domingo, 18 de outubro de 2015

275 - Pentateuco: Introdução ao Estudo, David Rubens

Leituras no Pentateuco


Introdução
O Pentateuco não é só um livro de “história” que descreve tudo o que se passou no passado, mas é, ao mesmo tempo, fruto e expressão de todo esse passado vivido, pois ele carrega em si as marcas das diversas épocas. Plantado no mais remoto início do povo, ele foi crescendo, até a forma que hoje possui, nos cinco livros de Moisés. O Pentateuco é como um tapete que se ia enrolando atrás do povo, à medida que este caminhava para a frente.
A proposta deste trabalho é analisar a forma como o Pentateuco vem sendo interpretado deste o fim do século XVIII com o advento dos métodos científicos.

1  História do Estudo do Pentateuco
No período do século XVIII e XIX, sobretudo na Alemanha, os pesquisadores conseguiram resultados significativos para teologia bíblica. Nesse período, havia uma insistência crescente de que o texto bíblico fosse submetido ao estudo mais rigoroso segundo os melhores métodos de análise cientifica. A abordagem racionalista, levou à destruição de sua autoridade. “Ás normas de análise científica não se preocupa com questões de autoridade, não se interessa com o sentido do texto, além de um sentido histórico e científico unidimensional”.[1]
O texto passou a ser controlado pelos peritos. O texto estuda estava sujeito aos seus instrumentos, métodos e conclusões. Negavam ou explicava de maneira diferente aquilo que era considerado como “sobrenatural”.
Houve muitos peritos que se dedicaram a dissecar o texto segundo a metodologia cientifica, mas esse movimento culminou na obra de Julius Wellhausen (1844-1918). A contribuição mais importante da obra de Wellhausen consiste em ter proposto a Hipótese dos Documentos.
Walter Brueggemann explica o método de Julius Wellhausen:

Mediante cuidadosa atenção à forma gramatical, ao estilo, vocabulário e perspectiva religiosa, Wellhausen apresentou a hipótese consistente e persuasiva de que nos primeiros livros do Antigo Testamento (5, 6 ou 9, dependendo do ponto de vista) podemos distinguir quatro camadas literárias diferentes, cada uma moldada por um grupo de escritores diferentes. Cada camada (documento) diferente possui caráter próprio, vocabulário característico, tendências e compreensão da história e da geografia diferente, bem como interesses e pressupostos religiosos próprios.[2]

O centro dessa hipótese situava trechos do Deuteronômio (D) em 621 a.C., com base em 2Reis 22-23. O rolo encontrado ali foi considerado como sendo alguma forma do Deuteronômio. O material mais antigo é constituído por dois empreendimentos literários: um usa o nome “YHWH” para Deus e se intitula J; o outro usa “ELOHIM”, e por isso é chamado E. Cogitou-se numa quarta fonte, posterior ao ano 621 a.C; seu estilo é marcado por formalismos cultuais que deve ter sido escrito por sacerdotes e por isso é chamada de P (do alemão priester, “sacerdote”).

Essa abordagem científica revelou a noção de quatro “Documentos” separados:
Ø Documento ou código Javista (J), onde predomina o nome Javé. Tem estilo simbolista, dramático e vivo; mostra Deus muito perto do homem. Teve origem no reino de Judá com Salomão (972-932).
Ø O código Eloista (E), predomina o nome Elohim (=Deus). Foi redigido entre 850 e 750 a.C, no reino cismático da Samaria. Não usa tanto o antropomorfismo do código Javista. Quando houve a queda do reino da Samaria, em 722 para os Assírios, o código E foi levado para o reino de Judá, onde ouve a fusão com o código J, dando origem a um código JE.
Ø O código Deuteronômio (D), teve origem nos santuários do reino cismático da Samaria (Siquém, Betel, Dã,...) repetindo a lei que se obedecia antes da separação das tribos. Após a queda da Samaria (722) este código deve ter sido levado para o reino de Judá, e tudo indica que tenha ficado guardado no Templo até o reinado de Josias (640-609 a.C), como se vê em 2Rs 22. O código D sofreu modificações e a sua redação final é do século V a.C, quando, então, na íntegra, foi anexado à Torá.
Ø O código Sacerdotal (P) – provavelmente os sacerdotes judeus durante o exílio da Babilônia (587-537 a.C.) tenham redigido as tradições de Israel para animar o povo no exílio. Este código contém dados cronológicos e tabelas genealógicas, ligando o povo do exílio aos Patriarcas, para mostrar-lhes que fora o próprio Deus quem escolheu Israel para ser uma nação sacerdotal (Êx 19,5s). O código P enfatiza o Templo, a Arca, o Tabernáculo, o ritual, a Aliança. Tudo indica que no século V a.C., um sacerdote, talvez Esdras, tenha fundido os códigos JE e P, colocando como apêndice o código D, formando assim o Pentateuco ou a Torá, como a temos hoje.

Outras supostas fontes ou “Documentos”:
Ø Livro da Aliança = Êx 20.22,23.
Ø Código de Santidade = Lv 19.2.

Características de cada “Documento”:
Ø Javista = Teologia antropomórfica;
Ø Eloísta = Teologia do mediador;
Ø Sacerdotal = Teologia da Palavra de Deus;
Ø Deuteronômio = Teologia da Aliança e do nome de Deus.

Brueggemann comenta que: “para realizar sua intenção de escrever um relato histórico e objetivo, Wellhausen reduziu o Pentateuco a um documento não apenas sem autoridade, mas, o que é mais importante, sem relevância, do qual nada se podia separar”.[3]
 O próximo passo importante no estudo do Pentateuco se deu com a obra de Hermann Gunkel (1862-1932). A obra de Gunkel é um esforço para ir além dos pressupostos literários de Wellhausen e levantar questões referentes à forma mais antiga da tradição, a “Forma Oral”. Gunkel passou dos documentos escritos para as tradições orais. Para Wellhausen o texto se converteu numa “mera coisa” a ser controlada. “Para Gunkel o texto se converteu num “tu” vivo e que interpela o intérprete, convidando-o a entrar em diálogos que encerram sentidos não estritamente sujeito à indagação cientifica”.[4]
Enquanto Wellhausen buscava as grandes continuidades literárias (Documentos), a atenção de Gunkel para o detalhe levou-o a enfocar a unidade menor, o episódio individual ou perícope.
Ele caracterizou os tipos especiais de narrativas de mito, saga, lenda e fábula, como portadores de um sentido particular. Estes tipos têm múltiplas funções na comunidade, tais como: criar o assombro e admiração, conferir identidade e conceder legitimidade.[5]
Os parâmetros de interpretação colocados por Wellhausen e Gunkel:

Wellhausen
Ø Abordagem científica;
Ø Consistentemente analítico;
Ø Busca a precisão;
Ø Fala de Documentos;
Ø Valoriza a disciplina;
Ø O que os Documentos querem dizer.

Gunkel
Ø Abordagem artística;
Ø Sintético;
Ø Matiz sugestivo;
Ø Fala de tradições;
Ø Sublinha a imaginação;
Ø O que parece estar ocorrendo na transmissão do texto?

Wellhausen e Gunkel não devem ser considerados como estágios sucessivos na investigação científica, como se um superasse o outro; nem como alternativas, como se um pudesse excluir o outro. Pelo contrário, eles articulam duas tarefas interpretativas muito diferentes, sendo que ambas são necessárias a qualquer compreensão responsável do texto. Devemos tratar as duas abordagens como complementares.

2  O método de Gerhard von Rad (1901-1971)
 Outro grande impulso para o estudo do Pentateuco provém da obra de von rad. Este tinha consciência de que no Pentateuco estamos lidando com histórias que foram “remodeladas”. Ele defendeu que no antigo Israel, o principal formador de sagas era a fé: “não encontramos nem uma única saga que não tivesse recebido da fé sua marca e orientação decisivas”.[6]
As três confissões de fé de Deuteronômio 6.20-25; 26.5-9 e Josué 24.2-13 apresentam as convicções normativas que Israel afirma sobre si mesmo. Em cada uma dessas formulações fundamentais os elementos básicos são o êxodo e a entrada na terra, e num grau menor, a promessa aos pais bem como a peregrinação pelo deserto. Von Rad afirma que estes são elementos em que Israel creu com mais consistência, com o máximo de fidelidade e imaginação.
A partir de von Rad, o estudo do Antigo Testamento ganhou a hipótese interpretativa mais importante.
O Pentateuco não surgiu num vazio, mas foi elaborado por uma comunidade confessante, que procurava cuidadosa e inteligentemente moldar a tradição que expressava sua confissão. A construção de uma confissão não é algo que o intérprete traz para dentro do texto. Ele já a encontra aí. Deixar de considerar esse elemento num texto significa rejeitar sua intenção primeira, que é o próprio querigma.[7]

Von Rad tem uma grande dívida para com dois importantes historiadores do estudo veterotestamentário: seu professor Albrecht Alt e seu colega Martin Noth. Foi Alt quem formulou a hipótese de uma confederação tribal, que foi essencial à tese de von Rad, sugerindo, como de fato o fez, um contexto comunitário e litúrgico em que o credo era recitado. “A fé da comunidade moldou textos que originalmente não tinham nenhum vínculo com ela”.[8]

3  Uma nova leitura do Pentateuco
A teoria documentária e a história da tradição foram questionadas por Rolf Rendtorff. No lugar de JEDP, Rendtorff propôs seis grandes unidades:

1ª História primitiva;
2ª História patriarcal;
3ª História do êxodo;
4ª Experiência do Sinai;
5ª Estadia no deserto;
6ª Instalação na terra.

A história primitiva aglutina gêneros literários diversos: sagas (2; 4; 6-8), mitos (3.1-24; 6.1-4), narrativas didáticas (1.1-2,3; 9.1-17) e genealogias (5; 10; 11.10-32). Este material foi unificado pela distribuição apropriada das toledot (“estas são as gerações de...”). Mas a origem de cada unidade não pode ser indicada com precisão.
As narrativas dos patriarcas são originalmente ciclos independentes (Abrão, Isaque e Jacó/José), unificados pelo tema redacional da promessa.
A edição dos textos aconteceu no tempo em que a existência do povo e a posse da terra eram questionadas, isto é, durante o exílio na Babilônia. No Pentateuco, as unidades  independentes foram juntadas, numa primeira coleção, pelo redator deuteronomista depois do exílio, e foi seguido pelo estrato P de revisão. O deuteronomista teve a maior função na redação do Pentateuco.[9]

Conclusão
O estudo do Pentateuco testemunhou uma variedade de abordagens de investigação científica: literária, crítica das formas, arqueológica, e as que foram feitas a partir da história das tradições. Cada abordagem forneceu importantes questões a serem dirigidas ao texto, e qualquer compreensão adequada do texto exige que enfrentemos todas as demais questões.[10]
Assim, de Wellhausen aprendemos a perguntar: a que estrato literário pertence o texto? Talvez este seja o ponto de partida de qualquer interpretação responsável.
De Gunkel aprendemos a levantar a questão da tradição oral pré-literária: em que forma está expresso o texto, de que contexto vital deriva e o que está ocorrendo no texto enquanto evento de fala e escuta?
Albright nos ensinou a perguntar o que num texto é fatalmente verídico para a história, dentre uma variedade de elementos tradicionais?
De von Rad aprendemos a perguntar: em que forma o texto foi “remodelado” de maneira a se tornar uma expressão de fé normativa de Israel e ser compreendido em sua intenção querigmática?
Essas abordagens não vêm numa sequência nítida, nem visam as novas abordagens, substituir as anteriores. Mas, todas elas fornecem questões fundamentais para análise científica do texto.      
       


David Rubens
Estudo realizado em 19 de janeiro de 2013
Pindamonhangaba/SP





[1] BRUEGGEMANN, Walter. Questões abordadas no estudo do Pentateuco: O dinamismo das tradições do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 12.
[2] BRUEGGEMANN, Walter. Questões abordadas no estudo do Pentateuco: O dinamismo das tradições do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 14.
[3] BRUEGGEMANN, Walter. Questões abordadas no estudo do Pentateuco: O dinamismo das tradições do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 16.
[4] BRUEGGEMANN, Walter. Questões abordadas no estudo do Pentateuco: O dinamismo das tradições do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 17.
[5] BRUEGGEMANN, Walter. Questões abordadas no estudo do Pentateuco: O dinamismo das tradições do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 19.
[6] BRUEGGEMANN, Walter. Questões abordadas no estudo do Pentateuco: O dinamismo das tradições do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 26.
[7] BRUEGGEMANN, Walter. Questões abordadas no estudo do Pentateuco: O dinamismo das tradições do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 29.
[8] BRUEGGEMANN, Walter. Questões abordadas no estudo do Pentateuco: O dinamismo das tradições do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 30.
[9] GORGULHO, Gilberto. A história primitiva Gênesis 1-11: Pentateuco. Petrópolis: Vozes, 1996. p. 33.
[10] BRUEGGEMANN, Walter. Questões abordadas no estudo do Pentateuco: O dinamismo das tradições do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 30.

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