domingo, 2 de abril de 2017

377 - Livro O Deus Crucificado de Jürgen Moltmann com o Sangue do Padre Juan Ramón Moreno, 1989.



O que mais profundamente me vincula com teólogos da libertação latino-americanos é um acontecimento providencial surpreendente: no dia 16 de novembro de 1989, foram assassinados na universidade de San Salvador seis jesuítas e duas mulheres, para fazer calar a voz corajosa de Ignacio Ellacuría. O corpo do padre Juan Ramón Moreno foi arrastado pelos soldados para dentro do quarto de Jon Sobrino que não estava presente no local. No seu sangue, foi encontrado um livro caído. Tratava-se de O Deus Crucificado. Ele está agora exposto ali sob o vidro como interpretação simbólica do martírio dos irmãos e das irmãs. Em 1994, fiz minha peregrinação a esse local.



Lembro que os olhos de Moltmann encheram de lágrimas ao contar esta história.



sábado, 1 de abril de 2017

376 - A CENTRALIDADE DA MORTE DE CRISTO NA MENSAGEM DE PAULO. David Rubens de Souza



Introdução
A morte de Cristo,[1] frequentemente mencionada em conjunto com sua ressurreição, ocupa o centro da imagem paulina do evangelho. Paulo conhece, utiliza e desenvolve seu significado redentor por meio da fé. Ele estava familiarizado com o relato da morte de Cristo, lembra aos leitores a narrativa do sofrimento e da morte de Jesus; e desenvolve a importância da paixão de Cristo em contextos relacionados com todos os aspectos de sua mensagem apostólica, em especial sua soteriologia, sua cristologia, sua escatologia e sua ética. Paulo atribui um significado reparador ao sofrimento e à morte de Cristo.

1. A Cruz de Cristo na Mensagem de Paulo
Segundo Paulo, a cruz de Cristo era essencial para a reflexão, em especial como o meio pelo qual Deus planeja a salvação e como o instrumento para a construção da vida nova em Cristo.[2]
Cerca de 25 anos depois da crucifixão de Jesus, Paulo escreve a respeito do escândalo e da loucura significantes da cruz (1Cor 1.18.23: Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus).
Historicamente, a execução de Jesus em uma cruz incentivou o entendimento de sua morte como a de um criminoso comum, humilhado entre seu povo, na verdade, até amaldiçoado por Deus (Dt 21.22-23: Quando também em alguém houver pecado, digno do juízo de morte, e for morto, e o pendurares num madeiro. O seu cadáver não permanecerá no madeiro, mas certamente o enterrarás no mesmo dia; porquanto o pendurado é maldito de Deus; assim não contaminarás a tua terra, que o Senhor teu Deus te dá em herança). Como este Jesus também era o “Ungido” (Messias)? Apesar desse problema, Paulo assegura que entre os coríntios ele resolveu “nada saber a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado” (1Cor 2.2).
Como teólogo da cruz, Paulo desempenhou um papel essencial no estudo do significado do Cristo crucificado. É evidente que Paulo apropriou-se da tradição cristã preexistente a respeito da paixão de Jesus e que esses materiais tradicionais foram incorporados em sua correspondência (1Cor 11.23-25;[3] 15.3-5[4]).
Na perspectiva paulina, a fraqueza apostólica encontrava seu significado à luz do sofrimento de Cristo. Assim, depois de lembrar aos coríntios que, entre eles, procurou só apresentar Cristo, e Cristo crucificado, Paulo continua para chamar-lhes a atenção para seu modo de vida enquanto está com eles: “Estive diante de vós fraco, receoso e todo trêmulo” (1Cor 2,3;[5] Cl 1,24[6]). Outra inspiração para a constante tradução paulina do sentido da cruz era a vida dele próprio e da Igreja em Cristo, vida que não desconhecia a fraqueza, a oposição e o sofrimento.
A importância da cruz para Paulo baseia-se, portanto, em seu encontro com o Senhor ressuscitado e nas exigências de seu ministério apostólico.

2 A Cruz e a Mensagem de Paulo
Como a centralidade da cruz se manifesta para Paulo?[7] Em 1Coríntios 1.18, “a linguagem da cruz” é praticamente sinônimo de “Evangelho”; em 2Coríntios 5.19,[8] ele emprega similarmente “a palavras de reconciliação” em um contexto no qual apresenta o evento salvífico: “E ele morreu por todos, a fim de que os vivos não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que morreu e ressuscitou por eles” (Fl 2.16: “palavra da vida”; At 13.26: “palavra de salvação”).
A leitura das cartas paulinas revelam duas expressões para o significado reparador da cruz:
Ø     A primeira apresenta a “entrega” de Jesus pela salvação da humanidade, como ato divino (Rm 4.25: “entregue por nossas faltas”; Rm 8.32: “que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por nós todos”) ou como entrega de si mesmo (Gl 1.4: “que se entregou por nossos pecados”; G1 2.20: “se entregou por mim”).
Ø     A segunda expressão, a “fórmula de morrer”, representada em 1 Coríntios 15,3: “Cristo morreu por nossos pecados” (Rm 5.6,8;[9] 14,9; 1Cor 8.11; 2Cor 5.14,15; G12,21; lTs 5.10). A frase paulina “Cristo morreu por nós” é a confissão mais frequente e mais importante das epístolas paulinas.

3 A História de Jesus
O entendimento que Paulo tem do “caminho da cruz” não é diferente do que encontramos no Evangelho de Marcos. Por último, 1Timóteo 6.13 alude ao julgamento de Jesus diante de Pôncio Pilatos de uma forma que pressupõe ao menos um conhecimento rudimentar do relato da paixão. Nesses e em outros textos, reconhecemos que a teologia paulina tem uma qualidade narrativa, isto é, ele entende a experiência cristã dentro da atividade divina, que vai da criação do povo de Deus à parusia e, dentro dessa narrativa maior, como seu assunto principal, está a narrativa da crucifixão de Jesus. Embora Paulo não demonstre interesse nos detalhes históricos da paixão de Jesus como dados históricos, ele estava a par deles e se preocupava com a importância que tinham para a fé e a vida cristãs.

4 Vida na Morte e Ressurreição de Jesus
A referência paulina à tradição da Última Ceia está colocada a fim de atacar o problema de divisões em Corinto (1Cor 11.17-34; 1Cor 1.10-17); aqui, um lembrete da entrega sacrifical que Jesus fez de si mesmo é a base para a exortação paulina a uma vida modelada na paixão de Jesus, de orientação diaconal e com a forma da cruz.
Em Corinto, como em Colossas, Paulo reflete sobre o sentido do Cristo crucificado, em grande parte para contradizer ideias dos adversários.
O apóstolo propõe a escandalosa cruz de Cristo como o “poder de Deus” “para os que estão sendo salvos, para nós”.[10] A comunidade deve ser orientada em torno do Cristo crucificado (1Cor 1.18-31).
Para os colossenses, Paulo apresenta o Cristo reconciliou, na vida e morte de Jesus de carne e sangue: “aprouve a Deus, tudo reconciliar por meio dele e para ele, tendo estabelecido a paz pelo sangue de sua cruz” (Cl 1.19-20; 1.14; 2.13-14; 3.13). Desse modo, Paulo se opõe a um estilo de vida voltado para uma espiritualização como que gnóstica. Paulo afirma com ardor a importância do comportamento ético neste mundo material
Em Filipenses 2.6-11, Paulo escreve um hino a Cristo. A vida de Jesus como obediente Filho de Deus ocupa a posição central, e essa obediência é vista mais profundamente em sua disposição de aceitar a rejeição, o sofrimento humano e a morte de cruz. Dessa forma, Paulo afirma que a morte de Cristo é a expressão mais completa de sua vida e estabelece para nós o modelo de uma vida de amor e obediência. Dessa maneira e de muitas outras, Paulo mostra como o pensamento e a vida dos cristãos se baseiam no evento fundamental da cruz de Cristo.

5 Os Benefícios da Morte de Cristo
A Paulo se preocupa muito mais em explicar o significado da morte de Cristo que com suas circunstâncias históricas, ele comunica esse significado acima de tudo em termos de seus benefícios para a humanidade.[11]
Em Gálatas 3.10-14, Paulo expõe o caráter salvífico da cruz de Cristo. Gálatas 3.1-14, afirma que a experiência que os gálatas tinham de receber o Espírito pela fé significava o cumprimento da promessa divina de abençoar os gentios por intermédio de Abraão e que a morte de Cristo possibilitou esse cumprimento.[12]
Os benefícios da morte de Cristo são apresentados em 3,10-14 por meio de uma combinação de imagens: Cristo é o representante de Israel e em sua morte a Aliança chega ao auge; justificação (G1 3.11); redenção (Gl 3.13); a promessa do Espírito (Gl 3.14); e o triunfo sobre os poderes.
Em Efésios 2.14-15, onde a lei surge como barreira que separa o judeu e o gentio; ali a morte de Cristo destrói esse “muro de separação”.[13]
No entanto, em Gálatas a lei caracteriza-se mais como força deste mundo que escravizam o povo judeu (G1 4.1,3). Em um contexto específico, então, Paulo insiste que a morte de Cristo triunfou não contestando a lei, mas demonstrando sua validade e efetuando a bênção da Aliança.
A mensagem da cruz em 2Coríntios e Gálatas formula duas questões: o significado apocalíptico da cruz, “nova criação”. Em 2Coríntios 5.17 e Gálatas 6.15, esses textos precisam ser entendidos como símbolos do papel da morte de Jesus no término da época antiga e na apresentação da nova.
No entendimento paulino da cruz, vemos a inclusão dos fiéis gentios no “Israel de Deus” (G1 6.16). Para Paulo, os fiéis, graças a sua inclusão na obra salvífica de Cristo, participam dos benefícios da nova criação e, assim, em sua identidade como povo de Deus. Paulo reconhece: “Com Cristo eu sou um crucificado; vivo, mas não sou mais eu, é Cristo que vive em mim” (Gl 2.19-20).

6 A Morte de Cristo e o Propósito de Deus
Para Paulo, a questão do sentido da cruz é primeiro uma questão a respeito de Deus e só depois uma questão de salvação para o ser humano. Sua teologia da cruz origina-se de seu entendimento do propósito divino e de Deus como ator principal no drama da salvação. Embora afirme que Cristo “se entregou por nossos pecados, a fim de nos arrancar deste mundo mal”, ele em seguida afirma que Cristo fez isso “de acordo com a vontade de Deus, que é nosso Pai” (G1 1.4). Isto é, a entrega que Cristo fez de si mesmo significa sua identificação e sua solidariedade com o propósito salvífico de Deus.
Contudo, na posição central está a iniciativa de Deus (“Deus que em Cristo reconciliava o mundo consigo”, 2Cor 5.19; “Deus enviou o seu próprio Filho”, Rm 8.3).[14]
A justiça de Deus manifesta-se em sua intervenção para trazer a salvação para uma humanidade mergulhada no pecado. E manifesta-se precisamente na revelação de Deus na cruz como alguém que cumpre suas promessas, que não faz vista grossa ao pecado, mas pela obediência fiel e morte sacrifical de Jesus Cristo redime todos os que crêem, sejam eles judeus ou gentios e, assim, que não introduz um meio de salvação que anula a lei, mas que realmente a confirma (Rm 3.31).[15] Paulo afirma que a justiça de Deus se revela em Cristo, não apenas como descrição de Deus em seu papel de juiz, mas também e até mais como a atividade de Deus voltada para fazer alianças e mantê-las; na morte de Cristo, a justiça de Deus se revela no fato de Deus libertar as pessoas do pecado.

7 O amor de Deus. Segundo Romanos 5.6-8
A morte de Cristo é a expressão definitiva do ilimitado amor de Deus: “Mas nisto Deus prova o seu amor para conosco: Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores” (Rm 5.8). Essa afirmação segue de perto a alegação de que a experiência humana do amor divino garante que a tribulação leva a uma esperança que não decepciona (Rm 5,3-5). Aqui há algumas declarações decisivas:
Ø Primeiro, não é possível medir o amor de Deus pela humanidade; dificilmente alguém se disporia a morrer por um justo (Rm 5.7), mas Cristo morreu em prol dos “ímpios” (Rm 5.6), pelos “pecadores” (Rm 5.8), pelos “inimigos de Deus” (Rm 5.10).[16]
Ø Segundo, os leitores de Paulo podem estar seguros de que seu sofrimento tem significado, porque o sofrimento de Cristo comprovou ser significativo. Por sua morte, “estamos justificados”, “salvos da cólera de Deus”, “reconciliados com Deus” (Rm 5.9-11).

Conclusão
Segundo Paulo, a morte e ressurreição de Cristo marca o início de uma nova época que se estende até a volta de Cristo. Isso muda fundamentalmente a maneira como entendemos a vida no presente. Primeiro, a percepção de que a morte e ressurreição de Cristo instituiu uma nova época permite-nos imaginar a vida nova em contraste com modos velhos de vida e acolher o poder de Deus necessário para a vida nova. Além disso, considerar o presente à luz do passado motiva os fiéis a ser gratos pela libertação da escravidão ao pecado.
Finalmente, o reconhecimento deste novo tempo incentiva os fiéis a reconhecer ainda mais que a cruz determina a vida no presente. Isso significa que um dos efeitos da cruz é tomar possível a restauração da humanidade, restaurada em seus relacionamentos com Deus, consigo mesma e com toda a criação.  A Igreja cuja teologia é formada pela mensagem da cruz precisa assumir ela mesma uma vida cruciforme, para que sua teologia tenha credibilidade. Isso significa que os fiéis devem adotar a forma de obediência a Deus representada na vida de Cristo, expressa, em última instância, em sua morte. Esse pensamento está por trás do hino a Cristo em Filipenses 2.6-11.
De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus,
6 Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus,
7 Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens;
8 E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.
9 Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome;
10 Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra,
11 E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.
Para Paulo, os fiéis manifestam a obediência a Cristo aqui e agora proclamando sua morte até que ele venha.

Bibliografia

BECKER, Jürgen. Apóstolo Paulo: Vida, Obra e Teologia. São Paulo: Academia Cristã, 2007.
BORNKAMM, Günther. Paulo: Vida e Obra. São Paulo: Academia Cristã, 2009.
CERFAUX, Lucien. Cristo na Teologia de Paulo. São Paulo: Teológica, 2003.
CONNOR, Jerome Murphy O. Paulo de Tarso: História de um Apóstolo. São Paulo: Paulus; Loyola, 2007.
DETTWILER, Andreas; KAESTLI, Jean-Daniel; MARGUERAT, Daniel. Paulo, uma teologia em construção. São Paulo: Loyola, 2011.
DUNN, James D. G. A nova perspectiva sobre Paulo. São Paulo: Academia Cristã, 2011.
HAWTHORNE, Gerald F; Martin, Ralph P; REID, Daniel G. Dicionário de Paulo e Suas Cartas. São Paulo: Loyola; Vida Nova; Paulus, 2008.
KÄSEMANN, Ernst. Perspectivas Paulinas. São Paulo: Teológica; Paulus, 2003.
SCHNELLE, Udo. Paulo: Vida e Pensamento. São Paulo: Academia Cristã; Paulus, 2010.







[1] O assunto aqui abordado é tratado com riqueza de detalhes na maravilhosa obra: HAWTHORNE, Gerald F; Martin, Ralph P; REID, Daniel G. Dicionário de Paulo e Suas Cartas. São Paulo: Loyola; Vida Nova; Paulus, 2008 p. 852.
[2] BORNKAMM, Günther. Paulo: Vida e Obra. São Paulo: Academia Cristã, 2009. p. 188.
[3] 1Cor 11.23-25: Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim.
[4] 15.3-5: Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras. E que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E que foi visto por Cefas, e depois pelos doze
[5] E eu estive convosco em fraqueza, e em temor, e em grande tremor.
[6] Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a igreja.
[7] DETTWILER, Andreas; KAESTLI, Jean-Daniel; MARGUERAT, Daniel. Paulo, uma teologia em construção. São Paulo: Loyola, 2011. p. 321.
[8] Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação.
Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Porque apenas alguém morrerá por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém ouse morrer. Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.

CERFAUX, Lucien. Cristo na Teologia de Paulo. São Paulo: Teológica, 2003. p. 90.
[11] A morte e a ressurreição de Jesus que como evento salvífico, leia: SCHNELLE, Udo. Paulo: Vida e Pensamento. São Paulo: Academia Cristã; Paulus, 2010. p. 562.
[12] DUNN, James D. G. A nova perspectiva sobre Paulo. São Paulo: Academia Cristã, 2011 .p 289.
[13] Leia mais em: BORNKAMM, Günther. Paulo: Vida e Obra. São Paulo: Academia Cristã, 2009. p. 234.
[14] Para entender o contexto de Romanos 8, leia a belíssima obra: KÄSEMANN, Ernst. Perspectivas Paulinas. São Paulo: Teológica; Paulus, 2003. p. 199.
[15] CONNOR, Jerome Murphy O. Paulo de Tarso: História de um Apóstolo. São Paulo: Paulus; Loyola, 2007.
[16] Leia mais em: BECKER, Jürgen. Apóstolo Paulo: Vida, Obra e Teologia. São Paulo: Academia Cristã, 2007. 

quinta-feira, 23 de março de 2017

375 - COMO LER A BÍBLIA E AINDA SER UM CRISTÃO: Lutando com a Violência Divina do Gênesis ao Apocalipse. John Dominic Crossan



O livro foi lançamento nos Estados Unidos em 2015, Dominic Crossan é um autor bastante conhecido do leitor brasileiro, inclusive deu uma série de palestra sobre o Jesus Histórico no Brasil em 2007, o livro que estou apresentando não tem previsão de ser publicado no Brasil. 


Miquéias 4: 3. E julgará entre muitos povos, e castigará nações poderosas e longínquas, e converterão as suas espadas em pás, e as suas lanças em foices; uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra.
Joel 3:10. Forjai espadas das vossas enxadas, e lanças das vossas foices; diga o fraco: Eu sou forte.

Resumo
O assunto é a Bíblia cristã, isto é, o Antigo Testamento e o Novo Testamento como uma história contínua de Gênesis 1:1 a Apocalipse 22:21. Estas são suas questões constitutivas: a questão da unidade da Bíblia cristã, e a teologia da Bíblia cristã como um todo.
Para começar, essa teologia em geral não é enfaticamente uma mudança do Deus da lei, da vingança e do castigo no Antigo Testamento para o Deus da graça, do amor e do perdão no Novo Testamento. Isso só é persuasivo se você nunca leu a Bíblia cristã - até a conclusão dela no livro do Apocalipse, que é provavelmente o texto mais violento nas escrituras canônicas de todas as grandes religiões do mundo. 
Você pode ler toda a Bíblia de um lado para o outro e elaborar duas listas contrastantes. Em uma dessas listas, Deus é um Deus de violência que comanda os seres humanos a agir violentamente. No outro, Deus é um Deus da não-violência que espera e ordena que os seres humanos ajam de forma não violenta.
Como essas duas visões devem ser reconciliadas teologicamente? Os cristãos imaginam um Deus de ambos, violência e não-violência. Uma vez que ambos os aspectos divinos estão certamente presentes em toda a Bíblia cristã, parece errado se concentrar em um sozinho - por exemplo, apenas o que é prometido por Isaías e Miquéias ou apenas o que é comandado por Joel na epígrafe acima.
Talvez, essa combinação de violência e não-violência pertence a Deus sozinho e os seres humanos devem deixar a violência a Deus? Mas os humanos são feitos à imagem de Deus, de modo que a violência divina deve gerar e vindicar a violência humana. Os cristãos dificilmente podem ser as pessoas não-violentas de um Deus violento? Qual é, então, a resposta da fé cristã a esse impasse na visão dobrada, ou mesmo contraditória, da Bíblia cristã de Deus?
Minha resposta vem da própria afirmação do cristianismo sobre a encarnação - isto é, que o Jesus histórico é a imagem e revelação de Deus, que Jesus é nossa visão mais próxima do caráter divino de Deus, que Jesus é o que Deus parece em sandálias. Há um propósito, apenas um Jesus - reconstruído pelos estudiosos como o “Jesus da História” e aceito pelos crentes como o “Cristo da Fé”. É a mesma pessoa que foi rejeitada por Pilatos como criminosa e aceita por Paulo como Cristo. Para os cristãos, então, essas questões de posse podem e devem ser reformuladas: Foi - e é - o Jesus da história, que é também o Cristo da fé (para os cristãos) violento, não-violento ou alguma mistura de ambos esses aspectos?
Em outras palavras, Jesus é a norma e critério da Bíblia cristã ou essa Bíblia é a norma e o critério de Jesus? Devemos ser chamados de “cristãos” ou “biblianos”? Deus amou tanto o mundo que nos enviou um Livro - ou uma Pessoa? Somos o povo do livro ou o povo com o livro? Dizemos “o que Jesus faria?” Ou, “o que a Bíblia diz?”.


Sumário

Parte I: Desafio
Capítulo 1
Encerramento: Um Hino a um Deus Selvagem?
Capítulo 2
Centrar: O significado no meio?

Parte II: Civilização
Capítulo 3
Consciência
Capítulo 4
Violência

Parte III
Capítulo 5
Criação e Pacto
Capítulo 6
Bênção e maldição
Capítulo 7
Profecia e oração
Capítulo 8
Sabedoria e Reino

Parte IV: Comunidade
Capítulo 9
Israel e o Desafio de Roma
Capítulo 10
Jesus e a radicalidade de Deus
Capítulo 11
Cristo e a normalidade da civilização
Capítulo 12
Roma e o desafio de César
Capítulo 13
Paulo e a radicalidade de Cristo
Capítulo 14
Paulo e a Normalidade do Império


Tradução: David Rubens de Souza



John Dominic Crossan

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

374 - Teologia em diálogo com a Literatura – Origem e tarefa poética da teologia. Alex Villas Boas


Obra interpreta de modo dinâmico a relação entre a representação artístico-literária e o horizonte teológico
A PAULUS lança a obra Teologia em diálogo com a literatura – Origem e tarefa poética da teologia, novo título da coleção Teologia em saída, escrito pelo professor e doutor em Teologia Alex Villas Boas.
Dividida em cinco capítulos, a obra propõe o diálogo entre teologia e literatura como uma forma de ajudar o indivíduo contemporâneo a dar sentido à vida, se conhecer melhor e conhecer o mundo em que está inserido.
De acordo com o autor, a literatura oferece, desde sempre, matéria-prima para a reflexão teológica, desde os clássicos greco-latinos até a atualidade, passando por séculos de produção literária. Contudo, essa reflexão ainda não alcançou a maturidade de um método que apresente uma relação fluida entre a arte literária e o trabalho teológico.
Neste contexto, o objetivo principal da obra é tratar da questão do sentido da vida como introdução da questão de Deus, ou, de modo mais amplo, a questão religiosa. Segundo Alex, tal questão esbarra no mistério da vida, que abarca tanto o seu absurdo quanto o seu excesso de sentido, dimensões que escapam a uma explicação lógica, e se insere dentro da tarefa de pensar uma teologia da cultura.
Paulus
480 p.

Alex Villas Boas é professor de Teologia no Programa de Pós-Graduação em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR); membro pesquisador do Centro de Estudos Literários, Fenômeno Religioso e Artes (CELTA) da Universidade Estadual de Campinas; vice-presidente da Associação Latino-Americana de Literatura e Teologia (ALALITE), membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião (SOTER); vice-líder do LERTE (Grupo de Pesquisa em Literatura, Religião e Teologia) da PUC-SP. Possui pós-doutorado em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma) e doutorado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2012).




Com o prof. Alex no congresso da ANPTECRE 2015.
Grupo de Pesquisa Literatura e Teologia.

373 - Campanha da Fraternidade 2017: Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida.





Lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2.15).

A Campanha da Fraternidade é marcada pelo empenho de todos em favor da solidariedade e fraternidade, sempre abordando temas atuais, que a cada ano propõe uma transformação social e comunitária, seja ela em desafios sociais, econômicos, culturais e até mesmo religiosos, onde toda a população envolvida na Campanha da Fraternidade é convidada a ver, julgar e agir.

A Campanha da Fraternidade sempre começa na quarta-feira de cinzas e acontece durante o ano todo. 

domingo, 26 de fevereiro de 2017

372 - Jürgen Moltmann: “Na Teologia da Esperança, usei as exegeses de Gerhard von Rad e Ernst Käsemann, que eu conhecia bem”.


Alguns opinaram criticamente que penso saber mais de Deus e do seu futuro do que humanamente se poderia saber. Recomendam-me guardar mais silêncio diante do mistério insondável, indizível e formular mais teologia negativa ao “dar pela falta de Deus” (J. B. Metz). Sou suficientemente místico para compreender o que eles estão querendo dizer. Todavia, justamente porque o mistério revelado do nome de Deus é insondável, nem se pode pretender saber o suficiente sobre ele. O Espírito investiga também as dimensões profundas da divindade.
Outros criticaram ironicamente o uso que faço da Bíblia como sendo um uso à la carte, embora ele não se diferencie em princípio do de Karl Barth ou do de Basílio Magno, a não ser quanto à limitação do meu conhecimento da Bíblia. Na Teologia da esperança (1964), ainda pude lançar mão das exegeses vétero e neotestamentárias de Gerhard von Rad e Ernst Kásemann, que eu conhecia bem. No entanto, em algum momento dos anos 1970, a discussão exegética e mais ainda a discussão hermenêutica tomaram dimensões impossíveis de serem abrangidas. Senti que elas haviam se tornado antes um empecilho para ouvir os textos bíblicos. Na Alemanha, a exegese histórica e a teológica tomaram rumos separados.


MOLTMANN, Jürgen. Experiência de reflexão teológica: caminhos e formas da teologia cristã. Vale do Rio dos Sinos, RS: Unisinos, 2004. p. 13.

371 - Jürgen Moltmann: “Mesmo sendo barthiano, igualmente resisti à tentação de encarar a Dogmática eclesial de Karl Barth como uma fortaleza”.




Há sistemas teológicos que não pretendem apenas estar livres de contradições internas, mas também ficar livres de interpelação externa. A teologia transforma-se, para eles, numa estratégia de auto-imunização. Tais sistemas são como fortalezas em que não se consegue penetrar, mas das quais tampouco se consegue escapar e que, por isso, são derrotadas à míngua pelo desinteresse público. Não alimento o desejo de viver numa fortaleza dessas, e, mesmo sendo barthiano, igualmente resisti à tentação de encarar a Dogmática eclesial de Karl Barth como uma fortaleza desse tipo. Ela não o é, mesmo que alguns barthianos deixem Karl Barth pensar por eles para se sentirem seguros, e outros o declarem como “neo-ortodoxo para não terem de lê-lo e se ocupar com ele. Minha imagem da teologia não é “Castelo forte é nosso Deus...”, mas o êxodo do povo de Deus no seu caminho para a terra prometida da liberdade, onde habita Deus. Para mim, a teologia não é uma dogmática intra-eclesial ou pós-moderna apenas para a própria comunidade de fé. Ela tampouco é, para mim, a ciência cultural da religião civil da sociedade burguesa. A teologia surge da paixão pelo Reino de Deus e sua justiça e está paixão surge da comunhão com Cristo.


MOLTMANN, Jürgen. Experiência de reflexão teológica: caminhos e formas da teologia cristã. Vale do Rio dos Sinos, RS: Unisinos, 2004. p. 12.

David Rubens

370 - Jürgen Moltmann: “Para mim, o acesso teológico à verdade do Deus triúno é dialógico, comunitário e cooperativo”.


Veja o pensamento de Moltmann sobre a questão do método teológico.

A teologia foi e é para mim uma aventura das ideias. Ela é um caminho aberto, convidativo. Ela fascinou e até hoje fascina a minha curiosidade intelectual. Por essa razão, os meus métodos teológicos surgiram pelo conhecimento dos objetos teológicos. O caminho só foi surgindo ao caminhar. E minhas tentativas de caminhar naturalmente são determinadas no nível biográfico-pessoal, contextual-político e pelo kairós histórico em que estou vivendo. Busquei a palavra certa para o momento certo. Não escrevi manuais teológicos.
Meus artigos de dicionário em diversas enciclopédias teológicas raramente resultaram satisfatórios. Não me caía bem colecionar exatidões teológicas porque estava por demais ocupado com a percepção de novas perspectivas e de aspectos inusitados. Não almejei ser discípulo dos grandes mestres teológicos da geração precedente. Tampouco almejo fundar uma nova escola teológica. Tudo o que quis e quero é estimular outros a descobrirem a teologia por si mesmos, a formularem seus próprios pensamentos teológicos e a se porém, eles próprios, a caminho.
A teologia permanece, necessariamente, fragmentária e inacabada, porque ela é o pensar sobre Deus daqueles que se encontram a caminho e que são, portanto, itinerantes e ainda não chegaram em casa. Por essa razão, até mesmo as catedrais e os domos medievais tinham de permanecer inconclusos, para poderem apontar para além de si mesmos.
Para mim, a teologia ocorre onde pessoas chegam ao conhecimento de Deus e “percebem” a presença de Deus com todos os seus sentidos na práxis de sua vida, de sua felicidade e de seus sofrimentos.
A teologia cristã é uma tarefa comunitária do “ministério teológico geral de todos os crentes”. Por essa razão, procurei valer-me do estilo comunicativo da proposição. Meu interesse não era a defesa de dogmas impessoais ou verdades desprovidas de sujeito. Mas tampouco pretendia externar apenas a minha opinião particular. Desejo, porém, que minhas proposições sejam levadas a sério na comunhão dos teólogos e das teólogas, não apenas topando com aprovação ou rejeição, mas estimulando o diálogo continuado da teologia.
Para mim, o acesso teológico à verdade do Deus triúno é dialógico, comunitário e cooperativo.


MOLTMANN, Jürgen. Experiência de reflexão teológica: caminhos e formas da teologia cristã. Vale do Rio dos Sinos, RS: Unisinos, 2004. p. 11.

David Rubens

Tradução: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. parte do artigo 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos.