sábado, 9 de janeiro de 2016

293 - Entrevista com Veronika Kubina-Schlier, filha do grande exegeta alemão Heinrich Schlier


Por ocasião do trigésimo aniversário da morte de Heinrich Schlier, grande exegeta luterano convertido ao catolicismo em 1953,30Dias resolveu recordá-lo entrevistando Veronika Kubina-Schlier, a mais nova de seus quatro filhos. A professora Kubina-Schlier, também convertida ao catolicismo ao final dos estudos secundários, aceitou gentilmente adentrar algumas passagens da vida de sua família; passagens que esclarecem mais ainda, caso haja necessidade, o testemunho cristão de Heinrich Schlier. 
A senhora pode nos dizer alguma coisa sobre a história de sua família? Algum de vocês prosseguiu no caminho dos estudos teológicos e exegéticos que seu pai percorreu?
VERONIKA KUBINA-SCHLIER: A história de nossa família não é muito conhecida. Meu pai vem de uma família de médicos; minha mãe, de uma de comerciantes. Somos quatro irmãos, que escolheram profissões muito diferentes: um é físico, outro é especialista em economia política, uma é professora e jornalista; somente eu, a mais nova, de certa forma segui as pegadas de meu pai e de minha mãe, que foi teóloga evangélica. Completei meus estudos de Teologia em Friburgo em Brisgóvia em 1974, com um doutorado sobre o Livro de Jó orientado pelo professor A. Deissler, e trabalho ainda hoje como teóloga. 
Que reflexo tinham em sua família as pesquisas, as descobertas e os aprofundamentos feitos por seu pai nos campos exegético e teológico, e o diálogo que ele desenvolveu com outros grandes estudiosos, como Karl Barth, Rudolf Bultmann, Hans-Georg Gadamer, Martin Heidegger, Erik Peterson, entre outros? A senhora conheceu pessoalmente algum deles? 
KUBINA-SCHLIER: Minha mãe apreciava muito o trabalho de meu pai, e o acompanhou ao longo dos anos de modo competente e crítico. Com a família, raramente meu pai falava de seu diálogo com esses que o senhor chama “outros grandes estudiosos”; é preciso dizer também que não eram muitas as ocasiões para fazê-lo, visto que nossa vida familiar ainda sofria, nos anos do segundo pós-guerra, as consequências incômodas daquele tempo: os riscos a que meu pai tinha-se submetido, a destruição de nossa casa em Elberfeld e a consequente separação dos locais de residência de meus pais. Rudolf Bultmann, Günther Bornkamm e Peter Brunner estavam ligados a nós, por serem nossos padrinhos; Erik Peterson, de vez em quando, nos fazia uma visita em Bonn. Pelo que nos contou nossa mãe, vim a saber muitas coisas sobre seus anos de estudos e seus grandes mestres; depois desse período, pude conversar também com meu pai sobre isso, já numa atmosfera menos tensa. 
Um momento particularmente significativo, não apenas da biografia, mas também da evolução do pensamento de seu pai, parece ter sido a oposição aos Deutsche Christen (os cristãos evangélicos nacionalistas) durante os anos do nazismo. A senhora se lembra de alguma coisa, talvez de como ele se referia a isso posteriormente? 
KUBINA-SCHLIER: O período nazista, para meu pai, não foi um simples momento ou um episódio: sua vida e seu pensamento teológico foram marcados de maneira decisiva pela ideologia dos nazistas e pelos acontecimentos político-eclesiais. Como cristão e homem de visões políticas claras, meu pai (como também minha mãe) soube, desde o início, dar um juízo lúcido sobre o movimento dos “camisas pardas”, resistindo sempre que foi possível: como personalidade de destaque da Igreja confessante (Bekennende Kirche), por exemplo, meu pai deu uma contribuição decisiva para a fundação do Ateneu Teológico de Elberfeld, e foi seu diretor clandestino. Quando o Estado proibiu a atividade do Ateneu, logo depois de sua abertura, em 1935, meu pai não hesitou em devolver, naquele mesmo ano, sua venia legendi [permissão para lecionar, ndr.] a Marburg, explicando seu gesto pela recusa a permanecer, como princípio, num “cargo de ensino que lhe era conferido pelo Estado”. A grave ameaça que o Estado nazista oferecia a sua vida (e também à nossa) determinou, entre outras coisas, a trágica separação de nossa família, que teve reflexos por muitos anos, mesmo depois do final da guerra. Meu pai não falava muito daqueles anos; era minha mãe quem mantinha viva a lembrança desse período para nós, crianças. 

Capas das edições em italiano, espanhol, português, francês, alemão e inglês de Sobre a ressurreição de Jesus Cristo, de Heinrich Schlier, Roma, Morcelliana-30Giorni, 2005

No breve relato biográfico em latim redigido no momento da acolhida de seu pai na Igreja Católica, ele foi definido um “homem profundamente religioso, de grande engenho, muito educado, humilde e reservado”. A senhora considera esses adjetivos adequados? Que outros, a seu ver, seria necessário acrescentar para descrever a personalidade de seu pai?
KUBINA-SCHLIER: Não me parece que uma lista de adjetivos possa fazer justiça a meu pai. Alguns testemunhos biográficos dados por outras pessoas e por ele mesmo, por exemplo em suas cartas, trazem uma imagem muito mais viva dele. Mas, se eu tivesse de acrescentar alguma coisa à lista de qualidades que aparecem no relato da conversão de meu pai, diria: vulnerável, cordial, crítico, espirituoso, generoso...
Como foi recebida por sua família e pelo ambiente que os cercava a passagem de seu pai para o catolicismo? Afinal, ele não era um simples fiel, mas um professor e um pastor evangélico. 
KUBINA-SCHLIER: Como aconteceu em Roma, a conversão de meu pai só foi acompanhada de longe por minha família; nós a aceitamos sem problemas. Graças à postura aberta e tolerante de meus pais, as palavras “evangélico” e “católico”, para nós, não eram termos de uma batalha. Como era previsível, as reações do ambiente ao nosso redor foram muito diferentes: foram desde o mais amplo júbilo (por parte dos católicos) e de uma aceitação amigável e cheia de compreensão, até a incompreensão e uma hostilidade oculta e maligna. Muitos amigos e colaboradores dos anos difíceis continuaram fiéis a meu pai, às vezes mesmo apesar de sérias divergências no mérito das questões. Nesse sentido, eu gostaria de citar apenas alguns nomes: Ernst Bizer, Helmut Gollwitzer, Hans-Georg Gadamer, Günther Bornkamm e Peter Brunner. 
O ano da morte de seu pai foi crucial para a Igreja Católica, o ano dos três papas: da morte de Paulo VI, da eleição e da morte inesperada do papa Luciani e, em seguida, a eleição de João Paulo II. A senhora se lembra de quais eram os sentimentos de seu pai por esses pontífices? 
KUBINA-SCHLIER: Não sei qual foi a relação de meu pai com esses papas. Apesar de sua obediência à hierarquia, ele preferia manter distância de “Roma”. Às vezes, citava uma frase de Erik Peterson: “Quem se converte tendo conhecido ‘Roma’ deve ter um amor profundo pela Igreja”. 
E em relação ao papa Ratzinger, que já era conhecido como teólogo desde os anos do Concílio Vaticano II, e que foi criado cardeal por Paulo VI em 1977, a senhora se lembra de alguma expressão de seu pai ou de algum episódio? A senhora sabe que no discurso de 10 de maio de 2003, na celebração do primeiro centenário da constituição da Pontifícia Comissão Bíblica, o cardeal Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, tomou como modelo a conferência dada por seu pai em 1936 sobre a responsabilidade eclesial de quem estuda teologia? 
KUBINA-SCHLIER: Meu pai trabalhou de boa vontade com Joseph Ratzinger, em diversas comissões e em diferentes ocasiões: ele o apreciava como teólogo dogmático, mas lamentava, às vezes, sua pouca compreensão para com a teologia bíblica e de um pensamento modelado sobre a Bíblia. “É realmente um teólogo dogmático!”, disse ele uma vez, depois de uma semana de trabalho em comum num seminário. Eu não sabia dessa referência feita pelo cardeal Ratzinger a uma conferência de meu pai de 1936, mas, dada a predileção do atual Pontífice por citações de famosos estudiosos do passado, isso não me surpreende. 

Heinrich Schlier, Breve rendiconto. Il racconto autobiografico della conversione al cattolicesimo di uno dei più grandi esegeti del XX secolo, Roma, traduzido e publicado por Òmicron-30Giorni, 1999
Lemos em vários colegas e intérpretes da obra de seu pai que, já nos anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II, ele ficou um tanto isolado, quase realizando na prática o que ele mesmo tinha escrito no final de sua pequena obra autobiográfica Kurze Rechenschaft (Breve prestação de contas), ao dizer que a terra em que ele havia encontrado sua pátria era de certa forma uma terra estrangeira. Isso é verdade? Se sim, por quê? 
KUBINA-SCHLIER: Eu não saberia o que dizer sobre essa marginalização relativa de meu pai já nos primeiros anos do pós-concílio. Tanto no ambiente científico quanto no da interpretação espiritual da Escritura, ele foi muito estimado, até a morte, como demonstram as palavras de Karl Rahner e Günther Bornkamm: “... um carismático do pensamento teológico”; ou as de Rudolf Schnackenburg: “... um mestre da interpretação do Novo Testamento”. São juízos que não vêm de pessoas... estranhas. Além do mais, seus comentários científicos fazem parte das obras aconselhadas nas faculdades teológicas, o que não exclui, antes inclui eventuais críticas a eles; seus pequenos escritos eram muito requisitados em vários ambientes; várias comissões eclesiais pediram seu conselho, tanto que ele foi ativo em diversos níveis da mediação eclesial, desde o conselho paroquial de Sankt Michael, em Bonn, até a Comissão para a Fé e a Moral da Conferência Episcopal Alemã, da qual foi consultor. Com a proliferação das correntes teológicas depois do Concílio Vaticano II, não deve nos surpreender o fato de ter havido também juízos de outro tipo. Quanto à pergunta sobre o que meu pai pretendeu dizer com essa frase do Kurze Rechenschaft, seria preciso dar uma resposta muito mais articulada. Pessoalmente, creio que essa frase tenha brotado de um profundo sentimento de não ter morada neste mundo, de um modo de perceber a vida proveniente de fontes diferentes. Algumas vezes, a marginalização de meu pai foi fruto da inveja e do ciúme de seus colegas católicos. Um exemplo: quando ele estava para ser chamado para lecionar em Munique – se bem me lembro, na época em que a cátedra de Romano Guardini ficou vaga –, “alguém” trabalhou ativamente para impedir sua ida, recuperando uma antiga disposição que proibia que um leigo lecionasse numa cátedra católica. Constatar esse forte ciúme, quase “uma inveja do pão do próximo”, feriu profundamente meu pai, embora, com delicadeza, ele tenha preferido não falar a respeito. Ele havia aprendido a nunca depender de sucessos exteriores e a não buscar a realização de sua vida nas honrarias. Por seu engajamento na Igreja confessante (Bekennende Kirche), já tinha experimentado os obstáculos interpostos a seus projetos profissionais relacionados a Marburg, a Königsberg e até a Halle! 
Nesses trinta anos desde a sua morte, pelo que a senhora sabe, o interesse pela obra e pelo testemunho de seu pai cresceu ou diminuiu? Nos lugares em que houve esse interesse, como e de onde ele nasceu? A senhora sabe que 30Giorni presenteou a todos os seus leitores, em 2005, com uma reedição em italiano do opúsculo Sobre a ressurreição de Jesus Cristo (com prefácio do cardeal Ratzinger), e que em 2008 lançou novas traduções, em inglês, francês, espanhol e português, que suscitaram muito interesse? 
KUBINA-SCHLIER: Fico contente com a grande ressonância das traduções do livrinho Sobre a ressurreição de Jesus Cristo, publicadas como suplemento de sua revista. Nestes trinta anos desde a sua morte, o interesse pela obra de meu pai vem declinando cada vez mais; e há até muitas razões para isso: a exegese desenvolveu novos métodos, adquiriu novos conhecimentos, faz novas perguntas. A linguagem acurada, mas muitas vezes orientada num sentido biblicista e existencialista, hoje quase só é entendida por “iniciados”. Portanto, os escritos de meu pai que ainda suscitam interesse são sobretudo os espirituais. Mais raramente, seus grandes comentários são estudados também por especialistas que querem haurir do rico tesouro da “clarificação do contexto”. Os temas sobre os quais se focalizava o pensamento de meu pai, a Igreja, o ministério, o ministério sacerdotal, são inesgotáveis; mas, pelo que vejo, atualmente não são objeto de amplo debate ou de controvérsia, e as razões para isso não são necessariamente de mérito. Embora as interpretações dadas por meu pai possam ter sido unilaterais e ligadas à situação do momento – o que vale para qualquer obra científica –, o debate, no futuro, terá de se confrontar com sua análise textual.

http://www.30giorni.it/articoli_id_19868_l6.htm 
                                                                         

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

292 - Lançamento: Os Evangelhos - Memória, Biografia, Escritura. Santiago Guijarro Oporto



O estudo dos quatro evangelhos suscita continuamente novas perguntas que precisam ser esclarecidas e respondidas. Este livro trata de algumas delas no âmbito da reflexão que seu autor vem realizando há anos sobre esses textos fundamentais da memória cristã.
As perguntas aqui levantadas têm a ver com três momentos decisivos do processo que vai de Jesus até o evangelho recebido pela Igreja em quatro formas. O primeiro capítulo desta obra - Onde se conservaram as lembranças sobre Jesus? - trata de um aspecto particular ao qual se tem prestado pouca atenção. O segundo - Por que a memória de Jesus ficou fixada em quatro relatos biográficos? - explica a razão pela qual aquelas lembranças adotaram preferentemente a forma de relatos. E o terceiro centra-se na primeira e decisiva fase da recepção desses textos nas comunidades cristãs, para especificar quando os evangelhos começaram a ser considerados "Escritura"?

14X21
80 pg
Loyola



Santiago Guijarro Oporto: Doutor em Teologia Bíblica e Estudos Bíblicos licenciatura em Trilíngue pela Pontifícia Universidade de Salamanca, com uma licenciatura em Sagrada Escritura no Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Durante quinze anos foi diretor da Casa da Bíblia, Madrid, uma instituição da qual ele coordenou uma nova tradução da Bíblia e uma série de comentários sobre todos os livros bíblicos. Ele também foi diretor do Arqueológico espanhol e Instituto Bíblico de Jerusalém. Desde 1996 leciona na Faculdade de Teologia da Universidade Pontifícia de Salamanca, onde é professor de Novo Testamento.



Davi Rubens

291 - A Teologia de Marcos: Apontamentos no Evangelho de Marcos




Introdução
A teologia do século IX concluiu que é em Marcos que devemos procurar a forma mais original da tradição de Jesus. Mas esta confiança foi abalada quando W. Wrede (1901) demonstrou que Marcos fora modelado pela teoria dogmática do Segredo Messiânico, e por fim quando K. L. Shimidt (1919) provou que a estrutura da historia de Jesus em Marcos constitui os elos de ligação das unidades dispersas da tradição, e que estes elos de ligação tinham sido criados livremente pelo evangelista, aquela conclusão da Teologia Liberal tornou-se insustentável.[1]

1. Estrutura do Livro
Por detrás de Marcos só são reconhecíveis unidades de tradição transmitidas isoladamente em pequenos grupos de unidades da tradição oral outrora juntas.

Exemplo:
Ø Discurso polêmico 2.1; 3.35
Ø Parábolas 4.1-32
Ø Milagres beira do lago 4.35; 5.43
Ø Narração da paixão 14.1-66
Este ponto de vista ficou bem conhecido graças ao trabalho da pesquisa crítico-formal.

2. Sobre as Fontes de Marcos
Das formas mais variadas, estudiosos determinaram as fontes de Marcos:

Ø R. Thiel conseguiu extrair de Marcos três evangelhos completos.
Ø E. Hirsch pensa num evangelho petrino que se teria difundido a partir de uma fonte, graças ao trabalho dos Doze.
Ø D. F. Robinson postula um Marcos resumido composto a partir de duas fontes, mas três fontes adicionais, além dos acréscimos do próprio redator.
Ø W. Knox admite como fontes pelo menos nove fragmentos.
Ø P. Parker diz que havia um evangelho judeu-cristão escrito em aramaico, reelaborado por Marcos de um ponto de vista gentio-cristão.
Ø M. Karnetzki, um redator teria ampliado uma fonte histórica que teria sido usada também por Mateus e Lucas, e um segundo redator teria produzido o Marcos, que conhecemos, utilizando tradições orais.
Ø H. A. Guy vê em Marcos uma compilação de páginas dispersas de papiros, a partir dos quais um redator teria feito um livro coerente.
Ø H. Köster sustenta que Marcos teria utilizado uma “fonte de Milagres”.[2]

Nenhuma dessas hipóteses é convincente. Assim para sermos mais precisos, diríamos que o evangelista teria combinado entre si pequenas coleções de diversas tradições e unidades dispersas da tradição, resultando disso tudo uma apresentação mais ou menos coerente.
Não havia na intenção de Marcos nenhuma preocupação de índole biográfica-cronológica.
C. H. Dodd, pretendeu mostrar que o arranjo da narração em Marcos, está essencialmente baseado na seqüência da história de Jesus transmitida pela tradição, tradição esta reconhecível em Atos 10.37,41.
Marcos escreve com a finalidade de proclamar a “boa-nova de Jesus Cristo, Filho de Deus”. Marcos apresenta a história de Jesus como uma seqüência cronológica tem seu ponto de partida na entrada em cena de João Batista e o ponto final da crucificação de Jesus sob Pilatos (1.9; 15.1).
Marcos evidencia, em seu Evangelho, como história, a relevância do Jesus terreno para o kerygma e justamente por isso é o criador do gênero literário “Evangelho”.            

Bibliografia
BORNKAMM, Günther. Bíblia Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 2003.
BULTMANN, Rudolf. Teologia do Novo Testamento, trad. Ilson Kayser. São Paulo: Teológica, 2004.
KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. 17 ed. São Paulo: Paulus, 2004.


David Rubens
Pindamonhangaba-SP




[1] KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. 17 ed. São Paulo: Paulus, 2004. p. 97.
[2] KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. 17 ed. São Paulo: Paulus, 2004. p. 98. 

290 - A Teologia de Mateus: Apontamentos no Evangelho de Mateus



Introdução
O Evangelho de Mateus, junto com o de Lucas tem quase o dobro da extensão do Evangelho de Marcos, tem um plano mais vasto, graças ao acréscimo da pré-história (caps. 1-2) e de um extenso apêndice (28.9-20). Estas duas observações se aplicam também a Lucas.[1] O gênero “evangelho”, criado por Marcos serviu depois para a composição, independente entre si, destes dois grandes evangelhos. Desde os tempos mais antigos até hoje Mateus ocupa na Igreja um lugar de proeminência, com o qual somente João pode se comparar.  

1. Contexto da Tradição de Mateus
O clima sociorreligioso da comunidade de Mateus é tenso. Um conflito sério opõe cristãos e judeus. O Evangelho de Mateus nasceu para manter a coerência doutrinária de sua comunidade e responder ao adversário. Em Mateus, Jesus é descrito como aquele no qual se cumpre as profecias messiânicas. Com inspiração e autoridade, esse Rei davítico assume os traços de um novo Moisés que, sem por fim à Lei judaica, justapõe a ela intransigentes princípios morais baseados no Amor.
Ao longo de todo Evangelho, Jesus ensina e cura:


Ao serviço da mensagem, os milagres atestam que a libertação esperada com a vinda do Messias se realiza em Jesus. Assim, libertado, aquele que crê no Mestre supremo recebe seu ensinamento, segue-o passo a passo na fé, torna-se eventualmente seu discípulo e procura praticar perfeitamente a lei do Reino.[2]


É isso que Mateus demonstra, de um lado, aos judeus que se contrapõem à sua comunidade porque, dizem eles, ela rejeita a Lei de Moisés em proveito de uma outra crença, e, de outro, aos cristãos que fraquejam diante da perseguição.

2. Uma Comunidade Dividida
Além da disputa com os judeus, uma crise interna atingiu a comunidade de MT.
Se, em Mateus, Jesus insiste tanto sobre a Lei, é porque na comunidade mateana a Lei, se encontra numa corrente hostil a toda norma moral. Voluntariamente laxista, à qual é necessário mostrar a exigente dimensão ética da adesão ao Evangelho. Colocando na boca de Jesus a afirmação: “não penseis que vim revogar a Lei e os profetas” (Mt 5.17), “Mateus corrige uma nociva compreensão da relação entre o cristão e a Lei, que divide a comunidade.”[3]

Conclusão
Atrás do Evangelho de Mateus encontra-se uma Igreja local, cuja “doutrina” pode ser discernida com precisão. As suas características principais são: a discussão histórico-salvífica com o judaísmo farisaico-rabínico, o desenvolvimento da autocompreensão como o “verdadeiro Israel”, uma cristologia geralmente sinótica, mas com traços próprios, e, finalmente, um ensinamento sobre o verdadeiro discípulo, de acordo com as exigências de Jesus, com fundamento no “cumprimento da Lei”, que deve superar com as obras o juízo ameaçador.


David Rubens
Pindamonhangaba-SP




[1] TRILLING, Wolfgang. Mateus, O Evangelho Eclesiástico: Forma e Exigências do Novo Testamento. 2. Ed. São Paulo: Teológica, 2004. p. 235.
[2] BONNEAU, Guy. Profetismo e Instituição no Cristianismo Primitivo. São Paulo: Paulinas, 2003. p. 222.
[3] BONNEAU, Guy. Profetismo e Instituição no Cristianismo Primitivo. São Paulo: Paulinas, 2003. p. 190.

289 - Profeta João Batista: Sacerdote do Deserto e Profeta de Libertação



1. As Origens de João Batista
O que sabemos de João Batista se deve ao curioso relato de Lucas 1.5-25; 57-80, que provavelmente vem de uma tradição dos grupos seguidores de João. A narração tem um evidente tom etiológico, já que é feita para justificar a missão posterior de João. Segundo Senén Vidal, “o modelo da narração é típico da tradição israelita sobre origens maravilhosas de personagens famosos”.[1]
A origem histórica de João esta numa família sacerdotal rural. A indicação sobre a abstinência de bebidas alcoólicas (Lc 1.15) é uma antecipação do estilo de vida do posterior profeta do deserto, e esta também relacionado com o caráter sacerdotal de João, pois parece referir-se à norma sobre o serviço dos sacerdotes (Lv 10.9).

2. O Batismo e a Oposição ao Templo
O fato estranho e absolutamente novo na tradição israelita quanto aos ritos batismais, de que João efetuava o batismo de conversão “para o perdão dos pecados” (Mc 1.4) talvez aponte que ele exercia uma função mediadora do perdão de Deus, ao estilo da que exerciam os sacerdotes por meio de seu serviço no Templo.
A oposição ao culto sacrificial do Templo poderia ter seu ponto de apoio na experiência de desilusão de um sacerdote rural ante o aparato do Templo em Jerusalém, dominado por uma aristocracia sacerdotal opressora (João apoiado na figura critica de Elias, Lc 1.16-17. Elias também tinha características sacerdotais, além de profética).

3. Sacerdote do Deserto
A notícia do crescimento de João no deserto (Lc 1.8), não se trata de uma notícia histórica, mas de uma simples indicação literária que teria a função de ligar o relato das origens de João com relato de sua missão posterior, que teve lugar no deserto.
Vidal informa que:


Não existem dados suficientes para resolver a possível conexão das origens de João com o movimento essênio, concretamente como comunidade de Qumran, um grupo especial dentro do amplo movimento essênio da palestina de então”.[2]


No entanto, a origem sacerdotal rural de João, se enquadraria com sua pertença à comunidade qumrânica, dado que esta era dirigida por um grupo sacerdotal separado da aristocracia sacerdotal do Templo em Jerusalém.
O rito batismal de João derivaria imediatamente da típica prática dos banhos purificadores da comunidade de Qumran, só que João teria radicalizado seu sentido, convertendo o batismo efetuado por ele num rito único e com caráter definitivo.

4. A Crise de Israel
Segundo a tradição, a vocação profética de João se inflamou no contato com a situação crítica em que o povo de Israel se encontrava. A adequada compreensão do projeto de João exige, pois, umas precisões sobre o caráter da situação histórica do povo palestino de então.
As dimensões da crise eram muito variadas, porém todas apontavam para algo básico: a questão da sobrevivência de Israel como povo assentado em sua tradição ancestral.
- Crise política: A situação de opressão e calamidade era sentida como uma profunda injustiça ante a qual brotava inevitavelmente a pergunta pela justiça libertadora de Deus em favor de seu povo eleito.[3]
- Crise religiosa: A dura experiência de calamidade convertia-se assim numa aguda crise religiosa, que questionava a própria existência do povo fundado na eleição e na aliança com Deus.
Ai está o pressuposto dos numerosos movimentos de renovação que surgiram naquela época, dentre os quais deve-se incluir o movimento profético de João.[4]
Além da crise política e religiosa, era sentida também a crise econômica experimentada pela maior parte do povo palestino do século I, especialmente o das aldeias, nas quais vivia a maior parte da população daquela sociedade fundamentalmente agrária.

5. Causas da Crise Econômica
- Tipo ecológico: Em todas as regiões a maior parte do terreno era muito pobre, as secas eram freqüentes, e além disso devia-se contar com as catástrofes naturais.
- Ano Sabático: A terra ficava improdutiva a cada sete anos, provocando uma escassez periódica de alimentos.
- Tipo Sociopolítico: Estrutura centralizada, acumulação de terras e riquezas em mãos de uma minoria protegida pela administração, os grandes proprietários que moravam nas cidades.[5]
- Rígido sistema de impostos: Sobre as pessoas físicas e propriedades, além dos impostos dedicados ao Templo e aos sacerdotes, constitui uma fonte de endividamento para uma grande parte da população camponesa.[6]  
Para o povo de Israel, a experiência dessa opressão econômica tinha uma conotação especial que lhe causava uma autêntica crise de identidade.

6. A Visão do Profeta
João, judeu palestinense do século I, teve de experimentar com força essa crise do Israel de seu tempo. A visão que João tinha dessa crise era, com efeito, muito mais radical que a dos diversos movimentos de renovação contemporâneos. Era a visão do profeta do momento decisivo na história de Israel. Um testemunho dessa visão é transmitido por Mateus, Mt 3.7-8.

Conclusão
A visão radical de João foi o ponto de partida e a base de sua missão profética. Porém, a radicalização dessa visão tinha a função de mostrar a radicalidade da libertação e da renovação do povo que João apresentava em sua missão. É nesse amplo horizonte de salvação que se deve situar o forte tom de advertência e de juízo da proclamação de João. Igualmente nos profetas israelitas anteriormente a ele, esse tom tinha por objeto não a condenação de Israel, mas precisamente sua libertação e transformação.
A radical denuncia apontava para a salvação radical.     


David Rubens 
Pindamonhanga-SP 




[1] VIDAL, Senén. Jesus, O Galileu. São Paulo: Loyola, 2009. p. 21.
[2] VIDAL, Senén. Jesus, O Galileu. São Paulo: Loyola, 2009. p. 22.
[3] RUBENS, David. Jesus: Modelo de Práxis Social-Cristã. São Paulo: Kerygma, 2011. p. 19.
[4] VIDAL, Senén. Jesus, O Galileu. São Paulo: Loyola, 2009. p. 24.
[5] RUBENS, David. Jesus: Modelo de Práxis Social-Cristã. São Paulo: Kerygma, 2011. p. 27.
[6] Ibidem, p. 19.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

288 - Formação do Novo Testamento: Breve Introdução

 

O Novo Testamento não existia quando começou o cristianismo. Desde o começo somente ao Antigo Testamento é que se atribuía o caráter de Escritura Sagrada. A formação do cânon do Novo Testamento com os seus vinte e sete escritos, todos muito diferentes entre si, foi uma evolução gradual que ocorreu entre o fim do século II e o século IV. O “cânon”[1] não é o resultado de um processo de colecionar mas de um processo de separar certos escritos considerados como normativos de uma massa de outra literatura eclesiástica e herética.[2]

1. Princípios segundo os quais se fez a seleção
Alguns dos princípios segundo os quais se fez a seleção - tais como autoria direta ou, talvez, somente mediata, dos apóstolos - se evidenciaram como errôneas.
O cânon do Novo testamento é um produto de uma história terre e humana. Não caiu do céu como uma revelação. O impulso por detrás de sua formação, não veio da Igreja, mas de Marcião,[3] que no meio do século II fundou uma contra-igreja. Marcião rejeitava o Antigo Testamento, considerava-o não como a revelação do Deus cristão de amor, mas de outro Deus, um Deus judaico inexoravelmente “justo”.[4]
De acordo com isso Marcião fez sua seleção rigorosa das escrituras cristãs aceitáveis. Seu cânon só tinha onze livros agrupados em duas seções, o Evangelho, uma versão do Evangelho de Lucas e dez cartas do apóstolo Paulo, a quem ele considerava como o mais correto intérprete e transmissor da mensagem evangélica de Jesus. Ambas as seções também foram purgadas de elementos relacionados à infância de Jesus, a religião judaica e outros materiais que contestavam a sua teologia dualista.
A batalha contra essa heresia de Marcião, com o seu dualismo e negação da criação, exerceu um papel importante na formação do Cânon da Igreja.
Sobre o Cânon Kümmel afirma:


Muito provavelmente, no fim do século I já havia uma coleção das epístolas de Paulo. Na verdade, uma coleção de dez epístolas paulinas (sem as Epístolas Pastorais) só aparece claramente confirmada em Marcião, por volta do ano 140, mas é bem pouco provável que Marcião tenha sido o primeiro a reunir tais epístolas.[5]


Harnack[6] defende a tese de que Marcião fora o primeiro a promover a idéia de uma nova Sagrada Escritura, bem como de sua divisão em duas partes, e de que a Igreja o seguira em ambos os aspectos.[7]
 
2. Novo Testamento, corpus canônico das escrituras cristãs
Novo Testamento, não era entendido como um título de um livro, mas como uma afirmação teológica, significando tanto a unidade como a diferença entre a revelação de Deus na Antiga Aliança e seu cumprimento em Cristo.[8] O conceito tem suas raízes em 2Co 3.6, onde Paulo aponta a promessa vétero-testamentária de uma nova aliança em Jr 31.31 e coloca lado a lado a aliança “antiga” e a “nova”,[9] coordenando-as ao mesmo tempo uma com a outra.

3. Origem do termo, Testamento
Na Septuaginta[10], a palavra hebraica para “aliança” em Jr 38.31 foram traduzida por diathéke, que originalmente significava ordenação, dispensação, e economia de salvação. Em latim, por sua vez, a palavra grega foi traduzida por testamentum. Essa palavra latina não significava a ultima vontade e testamento da pessoa ao morrer, mas era portadora da força do sentido grego. Dessa maneira indiretamente, “AT” e “NT” tornaram-se a designação das duas partes do Cânon Bíblico.

4. Jesus Cristo tema do Novo Testamento
No Antigo Testamento uma tumultuada sequência de acontecimentos que cobrem um milhar de anos de história, desde o êxodo de Israel do Egito, passando por seus altos e baixos, até a perda de seu próprio Estado independente e a reconstituição da nação judaica depois do exílio.[11]
O tema do Novo Testamento parece espantosamente simplificado. Pode ser reduzido a um só nome, Jesus Cristo.
Todos os personagens que cruzam as páginas do Novo Testamento são importantes somente enquanto aparece à luz ou à sombra de Jesus. Os cristãos das origens não se interessavam pela mera sequência de fatos históricos nem por descrições dos fatos do próprio Jesus. O seu interesse por Jesus e sua história era realmente um interesse por um acontecimento entre Deus e o mundo, do sentido definitivo e salvífico que nele transparecia.

5. Divisão do Novo Testamento
Os escritos como se acham em nossas bíblias podem dividir-se em três grupos:
Livros históricos (os Evangelhos e Atos) = história passada que é a base da fé.
Livros didáticos (as epístolas) = sistema de doutrina cristã válida para todos os tempos.
Livro profético (Apocalipse) = um quadro do futuro e do fim do mundo.
Mas um estudo mais preciso haverá de mostrar que essa divisão simplificada de tempo em três períodos é insustentável. Porque todos os escritos do Novo Testamento refere-se retrospectivamente na fé ao evento de Cristo, bem como todos eles, ainda que de diversas maneiras, referem-se tanto ao presente como ao futuro.[12]

Conclusão
Que é o Novo Testamento? Ele é o documento original da fé cristã, não no sentido em que o historiador entende este termo. O Novo Testamento é um documento “histórico”, não em sentido arquivístico, mas somente no sentido de ser a proclamação primeira, o apelo original e fundamental à fé. O Novo Testamento expressa as muitas e variadas maneiras e efeitos da fé cristã das origens,[13] de tal modo que envolve o leitor na contínua luta entre fé e conhecimento, na batalha pessoal entre verdade e o erro.   

Bibliografia
BORNKAMM, Günther. Bíblia Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 2003.
BULTMANN, Rudolf. Teologia do Novo Testamento, trad. Ilson Kayser. São Paulo: Teológica, 2004.
KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. Trad. João Paixão, Isabel Fontes Leal Ferreira. 17 ed. São Paulo: Paulinas, 1982.

 David Rubens
Pindamonhangaba-SP






[1] O Cânone Bíblico designa o inventário ou lista de escritos ou livros considerados pelo cristianismo como tendo evidências de Inspiração Divina. Cânone, em hebraico é qenéh e no grego kanóni, têm o significado de “régua” ou “cana [de medir]”, no sentido de um catálogo. A formação do cânone bíblico se deu gradualmente.
[2] Ainda existem algumas dessa outra literatura; algumas em fragmentos e muito dela se perdeu totalmente.
[3] Marcião de Sínope  (85 - 160 d.C). Hipólito relata que Marcião era filho de um bispo na cidade de Sinope, na província romana do Ponto (atualmente na Turquia). Seu contemporâneo Tertuliano o descreve como um proprietário de barcos. Marcião provavelmente foi consagrado bispo, provavelmente um assistente ou um sufragâneo de seu pai em Sinope. Marcião é às vezes chamado de o filósofo do Gnosticismo. Em alguns aspectos essenciais, ele propôs ideias que se alinham bem com o pensamento gnóstico. Assim como eles, Marcião argumentava que Jesus era essencialmente um espírito aparecendo aos homens e não totalmente humano.
[4] Um dogmatismo rígido, baseado em uma interpretação crua de Paulo.
[5] KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. Trad. João Paixão, Isabel Fontes Leal Ferreira. 17 ed. São Paulo: Paulinas, 1982. p. 633.
[6] Adolf von Harnack (1851-1930) foi um teólogo alemão, além de historiador do cristianismo.
[7] KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. Trad. João Paixão, Isabel Fontes Leal Ferreira. 17 ed. São Paulo: Paulinas, 1982. p. 642.
[8] BORNKAMM, Günther. Bíblia Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 2003. p. 13.
[9] Lei e Evangelho.
[10] Septuaginta é o nome da versão da Bíblia hebraica para o grego koiné, traduzida em etapas entre o terceiro e o primeiro século a.C. em Alexandria. Dentre outras tantas, é a mais antiga tradução da bíblia hebraica para o grego, língua franca do Mediterrâneo oriental pelo tempo de Alexandre, o Grande. A tradução ficou conhecida como a Versão dos Setenta (ou Septuaginta, palavra latina que significa setenta, ou ainda LXX), pois setenta e dois rabinos trabalharam nela e, segundo a história, teriam completado a tradução em setenta e dois dias.
[11] BORNKAMM, Günther. Bíblia Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 2003. p. 14.
[12] Ibidem, p. 15.
[13] É errôneo minimizar as diferenças e contradições.



Tradução: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. parte do artigo 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos.