quinta-feira, 22 de outubro de 2015

279 - OHDtr, Obra Histórica Deuteronomista e o Surgimento da Monarquia em Israel, David Rubens




Introdução
Os livros históricos têm por tema principal as relações de Israel com Yhaveh, sua fidelidade ou infidelidade, os portadores da Palavra de Deus são os profetas.
Os profetas intervêm com freqüência:
- Samuel
- Natã
- Elias
- Eliseu
- Isaías
- Jeremias
Estes livros, por seu conteúdo, constituem a sequência do Pentateuco; no fim do Deuteronômio, Josué é designado como o sucessor de Moisés, e o livro de Josué começa no dia seguinte ao da morte de Moisés. Alguns supõem que há uma unidade literária entre os dois conjuntos, formando-se um Hexateuco;[1] alguns incluem até os livros dos Reis. Mas esforços para se reencontrar documentos do Pentateuco em Juízes, Samuel e Reis não deram nenhum resultado satisfatório. Contudo, a influência do Deuteronômio e de sua doutrina é clara nos livros de Josué, Juízes, Samuel e Reis. Surgiu então a hipótese de que o Deuteronômio seriá o começo de uma grande história religiosa que se prolonga até o fim de Reis.
Em 1943, na Alemanha, Martin Noth propôs pela primeira vez, que os livros de Josué, Juízes, Samuel e Reis foram uma coletânea de tradições, que deverá ser chamada de historiografia deuteronomista.[2] Nome que lhe é atribuído por sua grande semelhança com as leis e os discursos exortativos do Deuteronômio. Livro este, que por sua vez, em seus discursos iniciais, cumpre a função de introdução à coletânea. Para Noth, a OHDtr teria sido redigida por um só autor, possivelmente na Palestina do século VI a.C. com o objetivo de explicar o fim do reino de Judá e o exílio babilônio então em curso como fruto da apostasia do povo.[3]  
A relação deuteronomista se exerceu sobre tradições orais ou documentos escritos, que diferem pela idade e pelo caráter e que, já estavam agrupados em coleções; e a redação retocou de modo desigual os materiais que usava. Isso explica porque os livros, ou grandes seções deles, conservam sua individualidade. Esta relação deutenonomista não foi feita de uma só vez, cada livro passou por várias edições.
Estes livros são obra de uma escola de homens piedosos, imbuídos das idéias do Deuteronômio.

1  Conflito e pacto na terra de Canaã
De Vaux, fala de um processo de assentamento gradual, lento, de caráter pacífico e em muitos casos feito com alianças, justamente com momentos de conquistas, mas que, em nenhum caso, seria concluída com Josué.[4]

2 Das alianças tribais à monarquia
Durante o século XI a.C., a necessidade das alianças é incrementada pela necessidade de responder aos conflitos com outros povos em disputa pelo pequeno território, ou área de controle.
Dentre os inimigos externos o primeiro lugar é ocupado pelos filisteus, um dos “povos do mar”, que invadiam desde meados do século XII a costa do mediterrâneo oriental. Os filisteus possuíam uma superioridade militar em razão da qualidade de seu armamento.[5]
Na Transjordânia, encontramos três grupos em contínuo relacionamento com Israel: os amonitas, os moabitas e os edomitas.
No período dos juízes, o sistema de federação era democrático ocasional, quando a necessidade, representada pelo conflito exterior o exigese.

3  Rumo a monarquia e ao primeiro estado de Israel
Questões que contribuíram para o surgimento da monarquia:
· Pressão externa crescente.
· Conquista e ocupação.
· Assentamentos urbanos.
· Evolução e notável unificação de tradições literárias comuns.
· Desenvolvimento legal e cultual do Javismo.
· Crescimento de santuários locais.
· Necessidades econômicas de uma sociedade em acelerado processo evolutivo.

4  Surgimento da monarquia
Tendência antimonárquica (1Sm 8.10,17-27; 13,7-15; 28). A monarquia foi rejeitada por alguns grupos sociais, com base em experiências negativas das gerações posteriores, as quais viveram o fracasso e o próprio exílio.
As criticas proviam dos que se sentiam afetados pela mudança, eram feitas também por um grupo que sonhavam com uma sociedade representada pelos valores do Javismo: o profetismo de Israel. O profeta, símbolo da critica à realeza foi Samuel.[6]

5  As primeiras tentativas em direção à monarquia
-                       Abímeleque em Siquém: Jz 9. Três anos durou a tentativa de Abímeleque constituir uma monarquia a partir de Siquém. Não expandiu territorialmente, o território de Abímeleque não passou de uma cidade estado. O próprio Abímeleque destruiu Siquém que contra ele se rebelara.[7]
-                       Jefté em Gileade:[8] Jz 10-12. Jefté atuou como um libertador carismático (Jz 11.290. Jefté, com o título de “cabeça” e de “chefe”, permite perceber como a monarquia vai brotando de dentro das necessidades clânico-tribais. Os anciões detêm a representação. Mas o tribalismo apresenta aspectos de desintegração social. No entanto, Jefté conseguiu apenas 6 anos de “juiz menor” (Jz 12.7).

6  Saul em Gibeá
Antes de tornar “rei”, Saul é “libertador”.[9] Situa-se, nas proximidades de Jefté ou de Gideão-Abimeleque.

O cenário do reino de Saul – está limitado ao território de Efraim e Benjamim, onde se situam todas as localidades que nas histórias de Saul são dotadas de papéis institucionais ou, de qualquer modo, significativos. Os locais cerimôniais estão no território de Efraim, de onde vem o profeta Samuel: Shilo (onde está a arca de Yahweh Seba’ot), Bet-El (o maior santuário da região), Gilgal (onde Saul é proclamado  rei). Os locais políticos estão em Benjamim, de onde vem o rei Saul: Mispa (onde se reúne a assembléia popular), Gibe’a (onde reside Saul), Rama (onde habita o profeta Samuel), Mikmas (lugar de batalha).[10] 

A base do poder de Saul são os parentes e a vontade coletiva dos “homens livres”[11] aqueles que tinham acesso a terra. Mas estes camponeses, que eram bastante eficientes em guerras, não estavam dispostos a estar continuamente à disposição do rei Saul, saído rei de dentro do tribalismo, esta em choque frontal com essa sua própria origem.[12]
A pedra de tropeço para Saul veio a ser Samuel. Este vivia o tribalismo em todo o seu vigor, Samuel era profeta, sacerdote e líder carismático. Ungiu-o e, simultaneamente, o destituiu.
Saul, oriundo da aldeia de Gibeá, segmento social novo, baseado na economia do boi. Saul defende cidade de Jabes. Há interesses comuns entre criadores de gado e cidades um necessita do outro.
A base real da monarquia de Saul situa-se entre os criadores de gado de Gibeá e as potencialidades comerciais de uma cidade como Jabes, nas proximidades da rota comercial da transjordania.
Saul é rei em Gilgal, as tradições cúlticas de Gilgal remonta ao passado tribal.
Em Saul aparece a grandeza do estado territorial:

·                       De Gibeá, vai socorrer Jabes, em Gileade.
·                       Reúne seu exército a lesta da Planície de Jezreel.
·                       Torna-se rei longe de Jabes e de Gibeá, em pleno vale do Jordão, em Gilgal.
·                       Luta contra os amalequitas, no sul palestinense.
·                       Suncumbe lá no norte na luta contra os filisteus.

O Estado de Saul é territorial, substitui a prática das cidades-estados. Nem Abimeleque e nem Jefté haviam alcançado este nível político.
A monarquia, o estado, era realidade social nos vales. Daí o povo havia fugido para as montanhas. Mas, a monarquia por fim, também alcançou as montanhas, vencem o tribalismo. Isto se passou entre 1050 a.C. e 926 a.C.[13]
A monarquia se impõe, mas o tribalismo jamais deixou de existir. Os profetas continuam sendo a voz das tribos. Fonte de sua resistência contra reis e impérios.[14]
O Estado de Saul é bem episódico. Há textos que dão a entender que durou 20 anos, talvez só tenha sido 2! Não formou um exercito profissional (1Sm 31). Não organizou uma capital. Não exigiu tributo. Sua família e alguns amigos era sua corte.
O suporte do estado de Saul eram os “homens”, os camponeses livres e mais abastados, os donos de gado (1 Sm 11). Estes só queriam um rei quando os inimigos estavam próximos.[15]
Saul ficou sozinho com sua família e seu estado foi destruído pelos filisteus. Quem sepultou Saul foram os de Jabes (1Sm 2.4). De chefe carismático, Saul foi transformado em louco e ímpio. Saul sacrifica pessoalmente e não por meio do sacerdote Samuel (1Sm 13.7-15), não pune as infrações aos votos (1Sm 14.24-35), não se atém as normas do herem (1Sm 15.7-9), consulta uma necromante (1Sm 28). Esta difamção é posta em prática logo depois dos eventos, em beneficio de Davi. 

7  Davi no deserto
Davi foge de Saul para o deserto. Junta-se com 400 homens, habiru (1Sm 22.2). Torna-se seu líder e comandante. Este grupo torna-se defensores do gado dos ricos.[16]
-        A caminhada de Davi em direção ao trono:
·                       Toma Hebrom, o centro da grande Judá.
·                       Os de Judá o tornam seu rei na cidade ocupada por seu exercito.
·                       Israel o aclama seu rei para ver-se livre dos filisteus.
·                       De Hebrom conquista Jerusalém[17].
·                       Derrota os filisteus e põe sob seu controle a rota comercial.
-        A liderança de Davi em pontos estratégicos:
ü     Unção em Belém por Samuel: 1Sm 16.4
ü     Aclamado rei de Judá em Hebrom: 2Sm 2.4
ü     Ungido rei sobre Israel em Hebrom por todas as tribos: 2Sm 5.3

Quem fosse contra Davi era morto.[18] No final da vida de Davi existiram muitas lutas pela sucessão. Haviam grupos mais ligados ao campo, a Judá, contra outros mais ligados à cidade.[19]

8  O reino de Salomão
A figura de Salomão (que sucedeu a Davi no final de sangrentas lutas de corte)[20] está ligada a um cenário de expanção, que chegou a compreender todo o território tribal, do Negev à Alta Galiléia.
Salomão organiza o tributo interno, em forma de arrecadação de alimentos e de trabalho forçado. Quem mantinha a corte de Davi eram os povos vizinhos.[21]
O exercito de Salomão não fez guerra com os vizinhos. O inimigo desse exército era interno, eram os camponeses.
Salomão dividiu seu reino em províncias responsáveis pela comida na corte, no estado. A construção do templo esta em função da tributação. O templo é dedicado a Javé, Deus do camponês, de outra forma os camponeses não pagariam seus tributos.[22] 

9  Os dois reinos: Judá e Israel
Com a morte de Salomão termina o reino unido 926 a.C. Começa a história dos dois reinos:[23] Judá e Israel. Esse período termina para Israel em 722 a.C., quando Samaria é anexada ao sistema de províncias assírias. Para Judá, termina em 701 a.C., quando Jerusalém é cercada pelos assírios e quase conquistada.[24]
“A união surgirá por pressão externa dos filisteus, a divisão pertence ao âmbito da autonomia do povo da montanha”.[25] A divisão em dois reinos é obra do tribalismo do Norte, que não queria continuar submetendo-se a Jerusalém (1Rs 11.26-40). 
  No Sul continua dinastia de Davi até 587 a.C., até a destruição de Jerusalém pelos babilônios.
-                    O Sul/Judá era dinástico: tradicional.
-                    O norte/Israel era monárquico: Golpista. 



David Rubens de Souza
Pindamonhangaba-SP




[1] RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Aste, 2006.
[2] RÖMER, Thomas. A Chamada História Deuteronomista: Introdução Sociológica e Literária. Petropolis/RJ. Vozes, 2005. p. 21.  
[3] Gerhard von Rad concorda: “A obra surgiu na época do exílio babilônico. Por pouco que saibamos a respeito do lugar em que foi redigida e da origem do redator”. RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Aste, 2006. p. 327.
[4] BLANC. Luis Fernando Girón. Israel Uma terra em conflito. São Paulo: Paulinas, 2000, p. 17.
[5] Ibidem, p. 19.
[6] Ibidem, p. 30
[7] SCHWANTES, Milton. As Monarquias no Antigo Israel: um roteiro de pesquisa histórica e arqueológica. Paulinas: São Paulo, 2006, p. 16.
[8] Gileade: região fértil,é abundantemente alcançada pelas chuvas. Produz excedentes. Suas heranças (Jz 11.2) podem ser significativas. Vizinhos monarquia: edomitas, moabítas, amonitas. No norte haviam os estados arameus.  
[9] Casa de Saul: 1Sm 10.26. Saul ajuda Jabes: 1Sm 11.5. Ungido rei em Gilgal: 1Sm 11.15.
[10] LIVERANI, Mario. Para além da Bíblia: História antiga de Israel. São Paulo: Paulus; Loyola, 2008, p. 124.
[11] O exército (1Sm 13.1-2) é composto por 2 mil homens de Efraim e mil de Benjamim. A corte tem caráter familiar (o primeiro Abner, o filho Jônatam) e função militar; o próprio rei é belo e alto, forte e hábil combatente, e é designado rei para guiar o povo na guerra. Não vestígio de um aparato fiscal ou administrativo. LIVERANI, p. 124.   
[12] SCHWANTES, Milton. As Monarquias no Antigo Israel: um roteiro de pesquisa histórica e arqueológica. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 21.
[13] Idem. Breve história de Israel. São Leopoldo/RS: Oikos. 2008, p. 18.
[14] Ibidem, p. 18.
[15] Ibidem, p. 23.
[16] Davi põe em prática uma típica política de “chefe de bando”, exigindo tributos em troca de proteção (1Sm 25.4-8). LIVERANI, p. 128.
[17] Siquém, Gibeá, Hebrom e Jerusalém situam-se todas numa mesma rota comercial, naquela que acompanha a divisa de águas, nas montanhas, na direção Sul-Norte: SCHWANTES, Milton. As Monarquias no Antigo Israel: um roteiro de pesquisa histórica e arqueológica. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 30.
[18] Seba da tribo de Benjamim, é morto por propor retorno ao tribalismo (2Sm 20.1).
[19] SCHWANTES, op. cit., p. 24.
[20] Salomão representa a cidade de Jerusalém, a elite, o comercio. Adonias, o campo, Judá.
[21] Um reino soldadesco (Davi) substituído por um reino administraivo (Salomão) com ênfase na corvéia (1Rs 5.27-28; 9.22) e na taxação (1Rs 5.2-8). LIVERANI. p. 135.
[22] SCHWANTES, Milton. As Monarquias no Antigo Israel: um roteiro de pesquisa histórica e arqueológica. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 25.
[23] Para Liverani os reinos de Judá e Israel jamais estiveram unidos, ambos muito pequenos, o reino de Israel estava separado das tribos galiléias pela permanência do corredor “cananeu” da baía de ‘Akko ao médio Jordão. LIVERANI. p.139.
[24] SCHWANTES, op. cit., p. 28
[25] SCHWANTES, op. cit., p. 29


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

278 - Thomas Römer: Pentateuco; História Deuteronomista.


Thomas Römer: Bacharel em Teologia, Universidade de Heidelberg, Alemanha, 1980. Doutorado em Teologia, Universidade de Genebra, Suíça, 1988. Vice-presidente do grupo de investigação bíblica (França). Co-diretor do comitê “história deuteronomista”. Professor da Faculdade de Teologia e Estudos Religiosos da Universidade de Lausanne. Áreas de pesquisa: A formação do Pentateuco; A posição histórica, sociológica e ideológica do judaísmo no período persa. Estudo das várias tradições que compõem a primeira parte da Bíblia hebraica. A historiografia deuteronomista; Condições de estudo e eras que produziu a primeira obra historiográfica da Bíblia hebraica. O Livro dos Números; Estudo literário e histórico do quarto livro do Pentateuco. O livro de Josué; Estudo literário e histórico. Prêmios e Reconhecimentos: Vencedor do prêmio de melhor papel no campo de estudos judaicos 1992. Desde 2007, professor de Bíblia no College de France, Paris.


A Chamada História Deuteronomista: Introdução Sociológica, Histórica e Literária
Trata-se de um estudo sobre a assim chamada “História Deuteronomista”, que abrange os livros de Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2Reis. Na Bíblia Hebraica são chamados “Profetas Anteriores” e nas versões modernas são enumerados entre os livros “históricos”.
Estamos diante de uma introdução de caráter sociológico, histórico e literário, como é especificado no subtítulo da obra.
Pg. 208




Antigo Testamento - História, Escritura e Teologia
Este é um livro que reúne alguns do maiores especialistas em Antigo Testamento e propõem um introdução a cada livro da Escritura, obedecendo à estrutura: Plano e conteúdo, exame do meio histórico de produção, perspectivas de interpretação e indicação bibliográfica. Esta obra de referência servirá a todas as pessoas comprometidas com a leitura rigorosa do Antigo Testamento, seja como instrumento de trabalho ou como programa de formação.
Pg. 848











David Rubens

domingo, 18 de outubro de 2015

277 - Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo - USP



O Museu de Geociências do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo desenvolveu-se a partir do antigo Museu de Mineralogia do Departamento de Mineralogia e Petrologia da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (FFCL). Teve início em 1934, por iniciativa do Prof. Dr. Ettore Onorato, Cadeira de Mineralogia e Petrologia da FFCL-USP no período de 1934 a 1939.
O acervo do Museu foi formado, inicialmente por pequenas coleções de professores, ampliando-se com a integração da coleção Araújo Ferraz, com a aquisição da coleção Luiz Paixão em 1954 e com a doação da coleção C.L.Schnyder em 1984. Atualmente, o acervo vem sendo aumentado, principalmente, por doações feitas por professores, colecionadores particulares, alunos do curso de geologia e, também, pela aquisição de peças individuais.
A orientação inicial do Museu era voltada para os aspectos científicos e didáticos da Mineralogia e da Cristalografia. A partir de 1957, data da criação do curso de geologia na USP, o Museu passou a ser também, um laboratório de aulas práticas para os alunos desse novo curso da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.
A partir de 1981, houve uma grande reestruturação e diversificação no acervo, quando foram incluídas, além das amostras de minerais e cristais, amostras de rochas, gemas, meteoritos e fósseis. O Museu, antes predominantemente mineralógico, transformou-se no atual Museu de Geociências.
Desde 1991, o Museu ocupa uma área de 550 m2, localizada no primeiro andar do edifício principal do Instituto de Geociências. O acervo atual conta com 45.000 peças, das quais cerca de 5.000 estão em exposição permanente. A maior parte do material é nacional e provém de várias regiões brasileiras, enquanto o restante corresponde a amostras de diferentes partes do mundo. Cada uma das categorias - minerais, cristais, rochas, etc - tem critérios próprios de apresentação e particular atenção se dá aos minerais, que por serem mais numerosos, cerca de 5.000 espécies conhecidas atualmente, são cuidadosamente expostas, obedecendo às normas internacionais de classificação.
Visita ao instituto com meus alunos no dia 16 de Outubro de 2015.








276 - Anais do V Congresso da Anptecre disponíveis em PDF.



Textos do momento atual da Ciências da Religião e da Teologia.


275 - Pentateuco: Introdução ao Estudo, David Rubens

Leituras no Pentateuco


Introdução
O Pentateuco não é só um livro de “história” que descreve tudo o que se passou no passado, mas é, ao mesmo tempo, fruto e expressão de todo esse passado vivido, pois ele carrega em si as marcas das diversas épocas. Plantado no mais remoto início do povo, ele foi crescendo, até a forma que hoje possui, nos cinco livros de Moisés. O Pentateuco é como um tapete que se ia enrolando atrás do povo, à medida que este caminhava para a frente.
A proposta deste trabalho é analisar a forma como o Pentateuco vem sendo interpretado deste o fim do século XVIII com o advento dos métodos científicos.

1  História do Estudo do Pentateuco
No período do século XVIII e XIX, sobretudo na Alemanha, os pesquisadores conseguiram resultados significativos para teologia bíblica. Nesse período, havia uma insistência crescente de que o texto bíblico fosse submetido ao estudo mais rigoroso segundo os melhores métodos de análise cientifica. A abordagem racionalista, levou à destruição de sua autoridade. “Ás normas de análise científica não se preocupa com questões de autoridade, não se interessa com o sentido do texto, além de um sentido histórico e científico unidimensional”.[1]
O texto passou a ser controlado pelos peritos. O texto estuda estava sujeito aos seus instrumentos, métodos e conclusões. Negavam ou explicava de maneira diferente aquilo que era considerado como “sobrenatural”.
Houve muitos peritos que se dedicaram a dissecar o texto segundo a metodologia cientifica, mas esse movimento culminou na obra de Julius Wellhausen (1844-1918). A contribuição mais importante da obra de Wellhausen consiste em ter proposto a Hipótese dos Documentos.
Walter Brueggemann explica o método de Julius Wellhausen:

Mediante cuidadosa atenção à forma gramatical, ao estilo, vocabulário e perspectiva religiosa, Wellhausen apresentou a hipótese consistente e persuasiva de que nos primeiros livros do Antigo Testamento (5, 6 ou 9, dependendo do ponto de vista) podemos distinguir quatro camadas literárias diferentes, cada uma moldada por um grupo de escritores diferentes. Cada camada (documento) diferente possui caráter próprio, vocabulário característico, tendências e compreensão da história e da geografia diferente, bem como interesses e pressupostos religiosos próprios.[2]

O centro dessa hipótese situava trechos do Deuteronômio (D) em 621 a.C., com base em 2Reis 22-23. O rolo encontrado ali foi considerado como sendo alguma forma do Deuteronômio. O material mais antigo é constituído por dois empreendimentos literários: um usa o nome “YHWH” para Deus e se intitula J; o outro usa “ELOHIM”, e por isso é chamado E. Cogitou-se numa quarta fonte, posterior ao ano 621 a.C; seu estilo é marcado por formalismos cultuais que deve ter sido escrito por sacerdotes e por isso é chamada de P (do alemão priester, “sacerdote”).

Essa abordagem científica revelou a noção de quatro “Documentos” separados:
Ø Documento ou código Javista (J), onde predomina o nome Javé. Tem estilo simbolista, dramático e vivo; mostra Deus muito perto do homem. Teve origem no reino de Judá com Salomão (972-932).
Ø O código Eloista (E), predomina o nome Elohim (=Deus). Foi redigido entre 850 e 750 a.C, no reino cismático da Samaria. Não usa tanto o antropomorfismo do código Javista. Quando houve a queda do reino da Samaria, em 722 para os Assírios, o código E foi levado para o reino de Judá, onde ouve a fusão com o código J, dando origem a um código JE.
Ø O código Deuteronômio (D), teve origem nos santuários do reino cismático da Samaria (Siquém, Betel, Dã,...) repetindo a lei que se obedecia antes da separação das tribos. Após a queda da Samaria (722) este código deve ter sido levado para o reino de Judá, e tudo indica que tenha ficado guardado no Templo até o reinado de Josias (640-609 a.C), como se vê em 2Rs 22. O código D sofreu modificações e a sua redação final é do século V a.C, quando, então, na íntegra, foi anexado à Torá.
Ø O código Sacerdotal (P) – provavelmente os sacerdotes judeus durante o exílio da Babilônia (587-537 a.C.) tenham redigido as tradições de Israel para animar o povo no exílio. Este código contém dados cronológicos e tabelas genealógicas, ligando o povo do exílio aos Patriarcas, para mostrar-lhes que fora o próprio Deus quem escolheu Israel para ser uma nação sacerdotal (Êx 19,5s). O código P enfatiza o Templo, a Arca, o Tabernáculo, o ritual, a Aliança. Tudo indica que no século V a.C., um sacerdote, talvez Esdras, tenha fundido os códigos JE e P, colocando como apêndice o código D, formando assim o Pentateuco ou a Torá, como a temos hoje.

Outras supostas fontes ou “Documentos”:
Ø Livro da Aliança = Êx 20.22,23.
Ø Código de Santidade = Lv 19.2.

Características de cada “Documento”:
Ø Javista = Teologia antropomórfica;
Ø Eloísta = Teologia do mediador;
Ø Sacerdotal = Teologia da Palavra de Deus;
Ø Deuteronômio = Teologia da Aliança e do nome de Deus.

Brueggemann comenta que: “para realizar sua intenção de escrever um relato histórico e objetivo, Wellhausen reduziu o Pentateuco a um documento não apenas sem autoridade, mas, o que é mais importante, sem relevância, do qual nada se podia separar”.[3]
 O próximo passo importante no estudo do Pentateuco se deu com a obra de Hermann Gunkel (1862-1932). A obra de Gunkel é um esforço para ir além dos pressupostos literários de Wellhausen e levantar questões referentes à forma mais antiga da tradição, a “Forma Oral”. Gunkel passou dos documentos escritos para as tradições orais. Para Wellhausen o texto se converteu numa “mera coisa” a ser controlada. “Para Gunkel o texto se converteu num “tu” vivo e que interpela o intérprete, convidando-o a entrar em diálogos que encerram sentidos não estritamente sujeito à indagação cientifica”.[4]
Enquanto Wellhausen buscava as grandes continuidades literárias (Documentos), a atenção de Gunkel para o detalhe levou-o a enfocar a unidade menor, o episódio individual ou perícope.
Ele caracterizou os tipos especiais de narrativas de mito, saga, lenda e fábula, como portadores de um sentido particular. Estes tipos têm múltiplas funções na comunidade, tais como: criar o assombro e admiração, conferir identidade e conceder legitimidade.[5]
Os parâmetros de interpretação colocados por Wellhausen e Gunkel:

Wellhausen
Ø Abordagem científica;
Ø Consistentemente analítico;
Ø Busca a precisão;
Ø Fala de Documentos;
Ø Valoriza a disciplina;
Ø O que os Documentos querem dizer.

Gunkel
Ø Abordagem artística;
Ø Sintético;
Ø Matiz sugestivo;
Ø Fala de tradições;
Ø Sublinha a imaginação;
Ø O que parece estar ocorrendo na transmissão do texto?

Wellhausen e Gunkel não devem ser considerados como estágios sucessivos na investigação científica, como se um superasse o outro; nem como alternativas, como se um pudesse excluir o outro. Pelo contrário, eles articulam duas tarefas interpretativas muito diferentes, sendo que ambas são necessárias a qualquer compreensão responsável do texto. Devemos tratar as duas abordagens como complementares.

2  O método de Gerhard von Rad (1901-1971)
 Outro grande impulso para o estudo do Pentateuco provém da obra de von rad. Este tinha consciência de que no Pentateuco estamos lidando com histórias que foram “remodeladas”. Ele defendeu que no antigo Israel, o principal formador de sagas era a fé: “não encontramos nem uma única saga que não tivesse recebido da fé sua marca e orientação decisivas”.[6]
As três confissões de fé de Deuteronômio 6.20-25; 26.5-9 e Josué 24.2-13 apresentam as convicções normativas que Israel afirma sobre si mesmo. Em cada uma dessas formulações fundamentais os elementos básicos são o êxodo e a entrada na terra, e num grau menor, a promessa aos pais bem como a peregrinação pelo deserto. Von Rad afirma que estes são elementos em que Israel creu com mais consistência, com o máximo de fidelidade e imaginação.
A partir de von Rad, o estudo do Antigo Testamento ganhou a hipótese interpretativa mais importante.
O Pentateuco não surgiu num vazio, mas foi elaborado por uma comunidade confessante, que procurava cuidadosa e inteligentemente moldar a tradição que expressava sua confissão. A construção de uma confissão não é algo que o intérprete traz para dentro do texto. Ele já a encontra aí. Deixar de considerar esse elemento num texto significa rejeitar sua intenção primeira, que é o próprio querigma.[7]

Von Rad tem uma grande dívida para com dois importantes historiadores do estudo veterotestamentário: seu professor Albrecht Alt e seu colega Martin Noth. Foi Alt quem formulou a hipótese de uma confederação tribal, que foi essencial à tese de von Rad, sugerindo, como de fato o fez, um contexto comunitário e litúrgico em que o credo era recitado. “A fé da comunidade moldou textos que originalmente não tinham nenhum vínculo com ela”.[8]

3  Uma nova leitura do Pentateuco
A teoria documentária e a história da tradição foram questionadas por Rolf Rendtorff. No lugar de JEDP, Rendtorff propôs seis grandes unidades:

1ª História primitiva;
2ª História patriarcal;
3ª História do êxodo;
4ª Experiência do Sinai;
5ª Estadia no deserto;
6ª Instalação na terra.

A história primitiva aglutina gêneros literários diversos: sagas (2; 4; 6-8), mitos (3.1-24; 6.1-4), narrativas didáticas (1.1-2,3; 9.1-17) e genealogias (5; 10; 11.10-32). Este material foi unificado pela distribuição apropriada das toledot (“estas são as gerações de...”). Mas a origem de cada unidade não pode ser indicada com precisão.
As narrativas dos patriarcas são originalmente ciclos independentes (Abrão, Isaque e Jacó/José), unificados pelo tema redacional da promessa.
A edição dos textos aconteceu no tempo em que a existência do povo e a posse da terra eram questionadas, isto é, durante o exílio na Babilônia. No Pentateuco, as unidades  independentes foram juntadas, numa primeira coleção, pelo redator deuteronomista depois do exílio, e foi seguido pelo estrato P de revisão. O deuteronomista teve a maior função na redação do Pentateuco.[9]

Conclusão
O estudo do Pentateuco testemunhou uma variedade de abordagens de investigação científica: literária, crítica das formas, arqueológica, e as que foram feitas a partir da história das tradições. Cada abordagem forneceu importantes questões a serem dirigidas ao texto, e qualquer compreensão adequada do texto exige que enfrentemos todas as demais questões.[10]
Assim, de Wellhausen aprendemos a perguntar: a que estrato literário pertence o texto? Talvez este seja o ponto de partida de qualquer interpretação responsável.
De Gunkel aprendemos a levantar a questão da tradição oral pré-literária: em que forma está expresso o texto, de que contexto vital deriva e o que está ocorrendo no texto enquanto evento de fala e escuta?
Albright nos ensinou a perguntar o que num texto é fatalmente verídico para a história, dentre uma variedade de elementos tradicionais?
De von Rad aprendemos a perguntar: em que forma o texto foi “remodelado” de maneira a se tornar uma expressão de fé normativa de Israel e ser compreendido em sua intenção querigmática?
Essas abordagens não vêm numa sequência nítida, nem visam as novas abordagens, substituir as anteriores. Mas, todas elas fornecem questões fundamentais para análise científica do texto.      
       


David Rubens
Estudo realizado em 19 de janeiro de 2013
Pindamonhangaba/SP





[1] BRUEGGEMANN, Walter. Questões abordadas no estudo do Pentateuco: O dinamismo das tradições do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 12.
[2] BRUEGGEMANN, Walter. Questões abordadas no estudo do Pentateuco: O dinamismo das tradições do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 14.
[3] BRUEGGEMANN, Walter. Questões abordadas no estudo do Pentateuco: O dinamismo das tradições do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 16.
[4] BRUEGGEMANN, Walter. Questões abordadas no estudo do Pentateuco: O dinamismo das tradições do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 17.
[5] BRUEGGEMANN, Walter. Questões abordadas no estudo do Pentateuco: O dinamismo das tradições do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 19.
[6] BRUEGGEMANN, Walter. Questões abordadas no estudo do Pentateuco: O dinamismo das tradições do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 26.
[7] BRUEGGEMANN, Walter. Questões abordadas no estudo do Pentateuco: O dinamismo das tradições do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 29.
[8] BRUEGGEMANN, Walter. Questões abordadas no estudo do Pentateuco: O dinamismo das tradições do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 30.
[9] GORGULHO, Gilberto. A história primitiva Gênesis 1-11: Pentateuco. Petrópolis: Vozes, 1996. p. 33.
[10] BRUEGGEMANN, Walter. Questões abordadas no estudo do Pentateuco: O dinamismo das tradições do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 30.

Tradução: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. parte do artigo 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos.