segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

288 - Formação do Novo Testamento: Breve Introdução

 

O Novo Testamento não existia quando começou o cristianismo. Desde o começo somente ao Antigo Testamento é que se atribuía o caráter de Escritura Sagrada. A formação do cânon do Novo Testamento com os seus vinte e sete escritos, todos muito diferentes entre si, foi uma evolução gradual que ocorreu entre o fim do século II e o século IV. O “cânon”[1] não é o resultado de um processo de colecionar mas de um processo de separar certos escritos considerados como normativos de uma massa de outra literatura eclesiástica e herética.[2]

1. Princípios segundo os quais se fez a seleção
Alguns dos princípios segundo os quais se fez a seleção - tais como autoria direta ou, talvez, somente mediata, dos apóstolos - se evidenciaram como errôneas.
O cânon do Novo testamento é um produto de uma história terre e humana. Não caiu do céu como uma revelação. O impulso por detrás de sua formação, não veio da Igreja, mas de Marcião,[3] que no meio do século II fundou uma contra-igreja. Marcião rejeitava o Antigo Testamento, considerava-o não como a revelação do Deus cristão de amor, mas de outro Deus, um Deus judaico inexoravelmente “justo”.[4]
De acordo com isso Marcião fez sua seleção rigorosa das escrituras cristãs aceitáveis. Seu cânon só tinha onze livros agrupados em duas seções, o Evangelho, uma versão do Evangelho de Lucas e dez cartas do apóstolo Paulo, a quem ele considerava como o mais correto intérprete e transmissor da mensagem evangélica de Jesus. Ambas as seções também foram purgadas de elementos relacionados à infância de Jesus, a religião judaica e outros materiais que contestavam a sua teologia dualista.
A batalha contra essa heresia de Marcião, com o seu dualismo e negação da criação, exerceu um papel importante na formação do Cânon da Igreja.
Sobre o Cânon Kümmel afirma:


Muito provavelmente, no fim do século I já havia uma coleção das epístolas de Paulo. Na verdade, uma coleção de dez epístolas paulinas (sem as Epístolas Pastorais) só aparece claramente confirmada em Marcião, por volta do ano 140, mas é bem pouco provável que Marcião tenha sido o primeiro a reunir tais epístolas.[5]


Harnack[6] defende a tese de que Marcião fora o primeiro a promover a idéia de uma nova Sagrada Escritura, bem como de sua divisão em duas partes, e de que a Igreja o seguira em ambos os aspectos.[7]
 
2. Novo Testamento, corpus canônico das escrituras cristãs
Novo Testamento, não era entendido como um título de um livro, mas como uma afirmação teológica, significando tanto a unidade como a diferença entre a revelação de Deus na Antiga Aliança e seu cumprimento em Cristo.[8] O conceito tem suas raízes em 2Co 3.6, onde Paulo aponta a promessa vétero-testamentária de uma nova aliança em Jr 31.31 e coloca lado a lado a aliança “antiga” e a “nova”,[9] coordenando-as ao mesmo tempo uma com a outra.

3. Origem do termo, Testamento
Na Septuaginta[10], a palavra hebraica para “aliança” em Jr 38.31 foram traduzida por diathéke, que originalmente significava ordenação, dispensação, e economia de salvação. Em latim, por sua vez, a palavra grega foi traduzida por testamentum. Essa palavra latina não significava a ultima vontade e testamento da pessoa ao morrer, mas era portadora da força do sentido grego. Dessa maneira indiretamente, “AT” e “NT” tornaram-se a designação das duas partes do Cânon Bíblico.

4. Jesus Cristo tema do Novo Testamento
No Antigo Testamento uma tumultuada sequência de acontecimentos que cobrem um milhar de anos de história, desde o êxodo de Israel do Egito, passando por seus altos e baixos, até a perda de seu próprio Estado independente e a reconstituição da nação judaica depois do exílio.[11]
O tema do Novo Testamento parece espantosamente simplificado. Pode ser reduzido a um só nome, Jesus Cristo.
Todos os personagens que cruzam as páginas do Novo Testamento são importantes somente enquanto aparece à luz ou à sombra de Jesus. Os cristãos das origens não se interessavam pela mera sequência de fatos históricos nem por descrições dos fatos do próprio Jesus. O seu interesse por Jesus e sua história era realmente um interesse por um acontecimento entre Deus e o mundo, do sentido definitivo e salvífico que nele transparecia.

5. Divisão do Novo Testamento
Os escritos como se acham em nossas bíblias podem dividir-se em três grupos:
Livros históricos (os Evangelhos e Atos) = história passada que é a base da fé.
Livros didáticos (as epístolas) = sistema de doutrina cristã válida para todos os tempos.
Livro profético (Apocalipse) = um quadro do futuro e do fim do mundo.
Mas um estudo mais preciso haverá de mostrar que essa divisão simplificada de tempo em três períodos é insustentável. Porque todos os escritos do Novo Testamento refere-se retrospectivamente na fé ao evento de Cristo, bem como todos eles, ainda que de diversas maneiras, referem-se tanto ao presente como ao futuro.[12]

Conclusão
Que é o Novo Testamento? Ele é o documento original da fé cristã, não no sentido em que o historiador entende este termo. O Novo Testamento é um documento “histórico”, não em sentido arquivístico, mas somente no sentido de ser a proclamação primeira, o apelo original e fundamental à fé. O Novo Testamento expressa as muitas e variadas maneiras e efeitos da fé cristã das origens,[13] de tal modo que envolve o leitor na contínua luta entre fé e conhecimento, na batalha pessoal entre verdade e o erro.   

Bibliografia
BORNKAMM, Günther. Bíblia Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 2003.
BULTMANN, Rudolf. Teologia do Novo Testamento, trad. Ilson Kayser. São Paulo: Teológica, 2004.
KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. Trad. João Paixão, Isabel Fontes Leal Ferreira. 17 ed. São Paulo: Paulinas, 1982.

 David Rubens
Pindamonhangaba-SP






[1] O Cânone Bíblico designa o inventário ou lista de escritos ou livros considerados pelo cristianismo como tendo evidências de Inspiração Divina. Cânone, em hebraico é qenéh e no grego kanóni, têm o significado de “régua” ou “cana [de medir]”, no sentido de um catálogo. A formação do cânone bíblico se deu gradualmente.
[2] Ainda existem algumas dessa outra literatura; algumas em fragmentos e muito dela se perdeu totalmente.
[3] Marcião de Sínope  (85 - 160 d.C). Hipólito relata que Marcião era filho de um bispo na cidade de Sinope, na província romana do Ponto (atualmente na Turquia). Seu contemporâneo Tertuliano o descreve como um proprietário de barcos. Marcião provavelmente foi consagrado bispo, provavelmente um assistente ou um sufragâneo de seu pai em Sinope. Marcião é às vezes chamado de o filósofo do Gnosticismo. Em alguns aspectos essenciais, ele propôs ideias que se alinham bem com o pensamento gnóstico. Assim como eles, Marcião argumentava que Jesus era essencialmente um espírito aparecendo aos homens e não totalmente humano.
[4] Um dogmatismo rígido, baseado em uma interpretação crua de Paulo.
[5] KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. Trad. João Paixão, Isabel Fontes Leal Ferreira. 17 ed. São Paulo: Paulinas, 1982. p. 633.
[6] Adolf von Harnack (1851-1930) foi um teólogo alemão, além de historiador do cristianismo.
[7] KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. Trad. João Paixão, Isabel Fontes Leal Ferreira. 17 ed. São Paulo: Paulinas, 1982. p. 642.
[8] BORNKAMM, Günther. Bíblia Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 2003. p. 13.
[9] Lei e Evangelho.
[10] Septuaginta é o nome da versão da Bíblia hebraica para o grego koiné, traduzida em etapas entre o terceiro e o primeiro século a.C. em Alexandria. Dentre outras tantas, é a mais antiga tradução da bíblia hebraica para o grego, língua franca do Mediterrâneo oriental pelo tempo de Alexandre, o Grande. A tradução ficou conhecida como a Versão dos Setenta (ou Septuaginta, palavra latina que significa setenta, ou ainda LXX), pois setenta e dois rabinos trabalharam nela e, segundo a história, teriam completado a tradução em setenta e dois dias.
[11] BORNKAMM, Günther. Bíblia Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 2003. p. 14.
[12] Ibidem, p. 15.
[13] É errôneo minimizar as diferenças e contradições.


287 - Profeta Jonas: O Perdão de Deus Acima da Vontade Humana


Introdução                                                                                   
O livro de Jonas, o motivo da narração é o fato de um homem ter sido engolido por um peixe enorme, o qual, depois de três dias, o vomitou em terra permitindo-lhe continuar vivendo. Do ponto de vista literário e etnológico, a narração de Jonas se inscreve entre os mitos de deglutição.
O peixe que engole simboliza o poder da morte; a sua garganta corresponde às fauces da morte, que traga todo vivente; o seu estômago é símbolo do reino dos mortos onde o homem experimenta a ira de Deus. O grande peixe é a expressão imaginaria da monstruosidade de tal experiência. O vômito simboliza o renascimento para a vida.

1  O Mundo da Narrativa de Jonas
O mundo da narração de Jonas é vasto e múltiplo. O horizonte se estende do antigo porto fenício de Jope a Társis, na Cilícia, que para os israelitas daquele tempo eram as extremidades do mundo, que se estendia na direção oposta até a maior potência do tempo, a cidade de Nínive, que, na narração simboliza os poderes inimigos de Deus.

2  Quem é o Personagem
Há uma questão que permanece aberta: como pode o profeta “Jonas, filho de Amitai”, mencionado em 2Reis 14.25, vir a ser o protagonista do livro? Ligar o profeta Jonas à descrição de uma viagem a Nínive não tem base em fatos históricos. De fato, no tempo em que viveu o profeta Jonas (2RS 14.25), sob Jeroboão II (782-753 a.C.), “Nínive não era a residência dos reis assírios e nem se poderia dizer que fosse uma metrópole”.[1]
Pode-se representa do modo seguinte a formação da narração bíblica: uma saga, surgida na cidade de Jope ou nas vizinhanças, se infiltrou nas tradições dos gregos e dos hebreus. Em Israel esta história se prende ao nome do profeta Jonas, mencionado em 2Reis 14.25.

3  A Intenção do Livro
O que surpreende no livro é a crítica explícita de uma mentalidade estreita que excluía os pagãos da salvação.
A narração nos apresenta o profeta Jonas como um homem que pertence ao povo que serve ao único Deus verdadeiro. Mas ela chega a uma situação trágica: Jonas foge de Deus pelo mesmo motivo que Israel usa há muito tempo para honrá-lo: “Sois um Deus benigno e clemente, longânime e rico em misericórdia, e que desiste facilmente do mal ameaçado” (Jn 4.2). Por saber de tudo isso, Jonas foge. Para ele “os pagãos não deveriam ter possibilidade de conversão, mas deveriam permanecer expostos ao castigo divino”.[2]
Apesar da oposição humana, Deus mostra que dá o seu perdão a quem quer que se converta do seu mau caminho.
Jonas que desejaria excluir os pagãos da misericórdia de Deus, está errado: o Deus de Israel é o Senhor da vida e da morte de todos os homens, e não quer a punição mas a conversão dos pecadores. O perdão de Deus está acima de todo o cálculo e da vontade humana.

4  Período da Narração
Tudo nos leva a crer que esta narração se trata de uma obra pós-exílica. Tanto a linguagem como o estilo são claramente posteriores à época clássica da língua hebraica. O estilo faz pensar que se trata de uma espécie de panfleto dirigido à corrente judaica da época de Esdras.

Conclusão
O Deus de Israel rejeita tanto o pecado dos pagãos quanto o exclusivismo nacionalista do hebreu, que subentende a eleição de Israel como condenação para os outros povos. “Com o símbolo do peixe, da deglutição e do vômito, a narração proclama que é somente renascendo que o homem pode abrir os olhos para reconhecer o Deus de Israel e o seu desejo de perdoar”.[3]            

Bibliografia
SHREINER, Josef. Palavras e Mensagens do Antigo Testamento. São Paulo: Teológica; Paulus, 2004.
WOLFF, Hans Walter. A Bíblia Antigo Testamento: introdução aos escritos e aos métodos de estudo. São Paulo: Teológica; Paulus, 2003.


David Rubens de Souza
Pindamonhangaba-SP







[1] LORETZ, Oswald. Romance e Novela em Israel: Palavras e Mensagens do Antigo Testamento. São Paulo: Teológica; Paulus, 2004. p. 375.
[2] WOLFF, Hans Walter. A Bíblia Antigo Testamento: introdução aos escritos e aos métodos de estudo. São Paulo: Teológica; Paulus, 2003. p. 142.
[3] LORETZ, Oswald. Romance e Novela em Israel: Palavras e Mensagens do Antigo Testamento. São Paulo: Teológica; Paulus, 2004. p. 376.


286 - Profetas do Antigo Testamento: Homens de Yahweh, Homens do Povo

 


Introdução

Toda palavra contida na Escritura, seja anúncio ou narração, exortação ou mandamento, oração ou reflexão sapiencial, faz referência a alguns acontecimentos nos quais Deus interveio para outorgar a salvação aos seres humanos. Segundo W. Panennberg, “Deus se revelou através da história”. Os profetas tiveram uma relação estreita com Yahweh, Deus de Israel, através deles, Deus transmitiu ao povo seus juízos e promessas.  

1  Os Profetas e a História
1.1 Os profetas, testemunhos da história.
Os livros proféticos são um reflexo da época em que foram escritos e das circunstâncias que rodearam o profeta.[1] Os profetas estavam bem informados sobre a política do seu tempo, mas não adotaram posturas utópicas. Simplesmente consideraram as instituições políticas do seu povo e as das nações estrangeiras como instrumentos nas mãos de Yahweh para levar adiante seu plano.
Ø     A atividade do profeta está acima das encruzilhadas políticas. Mas até que ponto a atividade de cada profeta influenciou as decisões concretas dos reis.
-                        Intervenção de Isaías na guerra Siro-efraimita.
-                        Influência de Jeremias na crise que a invasão babilônica provocou nos deportados e nos que ficaram em Jerusalém.
Os profetas eram bons conhecedores dos acontecimentos da sua época.
1.2 Os profetas, intérpretes da história.
Os profetas não se limitam a testemunhar os acontecimentos dos quais são protagonistas, mas aprofundam o seu sentido. Nas palavras de José Luis Sicre: “eles fincam pé na força da Palavra de Deus como criadora da história (Is 55.10-15)”.[2]
A interpretação da história nos profetas baseia-se em três idéias fundamentais: o monoteísmo, a eleição do povo e a missão específica entre as nações.[3]
a)                     Monoteísmo: visto haver um só Deus, é ele o autor da história. Não tem nenhum sucesso quem escapa ao seu controle. A Ele deve ser atribuído tanto os benefícios quanto as desgraças. Quando Israel passa os seus piores momentos e tende a buscar apoio em outros povos ou deuses, surge um profeta que o confirma na verdade: Am 5.5-6. Assíria, Babilônia ou Egito são as potências opressoras: são nações idólatras. Quando estas nações triunfam em seus projetos, seria possível entender que os deuses, protetores destas nações, estavam triunfando sobre o Senhor. O ensinamento profético não admite dúvida: Deus mesmo é quem anima estas nações que se encarregarão de afligir a Israel o castigo merecido: Am 6.14.
Jeremias apresenta Babilônia como instrumento nas mãos de Yahweh (Jr 5.15; Is 5.26). O segundo Isaías interpretará o surgimento e o crescimento da Pérsia como uma intervenção benéfica de Yahweh (Is 45.1-3).[4]
B)                    Eleição: ao surgirem as nações, Yahweh quis escolher com predileção o povo de Israel. Porém, ao fazê-lo, não o arrancou de entre os outros povos, mas o levou a viver entre eles. Mas ainda, já que a eleição por si só não equivale a privilégios ou falsas seguranças (Am 9.7). O povo de Israel deve ter consciência de que não é o maior (Am 7.2-5), nem o mais rico (Am 6.2), nem o mais poderoso (Am 2.9).
Jeremias 2.1-7
Ezequiel 16.23
Isaías 50.1; 54.5
A eleição serve de base para a exigência da responsabilidade de Israel (Am 3.1-2: 1- Ouvi esta palavra que o Senhor fala contra vós, filhos de Israel, contra toda a geração que fiz subir da terra do Egito, dizendo: 2- De todas as famílias da terra a vós somente conheci; portanto, todas as vossas injustiças visitarei sobre vós: 3- Andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?). “Yahweh castiga o seu povo não em uma explosão de ira, mas de misericórdia: não pode aniquilá-lo, nem pode deixar impune o rompimento da aliança”. O senhor não busca a ruína do povo mas a sua conversão.
C)                    Missão: a missão consiste em tornar as gentes participes das bênçãos e dos benefícios recebidos de Yahweh (Is 2.3-4 e Mq 4.2: E irão muitas nações, e dirão: Vinde, e subamos ao monte do Senhor, e à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos, e nós andemos pelas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e a palavra do Senhor de Jerusalém.). O segundo Isaías conta a íntima relação Deus-povo com uma linguagem intima e afetiva: Isaías 41.8-10.
A história é o marco no qual nasce e se desenvolve a profecia. Os profetas despertam a esperança dos seus ouvintes entre oráculos de condenação e salvação, proclamados na perspectiva dos acontecimentos históricos que eles são chamados a viver.     

2  Os Profetas: Perturbadores
As profecias vêm sendo interpretadas pela teologia cristã pelo ângulo do seu cumprimento no Cristo. Tal idéia despreza por completo, a função dos profetas, que antes de tudo, pretendiam anunciar o juízo sobre Israel.
 Diz Claus Westermann[5], que os profetas combateram a apostasia sempre iminente no povo; eles exortaram ao povo a se manter fiel à Yahweh, advertiram e ameaçaram com castigo, ao mesmo tempo que proclamaram a salvação ao resto que sobrasse do cataclisma.
a)                     Porta-voz: os profetas eram porta-vozes da mensagem divina. Com suas pregações incômodas deram em cheio contra a infidelidade do povo. A oposição causava sofrimento e perseguições. Os profetas gemiam ante a inutilidade de seus trabalhos e empenhos (Is 49.4: Mas eu disse: Debalde tenho trabalhado, inútil e vãmente gastei as minhas forças; todavia o meu direito está perante o Senhor, e o meu galardão perante o meu Deus).
b)                     A mensagem: os profetas censuravam todas as áreas da vida do povo, mas principalmente as violações dos mandamentos capazes de trazer riscos a existência da nação.[6]

Os casos concretos variam de profeta para profeta, de situação para situação:
Ø     Isaías: acusação de cunho político.
Ø     Jeremias: desaprova a autonomia nas decisões políticas sem consultas prévias da vontade de Deus.
Ø     Oséias: ataca os reis e os chefões. Segundo Claus Westermann: “jamais um profeta organizava a oposição contra um rei. Limitavam-se a falar e a padecer as conseqüências”.[7]
Ø     Amós e Miquéias: atacam os abusos sociais, estendidos até o campo econômico e cultural.
Ø     Os profetas denunciam ainda a vida luxuosa, constratando ostensivamente com a miséria dos indigentes, das viúvas e dos órfãos, ao passo que fora vontade de Deus que todos possuíssem a mesma participação no território da terra prometida.
c)                     Campo religioso: a acusação mais apaixonada dos profetas é no campo religioso, porquanto o culto divino ocupava o lugar central no coração do povo. Um profeta falar em nome de Deus, contra o culto divino, é comovedor; mas eles falaram seriamente, e só alguns poucos entenderam e acolheram a pregação profética:
.  Ofertaram os sacrifícios com mãos manchadas de sangue! (Is 1.10-17; Am 2.8);
.  Culto hipócrita (Jr 7.1-15; Is 66.1-2);
.  Repreensão aos sacerdotes (Jr 2.8);
.  Luta contra os falsos profetas (Jr 28).
Cabia aos profetas legítimos condenar qualquer desvio das profecias autenticamente esperançosas.
Os profetas pregavam no tempo presente, tinham ante os olhos as desordens presentes, que atraiam a ira de Yahweh, de modo que o castigo futuro era a conseqüência lógica da transgressão presente.[8] O interesse do profeta estava voltado também para o passado, evocando tudo o que já acontecera entre Deus e o seu povo (Is 5.1-7).

3 Profeta Autêntico e Profeta Falso
3.1                     Profeta autêntico.
a)                     Jamais tiveram eles a iniciativa de um contato com Yahweh; foi ele quem os surpreendeu, sem a interferência da vontade dos profetas. Amós descreve-o dizendo: “o leão ruge: quem não termerá? O Senhor Yahweh fala: quem não profetizará?” (Am 3.3-8).
b)                     Eles se tornam instrumento de Yahweh não em um momento de êxtase, mas em plena consciência; ouviram, observaram e responderam. Isaías ouviu uma voz que perguntava: “A quem enviarei? Quem será meu mensageiro?” E numa livre decisão ele respondeu: “Eis-me aqui; envia-me! (Is 6.8-9).
c)                     Alguém que Deus surpreende, ele reluta (Jr 1.6-7), se apavora (Am 3.8), Ezequiel se sente agarrado pela sua mão. O profeta é surpreendido e subjugado; de modo que dizer, teve que ser profeta.[9] É enviado a rebeldes e obstinados (Ez 2.3: E disse-me: Filho do homem eu te envio aos filhos de Israel, às nações rebeldes que se rebelaram contra mim; eles e seus pais prevaricaram contra mim, até este mesmo dia). Sua mensagem leva a solidão (Jr 15.17: Nunca me assentei no congresso dos zombadores, nem me regozijei; por causa da tua mão me assentei solitário, pois me encheste de indignação) e á perseguição (Am 7.10; Jr 20.10). Cada um dependia da Palavra de Yahweh, que os chamava continuamente à ação (Jr 15.19-21) e da força de Yahweh, que os impelia sem cessar (Mq 3.8).[10]
d)                     O profeta enquanto “escolhido”, “santificado” e consequentemente “separado” (Jr 1.5), esta em uma relação estreita com Yahweh, Deus de Israel, que se torna assim o “seu” Deus. De sua parte o profeta se torna sujeito de dois títulos específicos: “Homem de Deus”[11] e “Servo de Deus”.
e)                     O profeta está colocado como mediador entre Yahweh e Israel: “Ele ama a ambos e a ambos pertence”.[12]
f)                      O profeta vislumbra as coisas vindouras não somente através de palavra articulada, mas também através de toda sorte de atos simbóliocos, por vezes extremamente estranhos[13] (Is 8. 1-4; 20.11; Jr 19.1).

3.2                     Falso profeta
Sobre os falsos profetas sedutores diz Miquéias (Mq 3.5: Assim diz o Senhor contra os profetas que fazem errar o meu povo, que mordem com os seus dentes, e clamam: Paz! mas contra aquele que nada lhes mete na boca preparam guerra).
Jeremias caracteriza os falsos profetas dizendo (Jr 23.14: Mas nos profetas de Jerusalém vejo uma coisa horrenda: cometem adultérios, e andam com falsidade, e esforçam as mãos dos malfeitores, para que não se convertam da sua maldade; eles têm-se tornado para mim como Sodoma, e os moradores dela como Gomorra).
Apenas um profeta verdadeiro tem capacidade para desmascarar o falso.

Conclusão
O verdadeiro profeta pode sofrer insucessos nas mãos do falso, mas confia na Palavra do seu Deus, palavra que lhe dá nova autoridade (Jr 28.11: E falou Hananias aos olhos de todo o povo, dizendo: Assim diz o Senhor: Assim quebrarei o jugo de Nabucodonozor, rei de Babilônia, depois de passados dois anos completos, de sobre o pescoço de todas as nações. E Jeremias, o profeta, se foi seu caminho), coisa que jamais poderá fazer sozinho; pode às vezes esperar em desespero por dez dias, mas ele acaba por fazê-lo (Jr 42.7: E sucedeu que ao fim de dez dias veio a palavra do Senhor a Jeremias; Is 8.17: E esperarei ao Senhor, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei).

Bibliografia
RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento. 2. ed. São Paulo: Aste; Targumim, 2006. p. 530.
SICRE, Luis José. org. Os profetas. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 2007.
SHREINER, Josef. Palavra e Mensagem do Antigo Testamento. São Paulo: Teológica, 2004.
WESTERMANN, Claus. Fundamentos da Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Academia Cristã, 2005.
WILSON, Robert R. Profecia e Sociedade no Antigo Israel. 2. ed. São Paulo: Targumim; Paulus, 2006.
WOLFF, Hans Walter. Bíblia Antigo Testamento. São Paulo: Teológica, 2003.


David Rubens
Pindamonhangaba-SP




[1] SICRE, Luis José. org. Os profetas. 2. ed. São Paulo. Paulinas: 2007. p. 64.
[2] Ibidem, p. 67.
[3] SICRE, Luis José. org. Os profetas. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 2007. p. 67.
[4] Ibidem, p. 68.
[5] WESTERMANN, Claus. Fundamentos da Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Academia Cristã, 2005. p. 239.
[6] Ibidem, p. 147.
[7] Ibidem, p. 151.
[8] WESTERMANN, Claus. Fundamentos da Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Academia Cristã, 2005. p. 148.
[9] SHREINER, Josef. Palavra e Mensagem do Antigo Testamento. São Paulo: Teológica, 2004. p. 176.
[10] WOLFF, Hans Walter. Bíblia Antigo Testamento. São Paulo: Teológica, 2003. p. 79.
[11] O homem de Deus entendido no sentido de servo de Deus. É sinônimo de profeta, sendo ambos os títulos aplicados às vezes ao mesmo indivíduo (1Sm 3.20; 9.6,7,8), a área geográfica determinava o uso do titulo. WILSON, Robert R. Profecia e Sociedade no Antigo Israel. 2. ed. São Paulo: Targumim; Paulus, 2006. p. 174.
[12] SHREINER, Josef. Palavra e Mensagem do Antigo Testamento. São Paulo: Teológica, 2004. p. 177.
[13] RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento. 2. ed. São Paulo: Aste; Targumim, 2006. p. 530.


sábado, 7 de novembro de 2015

285 - Mudanças ambientais podem explicar o surgimento do povo israelita, Israel Finkelstein. Jornal Folha de S.Paulo.




Amostras de pólen obtidas no leito do mar da Galileia e do mar Morto podem ser a pista que faltava para explicar como surgiu o povo israelita, cuja religião deu origem ao judaísmo e ao cristianismo.
Segundo pesquisadores israelenses, os dados sugerem que, a partir de 1250 a.C., várias ondas prolongadas de seca devastaram a Terra Santa ao longo de um século e meio, fazendo com que bandos de refugiados fundassem novas comunidades na zona montanhosa da região. Esses novos vilarejos acabariam levando à formação dos antigos reinos de Israel e Judá.
Um dos que propõem essa tese é o arqueólogo Israel Finkelstein, da Universidade de Tel Aviv. O trabalho dele tem ajudado a repensar a relação entre os relatos da Bíblia, de um lado, e os dados históricos e arqueológicos, de outro.
Finkelstein conversou com a Folha durante sua visita ao Brasil na primeira semana de outubro, quando participou de conferências organizadas pela Universidade Metodista de São Paulo e pela Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica.

RESOLUÇÃO
"O grande diferencial desse nosso novo trabalho é a resolução", explica o arqueólogo. "Normalmente as amostras possuem uma resolução de uns 200 anos por camada. Nós conseguimos obter dados detalhados que se referem apenas à transição entre a Idade do Bronze e a Idade do Ferro [grosso modo, entre 1300 a.C. e 1000 a.C.], com resolução de 25 anos a 40 anos."
São dados, portanto, que funcionam como uma espécie de cápsula do tempo. Conforme o pólen ia sendo depositado no fundo do mar da Galileia e do mar Morto, numa ordem que vai do mais antigo ao mais recente, ele passou a formar um registro das mudanças ambientais pelas quais o Oriente Médio estava passando ao longo das décadas.
A análise do pólen permite determinar tanto o tipo quanto a quantidade de vegetação que existia no entorno desses corpos d'água (apesar do apelido de "mar", eles não passam de grandes lagos). E foi assim que Finkelstein e seus colegas arqueobotânicos (que estudam as plantas do passado) acharam indícios de secas prolongadas numa região que já não é célebre pela abundância de água. Uma palavra resume as consequências das ondas de secura: caos.
Como os arqueólogos já sabiam, entre 1250 a.C. e 1100 a.C. os grandes impérios do Mediterrâneo na Idade do Bronze entram em colapso. Deixam de existir o Império Hitita, na atual Turquia, os reinos micênicos, na atual Grécia, e até o poderoso Egito mal consegue escapar.
Antes da catástrofe, os faraós dominavam todo o atual território israelense, palestino e libanês, além de vastas áreas da Síria e da Jordânia modernas.
Tudo indica que as alterações climáticas geraram tanto rebeliões internas (muito provavelmente ligadas às colheitas que não estavam vingando) quanto estimularam o ataque de tribos bárbaras (e famintas) às cidades do Oriente Médio.
"A ideia é que isso desestabilizou totalmente tanto as populações que viviam em áreas de estepe, a leste do rio Jordão, quanto muitos dos moradores das cidades-Estado do litoral", conta Finkelstein. De quebra, algumas dessas cidades estavam sendo atacadas e destruídas por invasores, como os filisteus.
A região montanhosa no centro da Terra Santa, hoje correspondente, grosso modo, à Cisjordânia, era o lugar ideal para fugir do caos e da fome porque era uma área pouco povoada na época, além de relativamente fértil e não tão seca quanto outras áreas da vizinhança.
De fato, nas fases finais do colapso dos impérios da Idade do Bronze, é ali que começam a pipocar centenas de vilarejos rurais, com localizações associadas ao que seria, segundo a Bíblia, o território original das tribos israelitas.
Segundo esse cenário, hoje aceito pela maioria dos arqueólogos, o povo de Israel teria surgido dentro da própria Terra Santa (ou Canaã, como era conhecida na Antiguidade), como uma espécie de dissidência dos moradores originais da região, os cananeus.
Argumentos em favor dessa ideia são o fato de que os artefatos dos primeiros vilarejos da região montanhosa são quase idênticos aos dos cananeus que viveram antes ali, além do detalhe de que o hebraico é um dialeto cananeu, muito próximo do fenício (que era falado no atual Líbano).
Ou seja, tanto o êxodo liderado por Moisés quanto a conquista de Canaã liderada por Josué seriam quase totalmente lendários.

CADÊ O SALOMÃO?
Finkelstein também defendeu outra de suas ideias polêmicas que tem ganhado cada vez mais aceitação entre os pesquisadores: a de que as narrativas sobre um glorioso "Reino Unido" israelita, governado inicialmente por David e depois por seu filho Salomão, também é lendária.
O arqueólogo diz que David e Salomão provavelmente são personagens reais, mas que seus feitos foram muito exagerados por seus descendentes como forma de fortalecer os interesses políticos da monarquia de Jerusalém.
"Certamente havia um pequeno núcleo urbano em Jerusalém na época deles [entre 1000 a.C. e 930 a.C.], mas os dois não passavam de chefes militares tribais", argumenta o pesquisador.
Os críticos do trabalho do pesquisador afirmam que ele ignora dados que indicariam a presença de um Estado centralizado na antiga capital de Judá durante a era salomônica.
"O problema de Jerusalém, na minha opinião, é que o núcleo mais antigo da cidade não está na chamada Cidade de David, onde as pessoas conseguem escavar hoje, mas na região do Templo, hoje ocupada pelo Domo da Rocha", diz Finkelstein.
Como se trata de uma das áreas mais sagradas do islamismo, é improvável que os arqueólogos recebam permissão para escavar lá algum dia, afirma ele. 

















Tradução: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. parte do artigo 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos.