma das principais obras teológicas da história do cristianismo (Do Prefácio à nova edição portuguesa).

Estilo de Normalizar Citação De Acordo com as Normas da ABNT para Trabalhos Acadêmicos.
RUBENS, David. Paul Tillich. http://biblicoteologico.blogspot.com.br/2014/10/paul-tillich.html. Acesso em: _____________.

164 - Friedrich Nietzsche

Muitas vezes mal interpretado como filósofo, ora em função de seu estilo poético, ora devido à exploração pelo nazismo de certos aspectos de seu pensamento, Nietzsche, na verdade, foi um dos críticos mais agudos da religião, da moral e da tradição filosófica do Ocidente. Nessa condição, influenciou filósofos, teólogos, psicólogos e escritores do século XX.
Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844 em Röcken, na Saxônia prussiana. Filho e neto de pastores protestantes, perdeu prematuramente o pai em 1849 e ficou aos cuidados da mãe, da avó e da irmã mais velha. Em 1858 obteve uma bolsa de estudos para a escola de Pforta e em 1864 ingressou na Universidade de Bonn, para estudar teologia e filologia. Transferiu-se em 1865 para a Universidade de Leipzig, por indicação do mestre Friedrich Wilhelm Ritschl, graças a quem, ainda aos 25 anos, Nietzsche foi contratado pela Universidade de Basiléia como catedrático de filologia clássica.
Nessa fase, compôs obras musicais à maneira de Schumann, fez amizade com Richard Wagner e conheceu a filosofia de Schopenhauer. Em 1870, durante a guerra franco-prussiana, Nietzsche serviu como enfermeiro voluntário e um mês depois, muito doente, teve de voltar a dar aulas. Em 1872 publicou Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik (O nascimento da tragédia no espírito da música), que antecipa as linhas essenciais de seu pensamento e tornou-se um clássico na história da estética. Nesse livro, Nietzsche sustenta que a tragédia grega teria surgido da fusão de dois componentes: o apolíneo, que representava a medida e a ordem, e o dionisíaco, símbolo da paixão vital e da intuição. Sócrates, ao impor o ideal racionalista apolíneo, teria causado a morte da tragédia e a progressiva separação entre pensamento e vida. As dez últimas seções constituem uma rapsódia sobre o renascimento da tragédia a partir do espírito da música de Wagner.
Em suas obras seguintes, como Unzeitgemässe Betrachtungen (1873-1874; Considerações inatuais), em que exalta o pessimismo de Schopenhauer, e Menschliches, Allzumenschliches (1878; Humano, demasiado humano), em que se mostra convertido ao Iluminismo e faz os primeiros ataques à moral cristã, Nietzsche expõe algumas de suas idéias mais contundentes, desenvolvidas ainda em Die Fröliche Wissenschaft (1882; A gaia ciência), Jenseits von Gut und Böse (1886; Para além do bem e do mal) e Zur Genealogie der Moral (1887; Sobre a genealogia da moral), em aforismos brilhantes e demolidores.
Com frequentes e fortes dores de cabeça, enxergando pouco, o filósofo foi obrigado a aposentar-se. Daí em diante levou vida itinerante e de isolamento crescente na Suíça, na Itália e na Riviera francesa. De 1883 a 1891 publicou as quatro partes de sua obra principal, Also Sprach Zarathustra (Assim falou Zaratustra), de estilo bíblico e poético, entre o dos pré-socráticos e o dos profetas hebraicos. Sob a máscara do lendário sábio persa, anuncia sua filosofia do eterno retorno e do super-homem, que derrotariam a moral cristã e o ascetismo servil. O livro póstumo Der Wille zur Macht (A vontade de potência) organizado pela irmã, Elizabeth Förster Nietzsche, reúne arbitrariamente notas e rascunhos, nem sempre fiéis às idéias do autor. É autêntica, porém, a autobiografia espiritual Ecce Homo, escrita em 1888.
O vigoroso espírito crítico de Nietzsche incidiu especialmente sobre a ética cristã: para esta, o bom é o humilde, pacífico, adaptável; e o mau é o forte, enérgico e altivo. Para Nietzsche, essa é a moralidade tanto de senhores quanto de escravos. O valor supremo que deve nortear o critério do que é bom, verdadeiro e belo é a vontade de potência: é bom o que vem da vontade de potência, é mau o que vem da fraqueza. O homem aspira à imortalidade, mas esse conceito nada significa, já que a realidade se repete a si mesma num devir que constitui o eterno retorno. O homem só se salva com a aceitação da finitude, pois se converte em dono de seu destino, se liberta do desespero para afirmar-se no gozo e na dor de existir. O futuro da humanidade depende dos super-homens, capazes de se sobrepor à fraqueza, e não da integração destes ao rebanho.
Em janeiro de 1889, Nietzsche sofreu um grave colapso nas ruas de Turim e perdeu definitivamente a razão. Ao ser internado em Basiléia, diagnosticou-se uma “paralisia progressiva”, provavelmente em consequência de infecção sifilítica contraída na juventude. Passou os últimos dez anos de vida na casa da mãe e, com a morte desta, na da irmã. Nacionalista alemã fanática, Elizabeth escreveu volumosa biografia sobre o irmão em que, a serviço dos ideais chauvinistas, lhe deturpou os fatos biográficos e as opiniões políticas, atribuindo caráter nacionalista às investidas de Nietzsche contra os valores cristãos e seus conceitos de vontade de poder e super-homem. Nietzsche, na verdade adversário do nacionalismo e do anti-semitismo, morreu em Weimar, em 25 de agosto de 1900.

Bibliografia Básica para o estudo de Nietzsche   

NIETZSCHE, Friedrich. O Nascimento da Tragédia (tradução de J. Guinsburg); São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
____________ Considerações Intempestivas (tradução de Lemos de Azevedo), Lisboa: ditorial Presença – Livraria Martins Fontes, 1976.
_____________ O Livro do Filósofo (Tradução de Rubens Eduardo Ferreira Frias); São Paulo: Centauro, 2001.
_____________ Escritos sobre Educação(Tradução de Noéli Correia de Melo sobrinho); Rio de Janeiro- São Paulo: Editoras Loyola e Editora PUC-RIO, 2003.
_____________ Cinco Prefácios para Cinco Livros não Escritos (Tradução de Pedro Sussekind); Rio de Janeiro: Sete Letras, 1996.
_____________ Humano Demasiado Humano (tradução de Paulo Cezar de Souza). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
_____________ A Gaia Ciência (tradução de Paulo César de Souza). São Paulo: Companhia das Letras, 1ª ed. 2001.
_____________ Assim falou Zaratustra (tradução de Mário da Silva). São Paulo: Civilização Brasileira, 1977.
_____________ Além do Bem e do Mal (tradução de Paulo César de Souza). São Paulo: Companhia das Letras , 2ª ed. 2002.
_____________ Genealogia da Moral (tradução de Paulo César de Souza). São Paulo: Companhia das Letras , 1999.
_____________O caso Wagner/Nietzsche contra Wagner (tradução de Paulo César de Souza). São Paulo, Companhia das Letras, 1999.
_____________ Ecce Homo. São Paulo: Ediouro, 1998.
_____________ O Anticristo. Lisboa, Guimarães Editores, 1997.
_____________ Crepúsculo do Ídolos. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.
_____________ Fragmentos Finais (tradução e organização de Flávio Kothe) Brasília: Editora UNB, 2002.



Estilo de Normalizar Citação De Acordo com as Normas da ABNT para Trabalhos Acadêmicos.
RUBENS, David. Friedrich Nietzsche. http://biblicoteologico.blogspot.com.br/2014/10/friedrich-nietzsche.html. Acesso em: _____________.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

163 - Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher: Hermenêutica e Religião



Schleiermacher nasceu em Breslau, 21 de novembro de 1768, morreu em Berlim, 12 de fevereiro de 1834. Foi pregador em Berlim na Igreja da Trindade e professor de Filosofia e Teologia em Halle. Traduziu as obras de Platão para o alemão. Foi influenciado por Kant e Fichte, mas não se tornou um idealista subjetivo. Schleiermacher foi contemporâneo de Johann Fichte, Friedrich Schelling, Friedrich Krause e Friedrich Hegel. Em 1797, em Berlim, conheceu Friedrich Schlegel e uniu-se ao círculo dos românticos. Posteriormente, ensinou Teologia em Halle e, a partir de 1810, em Berlim, é nomeado pregador da corte, depois professor de Teologia e Filosofia.
As obras que lhe deram maior notoriedade foram os “Discursos sobre Religião” (1799) e os “Monólogos” (1800). Em 1822, publicou a “Doutrina da fé”, que tem importância sobretudo em relação à teologia dogmática protestante. Entre 1804 e 1828, traduziu os diálogos de Platão. Postumamente, foram publicadas as aulas relativas à dialética, à ética e à estética, além de outros temas, dentre os quais revestem-se de particular importância a Hermenêutica, na qual se revela precursor.
As suas doutrinas exerceram grande influência na teologia protestante e foram estudadas, com a evolução do seu espírito, por Dilthey, que dividiu em quatro períodos a sua atividade literária: a juventude (manuscritos), período da intuição (1796-1802), época crítica (1802-1806), período sistemático (1806-1834). Ao contrário de Hegel, Schleiermacher não subordina a religião à Filosofia, porque o sentimento, como unidade originária de pensamento e querer, não é abolido pelo pensamento. O sentimento da imortalidade e da fé na imortalidade fundam-se na “imortalidade da união da essência de Deus com a natureza humana na pessoa de Cristo”.
A religião não aspira a conhecer e explicar o universo em sua natureza, como a metafísica, nem aspira a continuar o seu desenvolvimento e aperfeiçoá-lo através da liberdade e da vontade divina do homem, como a moral. A sua essência não está no pensamento nem na ação, e sim na intuição e no sentimento. Ela aspira a intuir o Universo; quer ficar contemplando-o piedosamente em suas manifestações e ações originais; quer fazer-se penetrar e preencher por suas influências imediatas, com passividade infantil.

A ação do infinito sobre o homem, portanto, é a intuição. E o sentimento é a resposta do sujeito: é o estado de espírito, ou seja, a reação da consciência. Este sentimento que acompanha a intuição do infinito é sentimento de total dependência do sujeito em relação ao infinito. O sentimento religioso, portanto, é sentimento de total dependência do homem (finito) em relação à Totalidade (infinita).
Essa ideia básica vale, como diz Schleiermacher, para todas as formas de religião. Mas, com o passar dos anos, ele também acabou por privilegiar o cristianismo. Cristo passou a aparecer-lhe sempre mais como o Mediador e o Redentor e, portanto, acabou por assumir aos seus olhos aquelas características divinas que ele negara inicialmente.
Na sua “A fé Cristã” (1821-1822), Schleiermacher faz uma formulação sistemática da cristologia, segundo a qual Jesus é a imagem originária do que o homem é antes da queda. Dessa forma, por ser todo o seu pensamento profundamente cristocêntrico, Schleiermacher afirma que o cristão tem consciência de depender de algo superior, sobrenatural, derivando-se daí sua consciência ética, uma vez que tudo está subordinado àquela sensação religiosa, que, enfraquecendo-se, gera o pecado, fortalecendo-se, gera a graça. Para ele o cristão pergunta a si mesmo continuamente: o que deve ser, à luz da consciência cristã? Assim, ele harmonizou as concepções do protestantismo com as convicções da burguesia culta e liberal. Foi considerado radical pelos ortodoxos e visionário pelos racionalistas, mas influenciou, mais do que qualquer outro teólogo, o pensamento protestante do século XIX.
Schleiermacher, dentre outros, concebe Deus, para além do naturalismo e do sobrenaturalismo, como o “ser-em-se”, como “o fundamento criador de tudo que existe”, como “a potência incondicionada e infinita do ser”. Entretanto, para o naturalismo Deus está no mundo e, por outro lado, para o sobrenaturalismo Deus está acima do mundo.

Livros traduzidos:




Hermenêutica e Crítica - Vol I
Hermenêutica e Crítica... reúne as principais discussões do projeto hermenêutico de Friedrich Schleiermacher, reconhecido como clássico da Filosofia Alemã, que inaugura uma tradição hermenêutica que, ao longo da história, recebe diversos desdobramentos e, particularmente hoje, ocupa lugar importante no cenário filosófico.




Sobre a Religião











Introdução aos Diálogos de Platão









Hermenêutica










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RUBENS, David.Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher: Hermenêutica e Religião. http://biblicoteologico.blogspot.com.br/2014/09/friedrich-daniel-ernst-schleiermacher.html. Acesso em: _____________.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

162 - Ernst Käsemann: analise de textos paulinos a respeito da teologia da cruz



Introdução
A influência de Ernst Käsemann, em especial seu ensaio “The Saving Significance of the Death of Jesus in Paul”, domina os estudos modernos da centralidade da cruz no pensamento paulino. Käsemann defende com veemência a necessidade de reapropriar-se dos grandes discernimentos da Reforma a respeito da teologia paulina; mais exatamente, os de Lutero. Firmemente posicionado na tradição luterana de interpretação paulina, Käsemann declara que qualquer outra abordagem da teologia paulina abrange, na melhor das hipóteses, apenas alguns de seus muitos aspectos; é a abordagem de Lutero que compreende a teologia paulina em sua totalidade. Assim, quais são os aspectos básicos da teologia paulina da cruz, segundo Käsemann?
Em sua análise dos textos paulinos, Käsemann traça uma distinção exata entre textos que Paulo herda e que refletem a tradição litúrgica e doxológica de uma tradição pré-paulina e textos de que é possível afirmar serem originários diretamente de Paulo. Estes últimos, afirma Käsemann, são mais autenticamente paulinos. Para começar vamos examinar os que são considerados originários de uma tradição mais primitiva.

Importância salvífica da morte de Cristo
Segundo Käsemann, as passagens que afirmam a importância salvífica da morte de Cristo derivam, em grande parte, dessa tradição mais primitiva. Entretanto, ele percebe a existência de um processo de reinterpretação, pelo qual Paulo introduz nesse material tradicional novos elementos radicais. Em parte, essa reinterpretação consiste em redirecionar a atenção do “ainda não” da ressurreição para o “aqui e agora” da crucifixão – elemento muito importante de sua controvérsia com os entusiastas coríntios. Além disso, elementos judeu-cristãos (em Rm 3,24-26) são adotados, mas passam por uma revisão para adquirir um sentido mais rico. Porém essa reinterpretação deve ser considerada principalmente na ênfase que Paulo dá à justificação dos ímpios. A cruz demonstra a completa seriedade do pecado, declara a impotência da humanidade caída para alcançar a salvação e expõe erros humanos de hipocrisia.

Textos de tradição pré-paulina
As cartas paulinas incluem alguns casos de tradição pré-paulina que Paulo interpretou ou revisou. Dois desses casos têm importância especial. Romanos 3,24-26 ilustra a observação geral de que falta à tradição pré-paulina a ênfase radical na cruz aparentemente tão característica de Paulo. E, o que é mais significativo, Paulo parece acrescentar a Filipenses 2,6-11 uma ênfase na cruz geralmente considerada na tradição prépaulina. A frase “e morte numa cruz” desintegra a escansão do texto, o que sugere ter sido acrescentada por Paulo. A modificação significativa deste texto, que agora inclui uma referência explícita e importante à cruz, esclarece a preocupação de Paulo em concentrar sua teologia no Cristo crucificado.
E aquelas passagens que devem ser consideradas originárias diretas de Paulo, sua criação pessoal, não herança da tradição pré-paulina? Nelas se encontra, em plenitude e nitidez, a mensagem do escândalo da cruz com todas as suas implicações teológicas. Talvez a mais significativa dessas passagens seja 1 Coríntios 1,1831. Aqui encontramos a ênfase caracteristicamente paulina no fato de Deus querer justificar os ímpios pela crucifixão escandalosa de Jesus como criminoso amaldiçoado publicamente por Deus. Käsemann chama a atenção em especial para dois aspectos distintos desta teologia: seu caráter polêmico e sua predisposição para a rejeição pelo mundo.
A teologia paulina da cruz é polêmica não por ser dirigida contra falsos entendimentos da natureza de Deus fora da Igreja, mas porque se opõe a interpretações errôneas do evangelho dentro da própria Igreja – tais como a devoção legalista de círculos cristãos judaizantes ou as perspectivas falsas a respeito da ressurreição comuns em Corinto.
A teologia paulina da cruz “era sempre um ataque crítico à interpretação tradicional dominante da mensagem cristã, e não foi por acaso que caracterizou os inícios protestantes”.
E essa teologia se volta para a rejeição pelo mundo. Käsemann ressalta que o ministério pessoal de Paulo pode ser considerado uma apresentação autobiográfica do impacto da cruz porque evoca angústia, sofrimento, rejeição e perseguição. Onde quer que a Igreja leve a sério a cruz de Cristo, ela espera encontrar hostilidade.
Quase no fim de seu ensaio, Käsemann apresenta uma importante discussão da relação entre a teologia da cruz e a pregação, aparentemente dirigida contra os que enfatizam a historicidade e a objetividade da crucifixão. Não podemos deixar que a fé se tome dependente de meras lembranças históricas de um acontecimento passado. A morte de Cristo é significativa não apenas como acontecimento histórico, mas pela proclamação da Palavra (Rm 10,14) e a subsequente evocação da fé.

Conclusão
A abordagem de Käsemann à teologia paulina da cruz é brilhante e original, e ele continua a ser um parceiro muito importante em qualquer discussão da teologia paulina da cruz. Notamos alguns pontos óbvios de critica do ensaio que se concentram em sua distinção entre os componentes pré-paulinos e paulinos do corpus.
- Primeiro, por que devemos presumir que o material pré-paulino é, de alguma forma, menos importante que as passagens paulinas? O próprio fato de Paulo recorrer a uma tradição mais primitiva pode muito bem indicar que ele pretendia que ela fosse tratada com grande seriedade e que essas passagens se destinavam a ser investidas de peso interpretativo especial. Exemplo óbvio é 1 Coríntios 11,23-25, onde Paulo deseja claramente que sua citação de uma tradição mais primitiva possua autoridade suficiente para confirmar seu argumento (ver também ICor 15,1-4).
- Segundo, como Käsemann pode ter tanta certeza de que Paulo modificou radicalmente o material mais primitivo? Do ponto de vista metodológico, essa pergunta se relaciona com a pergunta de como é possível traçar uma distinção entre material tradicional e redacional, o que não é necessariamente tão simples como Käsemann quer que acreditemos. Até onde percebemos, Paulo nem sempre modifica o material mais primitivo; sempre deve haver um grau de dúvida quanto à natureza, à extensão e à importância da reelaboração paulina da tradição mais primitiva. Contudo, podemos dizer que o ensaio de Käsemann, completado por uma série notável de escritos posteriores, estimulou um novo interesse pela teologia paulina da cruz, em especial nos estudos de língua alemã e, cada vez mais, nos escritos norte-americanos.

Referência
KÄSEMANN, Ernst. Perspectivas paulinas. São Paulo: Teológica; Paulus, 2003.
KÄSEMANN, Ernst. Os inícios da teologia cristã: Apocalipsismo. São Leopoldo/RS: Sinodal, 1983.
RUBENS, David. Estudos Teológicos. Vl. 2. Pindamonhangaba/SP: Kerygma, 2014. 

Estilo de Normalizar Citação De Acordo com as Normas da ABNT para Trabalhos Acadêmicos.
RUBENS, David. Ernst Käsemann: analise de textos paulinos a respeito da teologia da cruz. http://biblicoteologico.blogspot.com.br/2014/09/ernst-kasemann-analise-de-textos.html. Acesso em: _____________.



Tradução: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. parte do artigo 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos.