segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

287 - Profeta Jonas: O Perdão de Deus Acima da Vontade Humana


Introdução                                                                                   
O livro de Jonas, o motivo da narração é o fato de um homem ter sido engolido por um peixe enorme, o qual, depois de três dias, o vomitou em terra permitindo-lhe continuar vivendo. Do ponto de vista literário e etnológico, a narração de Jonas se inscreve entre os mitos de deglutição.
O peixe que engole simboliza o poder da morte; a sua garganta corresponde às fauces da morte, que traga todo vivente; o seu estômago é símbolo do reino dos mortos onde o homem experimenta a ira de Deus. O grande peixe é a expressão imaginaria da monstruosidade de tal experiência. O vômito simboliza o renascimento para a vida.

1  O Mundo da Narrativa de Jonas
O mundo da narração de Jonas é vasto e múltiplo. O horizonte se estende do antigo porto fenício de Jope a Társis, na Cilícia, que para os israelitas daquele tempo eram as extremidades do mundo, que se estendia na direção oposta até a maior potência do tempo, a cidade de Nínive, que, na narração simboliza os poderes inimigos de Deus.

2  Quem é o Personagem
Há uma questão que permanece aberta: como pode o profeta “Jonas, filho de Amitai”, mencionado em 2Reis 14.25, vir a ser o protagonista do livro? Ligar o profeta Jonas à descrição de uma viagem a Nínive não tem base em fatos históricos. De fato, no tempo em que viveu o profeta Jonas (2RS 14.25), sob Jeroboão II (782-753 a.C.), “Nínive não era a residência dos reis assírios e nem se poderia dizer que fosse uma metrópole”.[1]
Pode-se representa do modo seguinte a formação da narração bíblica: uma saga, surgida na cidade de Jope ou nas vizinhanças, se infiltrou nas tradições dos gregos e dos hebreus. Em Israel esta história se prende ao nome do profeta Jonas, mencionado em 2Reis 14.25.

3  A Intenção do Livro
O que surpreende no livro é a crítica explícita de uma mentalidade estreita que excluía os pagãos da salvação.
A narração nos apresenta o profeta Jonas como um homem que pertence ao povo que serve ao único Deus verdadeiro. Mas ela chega a uma situação trágica: Jonas foge de Deus pelo mesmo motivo que Israel usa há muito tempo para honrá-lo: “Sois um Deus benigno e clemente, longânime e rico em misericórdia, e que desiste facilmente do mal ameaçado” (Jn 4.2). Por saber de tudo isso, Jonas foge. Para ele “os pagãos não deveriam ter possibilidade de conversão, mas deveriam permanecer expostos ao castigo divino”.[2]
Apesar da oposição humana, Deus mostra que dá o seu perdão a quem quer que se converta do seu mau caminho.
Jonas que desejaria excluir os pagãos da misericórdia de Deus, está errado: o Deus de Israel é o Senhor da vida e da morte de todos os homens, e não quer a punição mas a conversão dos pecadores. O perdão de Deus está acima de todo o cálculo e da vontade humana.

4  Período da Narração
Tudo nos leva a crer que esta narração se trata de uma obra pós-exílica. Tanto a linguagem como o estilo são claramente posteriores à época clássica da língua hebraica. O estilo faz pensar que se trata de uma espécie de panfleto dirigido à corrente judaica da época de Esdras.

Conclusão
O Deus de Israel rejeita tanto o pecado dos pagãos quanto o exclusivismo nacionalista do hebreu, que subentende a eleição de Israel como condenação para os outros povos. “Com o símbolo do peixe, da deglutição e do vômito, a narração proclama que é somente renascendo que o homem pode abrir os olhos para reconhecer o Deus de Israel e o seu desejo de perdoar”.[3]            

Bibliografia
SHREINER, Josef. Palavras e Mensagens do Antigo Testamento. São Paulo: Teológica; Paulus, 2004.
WOLFF, Hans Walter. A Bíblia Antigo Testamento: introdução aos escritos e aos métodos de estudo. São Paulo: Teológica; Paulus, 2003.


David Rubens de Souza
Pindamonhangaba-SP







[1] LORETZ, Oswald. Romance e Novela em Israel: Palavras e Mensagens do Antigo Testamento. São Paulo: Teológica; Paulus, 2004. p. 375.
[2] WOLFF, Hans Walter. A Bíblia Antigo Testamento: introdução aos escritos e aos métodos de estudo. São Paulo: Teológica; Paulus, 2003. p. 142.
[3] LORETZ, Oswald. Romance e Novela em Israel: Palavras e Mensagens do Antigo Testamento. São Paulo: Teológica; Paulus, 2004. p. 376.


286 - Profetas do Antigo Testamento: Homens de Yahweh, Homens do Povo

 


Introdução

Toda palavra contida na Escritura, seja anúncio ou narração, exortação ou mandamento, oração ou reflexão sapiencial, faz referência a alguns acontecimentos nos quais Deus interveio para outorgar a salvação aos seres humanos. Segundo W. Panennberg, “Deus se revelou através da história”. Os profetas tiveram uma relação estreita com Yahweh, Deus de Israel, através deles, Deus transmitiu ao povo seus juízos e promessas.  

1  Os Profetas e a História
1.1 Os profetas, testemunhos da história.
Os livros proféticos são um reflexo da época em que foram escritos e das circunstâncias que rodearam o profeta.[1] Os profetas estavam bem informados sobre a política do seu tempo, mas não adotaram posturas utópicas. Simplesmente consideraram as instituições políticas do seu povo e as das nações estrangeiras como instrumentos nas mãos de Yahweh para levar adiante seu plano.
Ø     A atividade do profeta está acima das encruzilhadas políticas. Mas até que ponto a atividade de cada profeta influenciou as decisões concretas dos reis.
-                        Intervenção de Isaías na guerra Siro-efraimita.
-                        Influência de Jeremias na crise que a invasão babilônica provocou nos deportados e nos que ficaram em Jerusalém.
Os profetas eram bons conhecedores dos acontecimentos da sua época.
1.2 Os profetas, intérpretes da história.
Os profetas não se limitam a testemunhar os acontecimentos dos quais são protagonistas, mas aprofundam o seu sentido. Nas palavras de José Luis Sicre: “eles fincam pé na força da Palavra de Deus como criadora da história (Is 55.10-15)”.[2]
A interpretação da história nos profetas baseia-se em três idéias fundamentais: o monoteísmo, a eleição do povo e a missão específica entre as nações.[3]
a)                     Monoteísmo: visto haver um só Deus, é ele o autor da história. Não tem nenhum sucesso quem escapa ao seu controle. A Ele deve ser atribuído tanto os benefícios quanto as desgraças. Quando Israel passa os seus piores momentos e tende a buscar apoio em outros povos ou deuses, surge um profeta que o confirma na verdade: Am 5.5-6. Assíria, Babilônia ou Egito são as potências opressoras: são nações idólatras. Quando estas nações triunfam em seus projetos, seria possível entender que os deuses, protetores destas nações, estavam triunfando sobre o Senhor. O ensinamento profético não admite dúvida: Deus mesmo é quem anima estas nações que se encarregarão de afligir a Israel o castigo merecido: Am 6.14.
Jeremias apresenta Babilônia como instrumento nas mãos de Yahweh (Jr 5.15; Is 5.26). O segundo Isaías interpretará o surgimento e o crescimento da Pérsia como uma intervenção benéfica de Yahweh (Is 45.1-3).[4]
B)                    Eleição: ao surgirem as nações, Yahweh quis escolher com predileção o povo de Israel. Porém, ao fazê-lo, não o arrancou de entre os outros povos, mas o levou a viver entre eles. Mas ainda, já que a eleição por si só não equivale a privilégios ou falsas seguranças (Am 9.7). O povo de Israel deve ter consciência de que não é o maior (Am 7.2-5), nem o mais rico (Am 6.2), nem o mais poderoso (Am 2.9).
Jeremias 2.1-7
Ezequiel 16.23
Isaías 50.1; 54.5
A eleição serve de base para a exigência da responsabilidade de Israel (Am 3.1-2: 1- Ouvi esta palavra que o Senhor fala contra vós, filhos de Israel, contra toda a geração que fiz subir da terra do Egito, dizendo: 2- De todas as famílias da terra a vós somente conheci; portanto, todas as vossas injustiças visitarei sobre vós: 3- Andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?). “Yahweh castiga o seu povo não em uma explosão de ira, mas de misericórdia: não pode aniquilá-lo, nem pode deixar impune o rompimento da aliança”. O senhor não busca a ruína do povo mas a sua conversão.
C)                    Missão: a missão consiste em tornar as gentes participes das bênçãos e dos benefícios recebidos de Yahweh (Is 2.3-4 e Mq 4.2: E irão muitas nações, e dirão: Vinde, e subamos ao monte do Senhor, e à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos, e nós andemos pelas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e a palavra do Senhor de Jerusalém.). O segundo Isaías conta a íntima relação Deus-povo com uma linguagem intima e afetiva: Isaías 41.8-10.
A história é o marco no qual nasce e se desenvolve a profecia. Os profetas despertam a esperança dos seus ouvintes entre oráculos de condenação e salvação, proclamados na perspectiva dos acontecimentos históricos que eles são chamados a viver.     

2  Os Profetas: Perturbadores
As profecias vêm sendo interpretadas pela teologia cristã pelo ângulo do seu cumprimento no Cristo. Tal idéia despreza por completo, a função dos profetas, que antes de tudo, pretendiam anunciar o juízo sobre Israel.
 Diz Claus Westermann[5], que os profetas combateram a apostasia sempre iminente no povo; eles exortaram ao povo a se manter fiel à Yahweh, advertiram e ameaçaram com castigo, ao mesmo tempo que proclamaram a salvação ao resto que sobrasse do cataclisma.
a)                     Porta-voz: os profetas eram porta-vozes da mensagem divina. Com suas pregações incômodas deram em cheio contra a infidelidade do povo. A oposição causava sofrimento e perseguições. Os profetas gemiam ante a inutilidade de seus trabalhos e empenhos (Is 49.4: Mas eu disse: Debalde tenho trabalhado, inútil e vãmente gastei as minhas forças; todavia o meu direito está perante o Senhor, e o meu galardão perante o meu Deus).
b)                     A mensagem: os profetas censuravam todas as áreas da vida do povo, mas principalmente as violações dos mandamentos capazes de trazer riscos a existência da nação.[6]

Os casos concretos variam de profeta para profeta, de situação para situação:
Ø     Isaías: acusação de cunho político.
Ø     Jeremias: desaprova a autonomia nas decisões políticas sem consultas prévias da vontade de Deus.
Ø     Oséias: ataca os reis e os chefões. Segundo Claus Westermann: “jamais um profeta organizava a oposição contra um rei. Limitavam-se a falar e a padecer as conseqüências”.[7]
Ø     Amós e Miquéias: atacam os abusos sociais, estendidos até o campo econômico e cultural.
Ø     Os profetas denunciam ainda a vida luxuosa, constratando ostensivamente com a miséria dos indigentes, das viúvas e dos órfãos, ao passo que fora vontade de Deus que todos possuíssem a mesma participação no território da terra prometida.
c)                     Campo religioso: a acusação mais apaixonada dos profetas é no campo religioso, porquanto o culto divino ocupava o lugar central no coração do povo. Um profeta falar em nome de Deus, contra o culto divino, é comovedor; mas eles falaram seriamente, e só alguns poucos entenderam e acolheram a pregação profética:
.  Ofertaram os sacrifícios com mãos manchadas de sangue! (Is 1.10-17; Am 2.8);
.  Culto hipócrita (Jr 7.1-15; Is 66.1-2);
.  Repreensão aos sacerdotes (Jr 2.8);
.  Luta contra os falsos profetas (Jr 28).
Cabia aos profetas legítimos condenar qualquer desvio das profecias autenticamente esperançosas.
Os profetas pregavam no tempo presente, tinham ante os olhos as desordens presentes, que atraiam a ira de Yahweh, de modo que o castigo futuro era a conseqüência lógica da transgressão presente.[8] O interesse do profeta estava voltado também para o passado, evocando tudo o que já acontecera entre Deus e o seu povo (Is 5.1-7).

3 Profeta Autêntico e Profeta Falso
3.1                     Profeta autêntico.
a)                     Jamais tiveram eles a iniciativa de um contato com Yahweh; foi ele quem os surpreendeu, sem a interferência da vontade dos profetas. Amós descreve-o dizendo: “o leão ruge: quem não termerá? O Senhor Yahweh fala: quem não profetizará?” (Am 3.3-8).
b)                     Eles se tornam instrumento de Yahweh não em um momento de êxtase, mas em plena consciência; ouviram, observaram e responderam. Isaías ouviu uma voz que perguntava: “A quem enviarei? Quem será meu mensageiro?” E numa livre decisão ele respondeu: “Eis-me aqui; envia-me! (Is 6.8-9).
c)                     Alguém que Deus surpreende, ele reluta (Jr 1.6-7), se apavora (Am 3.8), Ezequiel se sente agarrado pela sua mão. O profeta é surpreendido e subjugado; de modo que dizer, teve que ser profeta.[9] É enviado a rebeldes e obstinados (Ez 2.3: E disse-me: Filho do homem eu te envio aos filhos de Israel, às nações rebeldes que se rebelaram contra mim; eles e seus pais prevaricaram contra mim, até este mesmo dia). Sua mensagem leva a solidão (Jr 15.17: Nunca me assentei no congresso dos zombadores, nem me regozijei; por causa da tua mão me assentei solitário, pois me encheste de indignação) e á perseguição (Am 7.10; Jr 20.10). Cada um dependia da Palavra de Yahweh, que os chamava continuamente à ação (Jr 15.19-21) e da força de Yahweh, que os impelia sem cessar (Mq 3.8).[10]
d)                     O profeta enquanto “escolhido”, “santificado” e consequentemente “separado” (Jr 1.5), esta em uma relação estreita com Yahweh, Deus de Israel, que se torna assim o “seu” Deus. De sua parte o profeta se torna sujeito de dois títulos específicos: “Homem de Deus”[11] e “Servo de Deus”.
e)                     O profeta está colocado como mediador entre Yahweh e Israel: “Ele ama a ambos e a ambos pertence”.[12]
f)                      O profeta vislumbra as coisas vindouras não somente através de palavra articulada, mas também através de toda sorte de atos simbóliocos, por vezes extremamente estranhos[13] (Is 8. 1-4; 20.11; Jr 19.1).

3.2                     Falso profeta
Sobre os falsos profetas sedutores diz Miquéias (Mq 3.5: Assim diz o Senhor contra os profetas que fazem errar o meu povo, que mordem com os seus dentes, e clamam: Paz! mas contra aquele que nada lhes mete na boca preparam guerra).
Jeremias caracteriza os falsos profetas dizendo (Jr 23.14: Mas nos profetas de Jerusalém vejo uma coisa horrenda: cometem adultérios, e andam com falsidade, e esforçam as mãos dos malfeitores, para que não se convertam da sua maldade; eles têm-se tornado para mim como Sodoma, e os moradores dela como Gomorra).
Apenas um profeta verdadeiro tem capacidade para desmascarar o falso.

Conclusão
O verdadeiro profeta pode sofrer insucessos nas mãos do falso, mas confia na Palavra do seu Deus, palavra que lhe dá nova autoridade (Jr 28.11: E falou Hananias aos olhos de todo o povo, dizendo: Assim diz o Senhor: Assim quebrarei o jugo de Nabucodonozor, rei de Babilônia, depois de passados dois anos completos, de sobre o pescoço de todas as nações. E Jeremias, o profeta, se foi seu caminho), coisa que jamais poderá fazer sozinho; pode às vezes esperar em desespero por dez dias, mas ele acaba por fazê-lo (Jr 42.7: E sucedeu que ao fim de dez dias veio a palavra do Senhor a Jeremias; Is 8.17: E esperarei ao Senhor, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei).

Bibliografia
RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento. 2. ed. São Paulo: Aste; Targumim, 2006. p. 530.
SICRE, Luis José. org. Os profetas. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 2007.
SHREINER, Josef. Palavra e Mensagem do Antigo Testamento. São Paulo: Teológica, 2004.
WESTERMANN, Claus. Fundamentos da Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Academia Cristã, 2005.
WILSON, Robert R. Profecia e Sociedade no Antigo Israel. 2. ed. São Paulo: Targumim; Paulus, 2006.
WOLFF, Hans Walter. Bíblia Antigo Testamento. São Paulo: Teológica, 2003.


David Rubens
Pindamonhangaba-SP




[1] SICRE, Luis José. org. Os profetas. 2. ed. São Paulo. Paulinas: 2007. p. 64.
[2] Ibidem, p. 67.
[3] SICRE, Luis José. org. Os profetas. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 2007. p. 67.
[4] Ibidem, p. 68.
[5] WESTERMANN, Claus. Fundamentos da Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Academia Cristã, 2005. p. 239.
[6] Ibidem, p. 147.
[7] Ibidem, p. 151.
[8] WESTERMANN, Claus. Fundamentos da Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Academia Cristã, 2005. p. 148.
[9] SHREINER, Josef. Palavra e Mensagem do Antigo Testamento. São Paulo: Teológica, 2004. p. 176.
[10] WOLFF, Hans Walter. Bíblia Antigo Testamento. São Paulo: Teológica, 2003. p. 79.
[11] O homem de Deus entendido no sentido de servo de Deus. É sinônimo de profeta, sendo ambos os títulos aplicados às vezes ao mesmo indivíduo (1Sm 3.20; 9.6,7,8), a área geográfica determinava o uso do titulo. WILSON, Robert R. Profecia e Sociedade no Antigo Israel. 2. ed. São Paulo: Targumim; Paulus, 2006. p. 174.
[12] SHREINER, Josef. Palavra e Mensagem do Antigo Testamento. São Paulo: Teológica, 2004. p. 177.
[13] RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento. 2. ed. São Paulo: Aste; Targumim, 2006. p. 530.


sábado, 7 de novembro de 2015

285 - Mudanças ambientais podem explicar o surgimento do povo israelita, Israel Finkelstein. Jornal Folha de S.Paulo.




Amostras de pólen obtidas no leito do mar da Galileia e do mar Morto podem ser a pista que faltava para explicar como surgiu o povo israelita, cuja religião deu origem ao judaísmo e ao cristianismo.
Segundo pesquisadores israelenses, os dados sugerem que, a partir de 1250 a.C., várias ondas prolongadas de seca devastaram a Terra Santa ao longo de um século e meio, fazendo com que bandos de refugiados fundassem novas comunidades na zona montanhosa da região. Esses novos vilarejos acabariam levando à formação dos antigos reinos de Israel e Judá.
Um dos que propõem essa tese é o arqueólogo Israel Finkelstein, da Universidade de Tel Aviv. O trabalho dele tem ajudado a repensar a relação entre os relatos da Bíblia, de um lado, e os dados históricos e arqueológicos, de outro.
Finkelstein conversou com a Folha durante sua visita ao Brasil na primeira semana de outubro, quando participou de conferências organizadas pela Universidade Metodista de São Paulo e pela Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica.

RESOLUÇÃO
"O grande diferencial desse nosso novo trabalho é a resolução", explica o arqueólogo. "Normalmente as amostras possuem uma resolução de uns 200 anos por camada. Nós conseguimos obter dados detalhados que se referem apenas à transição entre a Idade do Bronze e a Idade do Ferro [grosso modo, entre 1300 a.C. e 1000 a.C.], com resolução de 25 anos a 40 anos."
São dados, portanto, que funcionam como uma espécie de cápsula do tempo. Conforme o pólen ia sendo depositado no fundo do mar da Galileia e do mar Morto, numa ordem que vai do mais antigo ao mais recente, ele passou a formar um registro das mudanças ambientais pelas quais o Oriente Médio estava passando ao longo das décadas.
A análise do pólen permite determinar tanto o tipo quanto a quantidade de vegetação que existia no entorno desses corpos d'água (apesar do apelido de "mar", eles não passam de grandes lagos). E foi assim que Finkelstein e seus colegas arqueobotânicos (que estudam as plantas do passado) acharam indícios de secas prolongadas numa região que já não é célebre pela abundância de água. Uma palavra resume as consequências das ondas de secura: caos.
Como os arqueólogos já sabiam, entre 1250 a.C. e 1100 a.C. os grandes impérios do Mediterrâneo na Idade do Bronze entram em colapso. Deixam de existir o Império Hitita, na atual Turquia, os reinos micênicos, na atual Grécia, e até o poderoso Egito mal consegue escapar.
Antes da catástrofe, os faraós dominavam todo o atual território israelense, palestino e libanês, além de vastas áreas da Síria e da Jordânia modernas.
Tudo indica que as alterações climáticas geraram tanto rebeliões internas (muito provavelmente ligadas às colheitas que não estavam vingando) quanto estimularam o ataque de tribos bárbaras (e famintas) às cidades do Oriente Médio.
"A ideia é que isso desestabilizou totalmente tanto as populações que viviam em áreas de estepe, a leste do rio Jordão, quanto muitos dos moradores das cidades-Estado do litoral", conta Finkelstein. De quebra, algumas dessas cidades estavam sendo atacadas e destruídas por invasores, como os filisteus.
A região montanhosa no centro da Terra Santa, hoje correspondente, grosso modo, à Cisjordânia, era o lugar ideal para fugir do caos e da fome porque era uma área pouco povoada na época, além de relativamente fértil e não tão seca quanto outras áreas da vizinhança.
De fato, nas fases finais do colapso dos impérios da Idade do Bronze, é ali que começam a pipocar centenas de vilarejos rurais, com localizações associadas ao que seria, segundo a Bíblia, o território original das tribos israelitas.
Segundo esse cenário, hoje aceito pela maioria dos arqueólogos, o povo de Israel teria surgido dentro da própria Terra Santa (ou Canaã, como era conhecida na Antiguidade), como uma espécie de dissidência dos moradores originais da região, os cananeus.
Argumentos em favor dessa ideia são o fato de que os artefatos dos primeiros vilarejos da região montanhosa são quase idênticos aos dos cananeus que viveram antes ali, além do detalhe de que o hebraico é um dialeto cananeu, muito próximo do fenício (que era falado no atual Líbano).
Ou seja, tanto o êxodo liderado por Moisés quanto a conquista de Canaã liderada por Josué seriam quase totalmente lendários.

CADÊ O SALOMÃO?
Finkelstein também defendeu outra de suas ideias polêmicas que tem ganhado cada vez mais aceitação entre os pesquisadores: a de que as narrativas sobre um glorioso "Reino Unido" israelita, governado inicialmente por David e depois por seu filho Salomão, também é lendária.
O arqueólogo diz que David e Salomão provavelmente são personagens reais, mas que seus feitos foram muito exagerados por seus descendentes como forma de fortalecer os interesses políticos da monarquia de Jerusalém.
"Certamente havia um pequeno núcleo urbano em Jerusalém na época deles [entre 1000 a.C. e 930 a.C.], mas os dois não passavam de chefes militares tribais", argumenta o pesquisador.
Os críticos do trabalho do pesquisador afirmam que ele ignora dados que indicariam a presença de um Estado centralizado na antiga capital de Judá durante a era salomônica.
"O problema de Jerusalém, na minha opinião, é que o núcleo mais antigo da cidade não está na chamada Cidade de David, onde as pessoas conseguem escavar hoje, mas na região do Templo, hoje ocupada pelo Domo da Rocha", diz Finkelstein.
Como se trata de uma das áreas mais sagradas do islamismo, é improvável que os arqueólogos recebam permissão para escavar lá algum dia, afirma ele. 
















quinta-feira, 5 de novembro de 2015

284 - História do movimento cristão mundial, volume II: o Cristianismo moderno de 1454 a 1800. Dale T. Irvin e Scott W. Sunquist



Introdução
A história do movimento cristão mundial tem sido maior do que aquilo que qualquer dos seus participantes jamais imaginou que fosse. É também maior do que qualquer um que tenta escrever sobre ele consegue expressar. Como todas as histórias escritas, esta é incompleta, pois nunca podemos esgotar quer os dados quer as nossas interpretações dos dados. No tocante à história, há sempre mais a pesquisar, mais a estudar e mais a escrever, assim como há sempre mais a fazer. Reconhecer que existe esse excedente tanto na história que é vivida como na história que é pesquisada e escrita serve como uma advertência e também como um incentivo para manter abertos o projeto histórico e os ricos diálogos em andamento. Mas chega a hora em que a elaboração deve ser encerrada, ainda que por um tempo, para que o projeto seja visto. Após mais de uma década de trabalho, que incluiu a colaboração de bom número de especialistas e estudiosos do mundo inteiro, você agora tem em mãos o produto dos esforços deles como o segundo volume da História do movimento cristão mundial. 
Os dois autores deste volume oferecem-no como uma contribuição ao diálogo que, esperamos, não termine tão cedo. Ele não é, de modo algum, a última palavra na história do movimento cristão mundial do século XV ao século XVIII. Ao invés, nós o oferecemos como uma contribuição a mais destinada a ampliar a compreensão coletiva da história do Cristianismo no mundo. Permeando os primeiros dois volumes da História do movimento cristão mundial está a concepção subjacente de que o Cristianismo não foi uma religião europeia que se espalhou por outras partes do mundo pela primeira vez após o ano 1500, como muitas vezes tem sido apresentado. 
O Cristianismo nasceu na juntura de três continentes e, cem anos depois, já estava solidamente estabelecido em cada um deles. No ano 1500, já era algo como uma religião mundial. Tinha se tornado também a religião dominante e estabelecida na Europa Ocidental, como continuou sendo no Império Romano Oriental (ou Bizantino), que tinha como capital Constantinopla. O volume primeiro terminou com a derrota de Constantinopla, em 1453, pelas forças otomanas, e o correspondente fim do Império Romano Oriental (ou Bizantino). Apenas algumas décadas antes as naus portuguesas começaram a se aventurar no sul do oceano Atlântico, ao longo da costa da África, abrindo uma nova era na história mundial. Essa nova era foi logo caracterizada por um desequilíbrio global de poder que permitiu aos europeus dominar muitas outras regiões do globo. O subsequente movimento de pessoas, de bens e ideias que essas viagens facilitaram, também espalhou rapidamente o Cristianismo através do globo terrestre, para mais longe do que tinha estado antes. Comunidades cristãs começaram a se desenvolver em regiões da terra onde anteriormente não existiam, mais notavelmente no hemisfério que passou a ser chamado de América do Sul e do Norte. Embora na maioria dos casos essas comunidades de fé nas novas localidades continuassem a estar relacionadas quanto ao caráter e à expressão com as Igrejas da Europa Ocidental, elas nunca foram simples cópias delas. Em alguns lugares da Ásia e da África, os cristãos da Europa Ocidental encontraram também comunidades cristãs indígenas de várias tradições ortodoxas que já viviam nesses lugares por mais de um milênio. Os resultados desses encontros foram significativos para ambas as partes. Enquanto isso, as Igrejas da própria Europa Ocidental começaram a experimentar, em torno do ano 1500, novas tentativas de reforma que, em alguns casos, levaram a mudanças significativas, mesmo quando procuraram manter a continuidade com o passado histórico cristão, ou pelo menos com aquela porção do passado cristão que elas consideravam determinante para a sua identidade. Assim, o movimento cristão em todo o mundo se viu, após 1453, às voltas com forças irresistíveis de mudança e continuidade em modos novos e contextualmente específicos.

Paulus
2015
P. 620


Dale T. Irvin é Presidente e Professor do departamento de Cristianismo Mundial no Seminário Teológico de Nova York. Filiado a Igrejas Batistas, EUA.









Scott W. Sunquist. Reitor da Escola de estudos interculturais e professor de cristianismo na escola de estudos interculturais




terça-feira, 3 de novembro de 2015

283 - Arqueólogos encontram fortaleza bíblica em Jerusalém




Cidadela de Acra, construída há mais de 2 mil anos, foi um centro de poder e usada para conter a rebelião judaica registrada no livro bíblico dos Macabeus. Buscas já duravam mais de um século.
Depois de mais um século de buscas, arqueólogos afirmam ter encontrado as ruínas de uma antiga fortaleza grega mencionada na Bíblia e solucionado, assim, um dos maiores mistérios arqueológicos de Jerusalém. A cidadela de Acra estava enterrada em um estacionamento da cidade.
"Pesquisadores, juntamente com a Autoridade de Antiguidade de Israel, acreditam ter encontrado as ruínas da fortaleza nas escavações no estacionamento Givati, na cidade de David", anunciou o órgão nesta terça-feira (03/11).
A fortaleza foi um centro de poder e usada para conter a rebelião judaica registrada no livro bíblico dos Macabeus. Acra foi construída há mais de 2 mil anos por Antíoco Epifânio, rei do império selêucida helênico. Pesquisadores tentavam localizá-la há anos.
Muitos acreditavam que a cidadela ocupasse o lugar onde atualmente fica a Cidade Velha de Jerusalém, com vista para a Igreja do Santo Sepulcro ou próximo à colina que abriga o complexo de mesquitas de Al-Aqsa.
Mas as ruínas localizadas em um antigo estacionamento pavimentado ficam fora dos limites da Cidade Velha, com vista para um vale ao sul. Segundo arqueólogos, a região de Acra corresponde ao local onde a construção de Jerusalém se concentrou durante o reinado bíblico de David.
O líder da escavação, Doron Ben-Ami, afirmou que Antíoco, que viveu entre 215 e 164 a.C., escolheu o local para poder controlar a cidade e monitorar as atividades no templo judaico. A fortaleza foi soterrada por uma colina artificial composta por várias camadas de terra deixadas por diferentes culturas.
Entre as ruínas há uma parede maciça, a base de uma torre e de um aterro de defesa, além de artefatos como moedas e alças de jarras de vinho, que parecem ser do período de Antíoco. De acordo com Autoridade de Antiguidade, a torre possui "dimensões impressionantes".
Pedras de estilingues e pontas de flecha de bronze, da mesma época, também foram localizadas na escavação. As peças podem ser remanescentes da batalha entre forças gregas e rebeldes judeus que tentavam tomar a fortaleza.
"Esse é um exemplo raro de como rochas, moedas e terra podem se juntar em um episódio arqueológico único que aborda realidades históricas específicas da cidade de Jerusalém", afirmou Ben-Ami.
Arqueólogos afirmaram ainda que a descoberta permite reconstruir a composição de assentamento na cidade de mais de 2 mil atrás. Acra foi mencionada vagamente em dois textos antigos: o Livro dos Macabeus, que retrata a rebelião, e nos registros do historiador Flávio Josefo.
Na tradição judaica, Antíoco é lembrado com o vilão do feriado Hanukkah que tentou proibir ritos religiosos e provocou a revolta dos Macabeus.
Fonte: terra

CN/rtr/afp



Tradução: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. parte do artigo 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos.